TJ conclui Curso de Letramento Racial e Antirracismo com valorização de saberes e cultura negros
Após três dias de aulas on-line, que
ocorreram nos dias 2, 5 e 6 de junho, com a inscrição de mais de 900 pessoas, foi
encerrado nesta sexta-feira (13 de junho) o Curso de Letramento Racial e Antirracismo,
promovido pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), por meio do Comitê de
Promoção da Equidade Racial e da Escola dos Servidores, com um grande evento repleto
de palestras, feira de afroempreendedores, roda de vivências, lançamento da
página do Comitê, além de apresentações culturais. O encerramento do curso
ocorreu de forma híbrida, no auditório ‘Desembargador Gervásio Leite’ e na
plataforma Teams.
O
presidente do TJMT, desembargador José Zuquim Nogueira, ressaltou a importância
do curso, que marcou o início das atividades do Comitê, recentemente instalado.
“O curso de Letramento Racial e Antirracismo proporciona um espaço essencial
para aprofundarmos nossa compreensão sobre o racismo estrutural, também
desconstruir estigmas e reafirmar a importância da diversidade étnico-racial
nas instituições”.
Zuquim destacou ainda que o conhecimento é a
chave para a transformação. “A presença ativa dos magistrados e magistradas,
servidores e servidoras nesses debates não é apenas relevante, mas fundamental.
A consciência racial e o compromisso com a equidade moldam a maneira como
olhamos para cada processo, cada julgamento, cada decisão”, afirmou.
Presidente
do Comitê de Promoção da Equidade Racial do TJMT, desembargador Juvenal Pereira
da Silva apontou que sendo o Poder Judiciário responsável pela prevalência das
normas e princípios da Constituição Federal, particularmente a proteção dos
direitos e garantias individuais do cidadão, a questão racial precisa estar
incluída em sua agenda de debate. “Porquanto aqui estamos para reflexão e
inflexão quanto ao racismo estrutural e institucional e à desigualdade racial,
que malgrado ainda impera, quer por ação, omissão, desinformação na nossa
sociedade”, conclamou.
Conforme
Juvenal Pereira da Silva, o curso de Letramento Racial e Antirracismo é uma das
estratégias de intervenção antirracista. “Para que não haja o mínimo sequer de
resquício em nossa sociedade de discriminação de qualquer ordem, quer seja
racial, religiosa, de gênero. Essa realidade nos impõe encarar com urgência e
responsabilidade. E por ser de ordem estrutural e institucional, não pode ser
negligenciada”, disse.
Leia também: TJMT lança página do Comitê de Promoção da Equidade Racial no encerramento de curso antirracista
Voltado a magistrados, servidores e colaboradores do TJMT, o
curso de Letramento Racial e Antirracismo foi conduzido pela historiadora, professora e doutora em
Sociologia, Silviane Ramos, que no evento de encerramento apresentou um
panorama das atividades. “A adesão me surpreendeu muito! Com o número de
inscrições beirando a casa dos mil. Então isso nos enche de gás para lutar para
que o Comitê de Equidade alavanque ainda mais a sua potencialidade para os servidores,
magistrados e com essa celebração junto à sociedade civil, isso só tem a somar de
forma positiva para a sociedade mato-grossense, saindo na salvaguarda de ser um
TJ que empreende sobre a luta antirracista”.
Silviane
Ramos relatou ainda que o curso se mostrou um verdadeiro espaço de
aquilombamento, no sentido dos participantes negros e brancos se encontrando, relatando
suas vivências e se fortalecendo em sua identidade. “A nossa experiência foi
muito rica no sentido de ter as pessoas brancas,
ou seja, que não são corpos negros, se prontificando com compromisso de
realizar e constituir uma Comissão que opere continuamente sobre isso. Então
nós aquilombamos aqueles negros que tiveram sua identidade roubada, porque a
nossa ancestralidade foi tirada de nós, a nossa identidade foi apagada”.
Monitoramento das
bancas de heteroidentificação
A importância do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade
Racial de Mato Grosso (CEPIR) no monitoramento das bancas de
heteroidentificação e políticas afirmativas foi o tema da palestra proferida
pelo presidente do Conselho, Manoel Silva, e debatido juntamente com a
presidente da Comissão de Defesa da Igualdade Racial da OAB-MT, Roberta de
Arruda Chica.
De acordo com Manoel Silva, em um país com um povo
miscigenado como é o Brasil, muitas pessoas acreditam que têm o direito de
acessar as políticas afirmativas, o que precisa ser debatido para efetivação
das leis que visam à promoção da igualdade racial. “É preciso se enquadrar no
perfil, ter as características, ter esses fenótipos para poder ter a garantia
das políticas de cotas sociais, que são direcionadas para pardos e pretos. As
políticas das cotas são políticas afirmativas para fazer a reparação histórica
dessa população que historicamente teve seu direito negado”, explica.
O
conselheiro lembra que historicamente o povo negro teve menos acesso à Educação
e, por isso, não se vê representado em diversas profissões, o que motiva a
política afirmativa. “A gente sabe que até um momento na história do Brasil, o
preto, o negro, ele não poderia estudar e a partir da década de 70 que eles
passam a ter acesso à educação. Então essas políticas afirmativas visam
garantir que essas pessoas ocupem esses espaços educacionais, ocupem os
concursos públicos. E entendemos também que a maior parte da população é
formada pela população negra e essa população precisa ocupar esses espaços
também”.
Acordo de não persecução penal e a
possibilidade de aplicação nos crimes raciais - O
juiz da 10ª Vara Criminal de Cuiabá, João Bosco Soares da Silva, juntamente com
a professora e advogada Vládia Soares, promoveram o debate sobre o tema. O
magistrado explica que o acordo de não persecução penal faz parte dos métodos consensuais
de conflito e pontua que, no caso dos crimes raciais, a jurisprudência aponta
para a não aplicação.
“Já
há uma tendência jurisprudencial do Supremo, do STJ, e o Tribunal de Justiça do
Mato Grosso acompanha essa tendência no sentido de não se admitir, uma vez que
os crimes relativos à ofensa racial atingem não só o indivíduo, mas toda a
coletividade, o sentimento de justiça social. Isso passa por todo um processo
histórico da inserção do negro na sociedade e na cultura brasileira. Então
exige um tratamento diferenciado e a tendência que se segue na jurisprudência é
de não se admitir esse benefício para os crimes de racismo e injúria racial”,
explica o magistrado.
Boas práticas e parcerias para combate
ao racismo
O encerramento do curso de Letramento Racial também contou com a
apresentação de projetos de educação antirracista realizados na Escola Estadual
Cesário Neto, em Cuiabá, que conta com o apoio do Judiciário, por meio da juíza
Renata do Carmo Evaristo, coordenadora do Comitê de Promoção da Equidade Racial
do TJMT.
De
acordo com o doutorando em Educação e diretor da escola, Wagner Mônantha, as turmas
a partir do 6º ano do ensino fundamental aprendem cada uma sobre um povo
indígena ou quilombola de Mato Grosso, por exemplo, sua história, sua cultura,
seus saberes. O projeto será finalizado com as apresentações para compartilhamento
do aprendizado com toda a escola. A iniciativa põe em prática as Leis 10.639/2003
e 11.645/2008, que tornam obrigatório o ensino das histórias e culturas
afro-brasileira e indígena nas unidades públicas e privadas de ensino do
Brasil. “Os projetos visam justamente trazer esse conhecimento numa perspectiva
decolonial, tirando essa visão do olhar eurocentrado e focando nas
potencialidades que existem na cultura afro, na cultura indígena do nosso
Brasil”, afirma Wagner.
Segundo
ele, a educação antirracista possibilita aos estudantes conhecer saberes
ancestrais, que constituem o povo brasileiro. “O aluno ele precisa entender de
onde a gente vem para poder conhecer também uma perspectiva de futuro que vise conhecer
a sua própria história”, explica.
Com
uma vasta programação, o encerramento do Curso de Letramento Racial também
contou com a palestra “Protocolo de julgamento com perspectiva de raça”,
proferida pela juíza do Tribunal Regional do Trabalho da 23ª Região, Claudirene
Andrade Ribeiro, e moderado pelas juízas do TJMT Alethea Assunção Santos e
Tatiana dos Santos Batista. Além disso, a professora Silviane Ramos também participou do evento como palestrante do tema “Movimento
interno pela equidade – onde você guarda seu racismo” e encerrou a programação moderando
uma roda de vivências com a participação de representantes dos povos negro,
indígena e cigano.
Cultura e arte
O evento também foi permeado por cultura e arte, proporcionando
aos participantes a Feira “Potências Negras Criativas”, composta por empreendedores
do Quilombo Mata-Cavalo, indígenas e ciganos, que expuseram artesanatos,
produtos da agricultura familiar, quitutes, entre outros.
Houve ainda apresentações artísticas. A servidora do TJMT, Ceila Mônica Ferraz, juntamente com o percussionista e professor de capoeira, Regis Gomes, impactaram o público com a interpretação musical do poema “Até no falar devemos respeitar”, de autoria de Ceila. A cantora Sheila Black encantou ao público com canções autorais que tratam da resistência negra no cotidiano da vida. E o grupo de dança cigana “Hijos de la Luna” mostrou toda a beleza e expressividade de sua música.
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Celly Silva
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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