Edilson Mougenot alerta que Constituição não acompanha os desafios da criminalidade
O
procurador de Justiça Edilson Mougenot Bonfim, do Ministério Público de São
Paulo, proferiu a palestra inaugural do “VI Encontro do Sistema de Justiça
Criminal do Estado de Mato Grosso – Ideários entre a Lei e a Realidade”, que
teve início na noite de ontem (29 de outubro), em Cuiabá. Na oportunidade, o
professor, que é doutor em Direito Processual Penal, falou sobre o Sistema de
Justiça Criminal na atualidade.
“Por
que na atualidade? Porque, em cada momento da história do país, nós temos a
necessidade de um tipo de direito, de um tipo de interpretação. No
pós-ditadura, com o advento da democracia, nós tivemos o reclamo de um direito
verdadeiramente voltado ao cidadão, contra uma ameaça que era estatal, pelo
exemplo que tínhamos dos tempos de ditadura, quando não havia o integral
respeito aos direitos fundamentais, de acordo com o testemunho daqueles da
época”, explicou.
“Passada
esta fase, a Constituição internalizou uma verdadeira proteção criminal. Por
quê? Porque ela se voltou à proteção dos direitos do cidadão para um tipo de
crime que havia, que era o crime político da época da ditadura. Mas hoje o que
nós temos é o desafio das organizações criminosas, que nada de romântico tem.
Neste momento, a nossa Constituição está absolutamente desatualizada para fazer
frente ao reclamo de segurança e de justiça penal que o Brasil necessita”,
destacou o procurador.
Na
palestra, Mougenot destacou que os grandes filósofos do século passado diziam
que o ordenamento jurídico não é algo que deva ser eterno, distanciado das
raízes do chão duro da realidade. “O direito é para servir à vida e não a vida
para servir ao direito. O direito é um instrumento posto a serviço da sociedade
em um determinado tempo, em um determinado lugar, portanto sujeito às condições
históricas, sociais e econômicas da concreta realidade em um determinado tempo
e espaço.”
Conforme
o palestrante, o direito que nasce na Constituição de 1988 é aquele que dá uma
resposta ao passado de ditadura. “No meu tempo de faculdade de Direito e logo
depois, colocava-se a culpa das mazelas de alguma criminalidade no Brasil pelos
21 anos de ditadura do regime militar. Dizia-se: ‘Quem viveu um período de
exceção, quem viveu na noite, não poderá conhecer a claridade rapidamente como
se quer, porque temos que reconstruir...’. Já são 40 anos de redemocratização,
oito presidentes, o dobro do número de presidentes da época. O que aconteceu
com o país e com a Constituição Cidadã? Primeiro, aquela Constituição que tinha
olhos voltados ao futuro tinha muito mais um coração refém do passado. (...)
Transformou-se, então, na Constituição mais plena de direitos e garantias que
um homem acusado pode ter. Uma Constituição tão flagrantemente exacerbada em
direitos e garantias que digo, como professor de Direito Comparado, que não
existe no mundo nenhuma outra Constituição que tenha constitucionalizado tantos
direitos e garantias processuais como a Constituição brasileira.”
Mougenot
destacou que o direito, para ser verdadeiro e atender ao reclamo social para o
qual foi socialmente concebido e historicamente formulado, depende da
condicionalidade da situação. “Mudou a situação, tem que mudar o direito. Tem
que adequá-lo aos novos tempos.” Ele lamentou que, no Brasil, ninguém acredita
que a prisão verdadeiramente existe, tamanha a gama de recursos existentes e as
possibilidades de sair. “Você tem mil formas de se evadir da aplicação da lei
penal e ainda há quem ouse dizer que a gente prende muito e prende mal. E, no
Código Penal, quantos crimes, ao final, não ensejam uma pena de prisão? Hoje em
dia, a cada 100 homicídios, um crime máximo, talvez em dez há condenação. E
mesmo assim, com muita desclassificação, com pena minorada. O conceito que se
emana para a sociedade é de uma terra sem lei”, observou.
O
palestrante destacou que, se queremos deixar para nossos filhos um país melhor
do que o que herdamos de nossos pais, é preciso rever nossos conceitos.
“Aqueles que deturpam o pensamento jurídico e a necessidade de um país,
devolvam o Brasil aos brasileiros que vocês sequestraram. Devolvam as ruas aos
cidadãos, aos trabalhadores, que são roubados, que são furtados. Devolvam os parques
infantis para que as crianças possam brincar. Devolvam o riso ao rosto do
carioca, devolvam ao chefe de família o direito de viver e criar os seus
filhos. Devolvam o conceito de dignidade a quem tem honra, a quem é do bem.”
Atuação
interinstitucional
O
desembargador Wesley Sanchez Lacerda (TJMT), integrante do painel da noite
desta quarta-feira, aproveitou a oportunidade para elogiar a atuação
protagonista e proativa do desembargador Marcos Machado, que sempre esteve à
frente dos encontros. “Sempre primando pelo diálogo interinstitucional, que,
aliás, é isso que tem sido muito discutido: esse diálogo e essa necessidade de
atuação interinstitucional organizada, multi-institucional, para combater essa
maré montante das organizações criminosas, que começaram lá atrás no sistema
prisional dos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro”, pontuou.
“Hoje
a gente tem as duas principais facções criminosas do país atuando como
verdadeiras corporações empresariais, migrando para os negócios lícitos e ainda
comandando muita coisa de dentro do sistema prisional. Comandando banhos de
sangue, crimes patrimoniais e migrando para negócios lícitos como combustíveis,
mineração, madeiras e bebidas. Então, essa é uma peculiaridade muito
significativa: não se combate mais a atuação dos negócios somente ilícitos,
como sempre primaram pelo tráfico de drogas. Hoje as instituições do Sistema de
Justiça Criminal têm que estar atentas a isso, para combater negócios
aparentemente lícitos mesclados com negócio ilícito”, complementou o
desembargador.
Dias 30 e 31
Nesta quinta e sexta-feira (30 e 31 de outubro), as atividades são realizadas no Espaço Justiça, Cultura e Arte Desembargador Gervásio Leite, localizado no Tribunal de Justiça de Mato Grosso, das 8h às 17h.
Confira aqui a programação completa do evento.
Outras informações podem ser obtidas pelo e-mail esmagis@tjmt.jus.br ou pelos telefones (65) 3617-3844 / 99943-1576.
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Foto: Alair Ribeiro
Assessoria de Comunicação da Esmagis - MT
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