Desembargadora Clarice defende Comunicação Não Violenta como caminho para a harmonia nas escolas
No painel de encerramento do Seminário
“Justiça Restaurativa na Educação e na Ambiência Institucional”, dedicado ao
tema “Linguagem Simples e Comunicação Não Violenta na Educação”, a presidente
do Núcleo Gestor da Justiça Restaurativa (Nugjur) do Tribunal de Justiça de
Mato Grosso, desembargadora Clarice Claudino da Silva, convidou o público a uma
reflexão profunda sobre o papel da comunicação na construção de ambientes
escolares mais harmoniosos.
Facilitadora de círculos de construção
de paz, professora universitária e referência na implementação da Justiça
Restaurativa no estado, a desembargadora uniu teoria, prática e experiência de
vida para provocar uma reflexão com uma pergunta essencial aos participantes do
seminário: como cada um de nós contribui, ou deixa de contribuir, para a
harmonia que desejamos?
Logo no início, a desembargadora
relembrou que a linguagem nasceu da necessidade vital do ser humano de
expressar sentimentos e necessidades. “Toda forma de comunicação surgiu do
impulso humano de dizer ao outro o que sentimos e do que precisamos. Contudo,
apesar dos avanços tecnológicos que ampliaram as possibilidades de interação, a
essência da comunicação se perdeu no excesso de julgamentos, críticas e
interpretações precipitadas. Quando nós emitimos uma opinião negativa para o
outro, questionando ou colocando em cheque a sua conduta, nós iniciamos um
bloqueio da comunicação. Esse movimento aciona no outro o mecanismo automático
da defesa, gerando reatividade e, logo, conflito. O ácido mais corrosivo da
terra é a crítica, disse, enfatizando que mesmo a chamada crítica construtiva
carrega dor e cria barreiras imediatas no diálogo.
Ao se aproximar do campo da Educação,
Clarice observou que essa dinâmica se repete na rotina escolar, quando
estudantes são recebidos sob a lógica da repreensão antes mesmo de serem
ouvidos. “O aluno ainda não é escutado integralmente. Ele não é visto como um
ser humano na estrutura que deveria”, lamentou. Para romper esse ciclo, a
Comunicação Não Violenta (CNV) surge como “porta de entrada para a segurança
emocional”, condição essencial para vínculos de confiança.
A desembargadora explicou que a Comunicação
Não Violenta propõe uma estrutura de diálogo baseada em quatro pilares:
observar sem julgar, reconhecer sentimentos, identificar necessidades e
formular pedidos claros, abrindo espaço para acordos que respeitem ambas as
partes. Exemplificou com situações cotidianas, como a frustração ao encontrar
uma pia cheia de louça: “Ao invés de atacar, descrevo o que vejo, falo do que
sinto e do que necessito. Assim, convido o outro ao diálogo, sem acidez”.
Clarice também reforçou que todo
conflito nasce de uma necessidade não atendida, como ensina Marshall Rosenberg.
Assim, responsabilizar o outro apenas reforça a distância emocional. A virada
de chave é a autorresponsabilização, é reconhecer que a forma como reagimos e
como nos comunicamos define a qualidade das relações. “Quando ferimos o outro,
também somos feridos”, lembrou.
“O desafio é ainda maior com
adolescentes, que demandam sensibilidade, empatia e ausência de rótulos. A
linguagem que fere, aquela que julga antes de ouvir, culpabiliza e rotula,
fecha o diálogo e aprofunda distâncias. Não basta ouvir para responder; é
preciso ouvir para compreender”, completou.
Defensora da linguagem simples, a
desembargadora Clarice reforçou que comunicar com clareza é comunicar com
humanidade. “Não é falar bonito. É falar de um jeito que chegue ao coração”,
disse, ressaltando que na educação, a Comunicação Não Violenta é indissociável
da Justiça Restaurativa, porque coloca as relações humanas no centro das
práticas.
A desembargadora encerrou sua fala com
três convites: falar de forma simples e verdadeira; ouvir com presença; agir
com empatia, transformando cada encontro em oportunidade de cuidado mútuo. “O
que fazemos de bom, volta para nós”, afirmou, lembrando que a reconciliação,
pilar máximo da Justiça Restaurativa, só é possível quando a comunicação deixa
de ser ferramenta de ataque e passa a ser ponte para o encontro.
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Naiara Martins / Foto: Josi Dias
Núcleo Gestor da Justiça Restaurativa – NugJur
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