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Diagnóstico tardio do autismo é tema de reflexão e conscientização


 

21/10/2025

 
 

Por: Patrícia Neves

 
 

14:14

 
 

A 5ª edição do TJMT Inclusivo promoveu uma reflexão profunda sobre os desafios de viver com autismo sem diagnóstico na vida adulta. A palestra “Quando a Resposta Chega Tarde: O Diagnóstico de Autismo na Vida Adulta” foi ministrada pela psicóloga e neuropsiquiatra Érica Rezende Barbieri, profissional com 30 anos de experiência na área e mãe de três filhos autistas.

Um deles, Enã Rezende, recebeu um diagnóstico equivocado aos dois anos de idade e apenas aos 18 obteve o resultado correto. Superando todas as dificuldades, ele se formou em Medicina, uma conquista que, segundo a mãe, simboliza o poder da informação e do acolhimento.

A palestra integrou a programação do TJMT Inclusivo: Capacitação e Conscientização em Autismo e foi realizada no dia 17 de outubro na cidade de Rondonópolis.

Durante a palestra, Érica compartilhou sua trajetória pessoal e profissional, destacando a dor e os desafios enfrentados por muitos adultos que passam décadas sem saber que fazem parte do espectro autista. “Muitos desenvolvem estratégias inconscientes para navegar em um mundo neurotípico. Não é apenas uma questão de comunicação verbal, mas de compreender e ser compreendido em todas as interações sociais”, explicou.

A psicóloga também refletiu sobre o impacto do diagnóstico precoce. “Ninguém está preparado para ter um filho com deficiência. Todos sonham com filhos saudáveis e perfeitos, mas é necessário encarar a realidade o quanto antes. Quanto mais cedo vier o diagnóstico, melhores serão as chances de desenvolvimento e tratamento”, orientou.

Durante a apresentação, Érica também ressaltou que muitos pais só reconhecem sinais de autismo em si mesmos ao acompanharem o diagnóstico dos filhos. “Ao perceber semelhanças de comportamento e sensibilidade, a família entende melhor a experiência dessas crianças e pode agir para que não passem pelo que nós passamos”, afirmou.

Projeto Autismo na Escola

Em um dos momentos mais emocionantes, a palestrante  -  que foi uma das parceiras do evento - apresentou o projeto Autismo na Escola, delineado por ela e pelo esposo em 2017, com o objetivo de promover a inclusão de alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) de forma acessível a toda a comunidade escolar. A iniciativa teve início em Rondonópolis, com o uso da cartilha “Autismo, a Realidade”, de Ziraldo.

Em 2019, Erica contou que após a pandemia de Covid-19, graças a uma parceria com o Governo do Estado (via Secretaria de Educação), as escolas estaduais receberam o material, e a iniciativa foi ampliada, chegando à confecção de 500 mil unidades. A cartilha passou, então, a contar a história de Enã, um menino autista que sonha em fazer medicina. Hoje, os municípios podem aderir ao projeto robustecendo ainda mais a rede de conscientização.

Em sua fala, ela apresentou vídeos e reportagens sobre a iniciativa e destacou que a efetividade é diária. “O projeto vai até a sala de aula, explica o que é o autismo, o que é ilusão, ensina como as crianças podem lidar com o colega e orienta também os professores. Lembro de educadores que me diziam: ‘Aprendi mais em 20 minutos do que em toda a minha formação’. Foi quando percebi o quanto era importante falar sobre inclusão.”

Com serenidade, Érica também desfez idealizações. “Muitas pessoas acham que, por eu contar a história do meu filho, todos os autistas vão se formar em Medicina. Não é isso. Tenho também uma filha com grau severo. Mas quantos Enãs ficaram à margem da educação formal por falta de diagnóstico, de olhar, de acolhimento? Quantos talentos se perderam por confundir uma dificuldade com incapacidade?”, questionou.

Por fim, ela reforçou que cada pessoa tem um potencial único e que a inclusão começa pelo reconhecimento dessas diferenças. “Todo mundo tem um talento. Todo mundo é capaz de aprender.”

A palestrante encerrou destacando a importância de ampliar o conhecimento sobre o autismo em mulheres, mais difícil de identificar devido ao mascaramento social. Para isso, o uso de ferramentas lúdicas, como filmes, vídeos e dinâmicas, ajuda a sensibilizar alunos e professores sobre o comportamento e as necessidades das pessoas com TEA.

O evento

O ciclo de capacitações já passou pelas cidades de Cuiabá, Sinop, Sorriso, Cáceres e Rondonópolis, reunindo esforços para promover a conscientização sobre o espectro autista em diferentes regiões do estado. A iniciativa é da Comissão de Acessibilidade e Inclusão, presidida pela desembargadora Nilza Maria Pôssas de Carvalho.

A próxima edição será no dia 5 de dezembro, novamente em Cuiabá.

O projeto “TJMT Inclusivo – Capacitação e Conscientização em Autismo” está alinhado com a Resolução CNJ nº 401/2021, que estabelece diretrizes de acessibilidade no Poder Judiciário.

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Foto: Alair Ribeiro

Coordenadoria de Comunicação Social do TJMT

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