Mãe e filhos xavantes obtêm registro tardio de nascimento em audiência na aldeia
Uma nova vida começou para Cleciane
Perôna, filha de Amauro Tseretsiuiwa e Jussara Roozani. Ela nasceu às 22h42 do
dia 20 de julho de 2001, na aldeia Novo Paraíso, em Campinápolis. Mas esse
registro somente passou a existir a partir da última quarta-feira (15), quando,
aos 24 anos de idade, a jovem indígena passou a ter certidão de nascimento.
Além dela, seus quatro filhos, Sania
Wa’utomowa’õ (9), Abel Tserewapu (5), Lidiane Pdzaihuti’õ (3) e Sandra
Wa’utonodzadzari’o (6 meses) também passaram a contar com a certidão de
nascimento.
Aproveitando um mutirão de serviços de
cidadania realizado na aldeia Campinas, na Terra Indígena Parabubure, município
de Campinápolis, no último dia 15, a indígena procurou a Justiça para obter o
registro tardio de seu nascimento e de seus filhos. Na oportunidade, ela passou
por audiência de instrução e julgamento conduzida pelo juiz Matheus de Miranda
Medeiros, titular da Vara Única de Campinápolis, e pelo promotor de justiça
Fabrício Miranda Mereb, de quem partiu a iniciativa da ação social.
Cleciane contou com a ajuda das
advogadas Ranielle Caroline de Sousa e Kennia Dias Lino, do Núcleo de Práticas
Jurídicas da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), para ingressar com
ação para alcançar o direito de, enfim, ter cidadania.
A conselheira tutelar Marizethe, que é
xavante, atuou como intérprete ad hoc
(expressão latina que significa “para isto” ou
"para este fim", ou seja, se refere a algo criado especificamente
para atender a uma situação pontual) na audiência, garantindo
acessibilidade à família de indígenas para obter seus direitos.
Na ocasião, Cleciane respondeu às
perguntas de forma coerente, coesa e compatível com a pouca documentação
disponível. As perguntas foram a respeito de seu local e data de nascimento e
de seus filhos, bem como a razão deles não terem sido registrados até aquele
momento. O pai das crianças e marido de Cleciane, Nazario Wareprã, também foi
ouvido, bem como outras duas testemunhas.
Com base nas informações colhidas, a
defesa pediu o reconhecimento do registro tardio. Por sua vez, o representante
do Ministério Público Estadual, promotor de justiça Fabrício Miranda Mereb, se
manifestou favoravelmente, considerando a realidade em que vivem os indígenas,
uma vez que a aldeia fica a aproximadamente 70 quilômetros de estrada de chão
da cidade, além da barreira linguística e questões burocráticas.
Após
ouvir todas as partes e testemunhas, o juiz Matheus de Miranda Medeiros julgou
procedente o pedido e determinou o registro da certidão de nascimento de todos
os integrantes da família.
Em sua
decisão, o magistrado também reconheceu as peculiaridades que envolvem o caso.
“Vale salientar que a população indígena local sofre, diuturnamente, com a
escassez de atendimento ao público, consubstanciada na incapacidade dos poderes
públicos de suprir as diversas e peculiares realidades da tradição. A dignidade
da pessoa humana, longe de ser apenas um princípio norteador, necessita de
aplicação prática, visando se sobrepor às barreiras quase intransponíveis pela
burocracia estatal”, registrou.
Questionado
sobre como se sentiu ao participar desse momento, o juiz Matheus de Miranda
declarou: “É um caso emblemático. Pra mim, foi realizador, principalmente por
ter feito a diferença e participado dessa ação social em parceria com o
Ministério Público e todos os órgãos estaduais, federais e municipais. Todos os
serviços foram oferecidos de forma totalmente gratuita, possibilitando à
população daquela aldeia indígena obter documentos indispensáveis, como RG,
CPF, biometria eleitoral e afins. A iniciativa do Ministério Público é digna de
aplausos, assim como a interação com todos os órgãos locais e a organização do
evento, apoiada e capitaneada pela Ouvidoria-Geral do órgão”.
O
mutirão que possibilitou a realização dessa audiência, bem como outros
atendimentos, foi realizado em parceria pelo Ministério Público Estadual (MPE),
Poder Judiciário, Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Receita Federal,
Prefeitura de Campinápolis, Câmara Municipal, Procuradoria de Justiça, Fundação
Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Conselho Tutelar e diversas outras instituições.
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