“Roda de Vivências” encerra Curso de Letramento Racial e Antirracismo
O senso de comunidade e o
compartilhamento de experiências conduziram a última atividade do Curso de
Letramento Racial e Antirracismo, do Poder Judiciário de Mato Grosso (PJMT),
nessa sexta-feira (13 de junho). A “Roda de Vivências” promoveu um debate de acesso
aos direitos e conquistas, ao reunir vozes negras, ciganas, indígenas e
representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-MT). O evento foi
realizado pelo Comitê de Promoção da Equidade Racial do PJMT e mobilizou
servidores, magistrados e sociedade civil nos ambientes virtual e presencial,
no auditório Desembargador Gervásio Leite, na sede do Tribunal de Justiça, em
Cuiabá.
Indígenas
Conduzida pela historiadora,
professora e doutora em sociologia Silviane Ramos, a roda de vivências permitiu
que diferentes vozes compartilhassem parte de suas trajetórias. A anciã da
roda, Francisca Navantino (Chiquinha), representante indígena do povo Paresi e
doutora em Antropologia Social, deu início às falas ao contar sobre sua luta
pela demarcação de terras, educação indígena e a aplicação tardia de leis
constitucionais.
“Depois da Constituição,
achei que os governos aplicariam o que estava ali. Me decepcionei. Foi só agora
que começaram a discutir e implementar aquilo que já estava assegurado há
décadas. Tivemos que passar por muito sofrimento para sermos ouvidos. Se não
fosse a demarcação, estaríamos quase desaparecidos”, destacou a educadora, que
também integra o Conselho Estadual de Educação.
O reconhecimento
constitucional de que os povos indígenas são parte essencial do Brasil, com
identidade, cultura e direitos próprios, foi lembrado por Francisca Navantino.
Ela reforçou a necessidade de políticas públicas específicas. “Nossa luta é por
políticas públicas diferenciadas, por uma educação e saúde baseadas na cultura.
Estamos no processo de descolonização: antes queriam que esquecêssemos a
cultura, agora estamos voltando a ela. A educação indígena nasce da
ancestralidade. A saúde também. O desenvolvimento econômico deve partir da
cultura. Sem isso, não há identidade”, asseverou a educadora.
Ciganos
Na busca por reconhecimento,
também estão as três etnias ciganas presentes no Brasil (Rom, Calon e Sinti).
Sobre elas e as demandas da sua comunidade, a liderança cigana, Marcos Gattass,
falou da invisibilidade dos grupos. “Nos sentimos pesquisados e desvalorizados
ao mesmo tempo”.
Gattas também destacou a
importância de espaços de discussões e aprendizado, como o Curso de Letramento
Racial e Antirracismo. “Está sendo de grande importância para mim. É um grande
aprendizado. É importante que conheça quem somos nós, ciganos”.
Negros
Na ocasião, o presidente do
Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Cepir), Manoel Silva,
lembrou-se dos desafios da população negra e da falta de perspectivas. “Muitos
não conseguem entrar numa faculdade. Trabalham como operadores de caixa,
frentistas. Não porque sejam profissões ruins, mas porque as oportunidades não
chegaram. A menina de 13 a 15 anos precisa cuidar do irmão porque a mãe vai
trabalhar. O menino precisa trabalhar cedo para sustentar a família. Essa é a
realidade da maioria da população do Brasil, que é negra”.
Durante sua fala, Manoel se
apresentou como uma exceção do sistema, por concluir o ensino superior. “Sou
uma exceção estatística. Tive uma tia freira e estudei no colégio particular
como bolsista. Uma educação que trabalhava com valores e diversidade. Aprendi
sobre religiões de matriz africana, povos indígenas, outros saberes que me
acrescentaram. Sou o primeiro dos três filhos homens da minha família a
concluir o ensino superior. Tenho graduação em jornalismo, letras e duas
pós-graduações. Sigo sonhando com o mestrado e o doutorado”, disse Manoel.
A Roda de Vivência foi
encerrada pela presidente da Comissão de Defesa da Igualdade Racial da OAB-MT,
Roberta de Arruda Chica, que destacou o papel da OAB na construção de espaços
para transformação social.
“O artigo 3º da
Constituição já aponta o caminho da igualdade, do tratamento isonômico. Mas o
que o Tribunal de Justiça fez aqui foi mais profundo: trouxe o letramento pela
equidade. É isso que precisamos buscar. Minha mãe sempre me ensinou que, por
tudo o que percorri, tenho a obrigação de retribuir. Por isso, encaro esses
momentos como aprendizado. A cada fala, levo algo para mim”, reforçou a
advogada.
Durante a mediação da
conversa, Silviane Ramos produziu um poema de encerramento. “Sou gente de
utopias. Ainda acredito nos sonhos. Sonho com um prato chamado equidade. Todos
os dias, luto com fome e fé por cada pedaço”, começou.
Ela destacou a importância
do encontro como espaço de resistência e partilha. “Essa roda linda, potente e
presente, giramos juntos, resistindo e existindo. Que venham mais encontros,
mais mesas partilhadas, mais momentos de bem-viver, onde o cuidado é semente e
a Justiça, alimento”.
A fala-poema deu destaque para o tema central do evento, o letramento racial. “É farol que acende a memória e desfaz o silêncio imposto pela história. É abrir os olhos, escutar o coração, reconhecer o racismo na estrutura e também na ação. Educar para não repetir. Formar para transformar”, concluiu Silviane.
Leia mais notícias sobre o evento:
TJ conclui Curso de Letramento Racial e Antirracismo com valorização de saberes e cultura negros
TJMT lança página do Comitê de Promoção da Equidade Racial em encerramento de curso
Equidade racial no PJMT: o papel de cada um na construção de uma Justiça mais justa
Curso de Letramento Racial tem aula marcada por emoção e reflexão no TJMT
Comitê de Equidade Racial consolida diretrizes do Judiciário de MT no enfrentamento ao racismo
Letramento racial no TJMT é construído com debates e reflexões em curso com mais de 220 inscritos
TJMT inicia curso de letramento racial com reflexões sobre práticas antirracistas
Priscilla Silva / Foto: Maykon Xavier
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
Notícias Relacionadas
10/04/2026 09:18
Amanhã é o último dia para inscrição em curso sobre Equidade Racial no Judiciário
25/08/2025 11:04
Racismo no futebol: presidente do Comitê de Equidade Racial do TJMT participa de seminário nacional
18/11/2025 07:14
Tribunal de Justiça realiza segunda edição do curso “Letramento Racial e Antirracismo”











