“Hoje é nossa vez”: casamentos são encaminhados e crianças tiram primeiro RG em ação do Judiciário
No segundo dia de
atendimentos da 7ª Expedição Araguaia-Xingu, no Distrito de Espigão do Leste,
em São Félix do Araguaia (1.060km de Cuiabá), o que mais se viu foram histórias
de amor e pertencimento. O que era para ser apenas um dia de serviços de
cidadania se tornou palco de declarações emocionadas e encaminhamentos para
casamentos civis, algo que muitos casais esperaram por anos.
De mãos dadas, lágrimas
nos olhos e voz embargada, o lavrador Domingos Pinheiro da Luz, 57 anos,
enalteceu o que significou esse momento. “Deus presenteou essa linda pessoa na
minha vida. Ela esteve comigo nas horas mais difíceis. Só tenho a agradecer.
Hoje eu vou sair daqui sabendo que vamos casar”, disse.
Ao lado dele, a
companheira Luciene Pereira Lima dos Santos, 54 anos, também esbanjava
felicidade. Ela diz que o casamento é uma escolha e que a vida com Domingos foi
um presente. “Deus colocou um homem muito bom na minha vida. A gente conversa,
se entende no olhar. É a alegria que eu pedi a Deus”, declarou-se.
O casal vive junto há
quatro anos e tentava oficializar a união na cidade, mas a distância da Comarca
mais próxima e o custo do deslocamento sempre adiavam o sonho. Com a expedição,
saíram com todo processo encaminhado.
Quem também aproveitou
essa oportunidade foi o casal Jayne Rafaela Feitosa de Paula, 29 anos,
Flávio Medeiros da Silva, 27 anos. A professora e o operador de máquinas
chegaram à Expedição com o objetivo de atualizar as vacinas da filha mais
velha. Mas saíram com um segundo: o encaminhamento para o casamento.
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Nos braços dela, a
pequena Helena, de apenas 19 dias. “Ontem fez oito anos que a gente namora. Aí
a gente pensou: ‘por que não casar logo?’”, contou Jaime. “Se não fosse a
expedição, teríamos que ir até Confresa. Com bebê, escola, trabalho… ia ficar
para depois. Aqui resolvemos tudo num dia só”, completou.
Milagre - “Já estava tudo pronto. A expedição só
antecipou o milagre”. Assim descreveu Irene Martins de Sousa, 62 anos, a
presença da comitiva na região. Ela e o marido Mauro César Pereira de Sá, 53
anos, já estavam com alianças guardadas e planejavam casar em breve na cidade.
Mas quando souberam que poderia ser encaminhado na Expedição mesmo, não pensaram
duas vezes. “Quando disseram que tinha casamento ontem, eu falei: ‘Hoje é minha
vez’. Deus abriu as portas”. “Casamento é respeitar e amar o outro. Não via a
hora disso acontecer”, acrescentou Mauro.
O casal ainda aproveitou
o ensejo para atualizar documentos pessoais e consultar com o oftalmologista.
“A Expedição resolveu nossa vida. Documento, óculos, tudo. Se não fosse ela, ia
demorar muito tempo”.
Casar na Expedição:
como funciona? O juiz coordenador da Expedição, José Antônio Bezerra Filho, explicou que o
casamento civil exige habilitação, análise documental, envio ao cartório e
manifestação do Ministério Público. Na expedição, com a presença das
instituições que integram o Sistema de Justiça, o processo ganha velocidade.
“Aqui nós iniciamos todo trâmite. Comprovada a renda de até três salários, o
casal tem isenção de taxas. O processo segue ao cartório e o casamento é
marcado. Isso evita deslocamentos de 200 quilômetros e realiza sonhos”,
evidenciou.
Ele destacou que, além de
amor, o casamento previne litígios futuros, pois garante direitos. “Quando há
documentação, diminui ações de guarda, pensão e reconhecimento de união
estável. O casamento traz segurança jurídica”, apontou.
RG e euforia - Enquanto casais oficializavam histórias de amor,
outro momento chamou atenção na 7ª Expedição Araguaia-Xingu em Espigão do
Leste: a emissão do primeiro RG de crianças. Eram pouco mais das 6h quando Artemis
Ferreira Lira, 26 anos, chegou com os filhos
Maurício, 11 anos, e Juliana, 9. Ela havia decidido que aquele seria o dia em
que os filhos teriam, finalmente, o primeiro documento de identificação. “Se
não fosse a expedição, eu nem sei quando ia conseguir. Tudo é gasto, tudo é
longe”, contou a mãe, aliviada.
Maurício não conseguia esconder a
euforia desde o momento que sentou na cadeira de atendimento até quando
escreveu o próprio nome na tela e colocou as digitais na leitora. “Eu gostei de
escrever meu nome e colocar o dedo na máquina. Agora posso fazer muita coisa!”,
disse.
Juliana, mais tímida, confessou que
achou que algo poderia dar errado, mas respirou fundo quando ouviu a
confirmação do atendimento. “Foi legal. Agora vou mostrar meu documento para
todo mundo”, revelou.
Parceiros – A
7ª Expedição Araguaia-Xingu é liderada pelo Poder Judiciário de Mato Grosso,
por meio da Justiça Comunitária, com a participação direta do Centro Judiciário
de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejusc), do Núcleo Gestor da Justiça
Restaurativa (NugJur), da Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja) e do
Juizado Volante Ambiental (Juvam).
A iniciativa se torna possível graças
a uma grande rede de cooperação institucional. Compõem essa força-tarefa órgãos
como a Defensoria Pública, Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MT), Ministério
Público do Estado, Politec, Justiça Federal, Secretaria de Segurança Pública
(Sesp), Polícia Judiciária Civil (PJC), Companhia de Polícia Ambiental, Corpo
de Bombeiros Militar e as Secretarias de Estado de Meio Ambiente (Sema), Saúde
(SES), Educação (Seduc) e Cultura, Esporte e Lazer (Secel).
Também apoiam a expedição a Receita Federal, a Caixa Econômica Federal, o INSS, a Assembleia Legislativa, o Exército Brasileiro e as prefeituras dos municípios atendidos. O projeto ainda conta com o apoio de empresas parceiras, entre elas Aprosoja, Energisa, Paiaguás Incorporadora e Bom Futuro.
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Talita Ormond / Foto: Alair Ribeiro
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
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