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 13/06/2025   17:46   

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TJ conclui Curso de Letramento Racial e Antirracismo com valorização de saberes e cultura negros

Zuquim – Presidente do TJMT, desembargador José Zuquim, fala ao microfone. Ele é um senhor branco de cabelos e barba brancos, olhos claros, usando camisa rosa clara e terno azul. Após três dias de aulas on-line, que ocorreram nos dias 2, 5 e 6 de junho, com a inscrição de mais de 900 pessoas, foi encerrado nesta sexta-feira (13 de junho) o Curso de Letramento Racial e Antirracismo, promovido pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), por meio do Comitê de Promoção da Equidade Racial e da Escola dos Servidores, com um grande evento repleto de palestras, feira de afroempreendedores, roda de vivências, lançamento da página do Comitê, além de apresentações culturais. O encerramento do curso ocorreu de forma híbrida, no auditório ‘Desembargador Gervásio Leite’ e na plataforma Teams.

O presidente do TJMT, desembargador José Zuquim Nogueira, ressaltou a importância do curso, que marcou o início das atividades do Comitê, recentemente instalado. “O curso de Letramento Racial e Antirracismo proporciona um espaço essencial para aprofundarmos nossa compreensão sobre o racismo estrutural, também desconstruir estigmas e reafirmar a importância da diversidade étnico-racial nas instituições”.

Zuquim destacou ainda que o conhecimento é a chave para a transformação. “A presença ativa dos magistrados e magistradas, servidores e servidoras nesses debates não é apenas relevante, mas fundamental. A consciência racial e o compromisso com a equidade moldam a maneira como olhamos para cada processo, cada julgamento, cada decisão”, afirmou.

Desembargador Juvenal Pereira da Silva concede entrevista à TV.Jus. Ele é um senhor de pele parda, calvo, de cabelos brancos, olhos castanhos, usando camisa branca listrada, gravata azul clara listrada e terno azul. Presidente do Comitê de Promoção da Equidade Racial do TJMT, desembargador Juvenal Pereira da Silva apontou que sendo o Poder Judiciário responsável pela prevalência das normas e princípios da Constituição Federal, particularmente a proteção dos direitos e garantias individuais do cidadão, a questão racial precisa estar incluída em sua agenda de debate. “Porquanto aqui estamos para reflexão e inflexão quanto ao racismo estrutural e institucional e à desigualdade racial, que malgrado ainda impera, quer por ação, omissão, desinformação na nossa sociedade”, conclamou.

Conforme Juvenal Pereira da Silva, o curso de Letramento Racial e Antirracismo é uma das estratégias de intervenção antirracista. “Para que não haja o mínimo sequer de resquício em nossa sociedade de discriminação de qualquer ordem, quer seja racial, religiosa, de gênero. Essa realidade nos impõe encarar com urgência e responsabilidade. E por ser de ordem estrutural e institucional, não pode ser negligenciada”, disse.

Leia também: TJMT lança página do Comitê de Promoção da Equidade Racial no encerramento de curso antirracista

Professora do curso de Letramento Racial, Silviane Ramos, fala ao microfone, em pé, no palco do auditório. Ela é uma mulher negra, com cabelos cacheados e com mechas douradas, usando vestido com estampa afro, blazer de linho branco e óculos de grau de armação bege. Voltado a magistrados, servidores e colaboradores do TJMT, o curso de Letramento Racial e Antirracismo foi conduzido pela historiadora, professora e doutora em Sociologia, Silviane Ramos, que no evento de encerramento apresentou um panorama das atividades. “A adesão me surpreendeu muito! Com o número de inscrições beirando a casa dos mil. Então isso nos enche de gás para lutar para que o Comitê de Equidade alavanque ainda mais a sua potencialidade para os servidores, magistrados e com essa celebração junto à sociedade civil, isso só tem a somar de forma positiva para a sociedade mato-grossense, saindo na salvaguarda de ser um TJ que empreende sobre a luta antirracista”.

Silviane Ramos relatou ainda que o curso se mostrou um verdadeiro espaço de aquilombamento, no sentido dos participantes negros e brancos se encontrando, relatando suas vivências e se fortalecendo em sua identidade. “A nossa experiência foi muito rica no sentido de ter as pessoas brancas, ou seja, que não são corpos negros, se prontificando com compromisso de realizar e constituir uma Comissão que opere continuamente sobre isso. Então nós aquilombamos aqueles negros que tiveram sua identidade roubada, porque a nossa ancestralidade foi tirada de nós, a nossa identidade foi apagada”.

Foto em plano aberto que mostra a palestra sobre bancas de heteroidentificação. No palco estão sentados Manoel Silva, presidente do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial, e a presidente da Comissão de Defesa da Igualdade Racial da OAB-MT, Roberta de Arruda. Monitoramento das bancas de heteroidentificação

A importância do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial de Mato Grosso (CEPIR) no monitoramento das bancas de heteroidentificação e políticas afirmativas foi o tema da palestra proferida pelo presidente do Conselho, Manoel Silva, e debatido juntamente com a presidente da Comissão de Defesa da Igualdade Racial da OAB-MT, Roberta de Arruda Chica.

De acordo com Manoel Silva, em um país com um povo miscigenado como é o Brasil, muitas pessoas acreditam que têm o direito de acessar as políticas afirmativas, o que precisa ser debatido para efetivação das leis que visam à promoção da igualdade racial. “É preciso se enquadrar no perfil, ter as características, ter esses fenótipos para poder ter a garantia das políticas de cotas sociais, que são direcionadas para pardos e pretos. As políticas das cotas são políticas afirmativas para fazer a reparação histórica dessa população que historicamente teve seu direito negado”, explica.

O conselheiro lembra que historicamente o povo negro teve menos acesso à Educação e, por isso, não se vê representado em diversas profissões, o que motiva a política afirmativa. “A gente sabe que até um momento na história do Brasil, o preto, o negro, ele não poderia estudar e a partir da década de 70 que eles passam a ter acesso à educação. Então essas políticas afirmativas visam garantir que essas pessoas ocupem esses espaços educacionais, ocupem os concursos públicos. E entendemos também que a maior parte da população é formada pela população negra e essa população precisa ocupar esses espaços também”.

Acordo de não persecução penal e a possibilidade de aplicação nos crimes raciais - O juiz da 10ª Vara Criminal de Cuiabá, João Bosco Soares da Silva, juntamente com a professora e advogada Vládia Soares, promoveram o debate sobre o tema. O magistrado explica que o acordo de não persecução penal faz parte dos métodos consensuais de conflito e pontua que, no caso dos crimes raciais, a jurisprudência aponta para a não aplicação.

“Já há uma tendência jurisprudencial do Supremo, do STJ, e o Tribunal de Justiça do Mato Grosso acompanha essa tendência no sentido de não se admitir, uma vez que os crimes relativos à ofensa racial atingem não só o indivíduo, mas toda a coletividade, o sentimento de justiça social. Isso passa por todo um processo histórico da inserção do negro na sociedade e na cultura brasileira. Então exige um tratamento diferenciado e a tendência que se segue na jurisprudência é de não se admitir esse benefício para os crimes de racismo e injúria racial”, explica o magistrado.

Wagner Mônantha concede entrevista à TV.Jus. Ele é um jovem negro, de cabelo black power, olhos castanhos, usando camisa vermelha e gravata azul marinho.Boas práticas e parcerias para combate ao racismo 

O encerramento do curso de Letramento Racial também contou com a apresentação de projetos de educação antirracista realizados na Escola Estadual Cesário Neto, em Cuiabá, que conta com o apoio do Judiciário, por meio da juíza Renata do Carmo Evaristo, coordenadora do Comitê de Promoção da Equidade Racial do TJMT.

De acordo com o doutorando em Educação e diretor da escola, Wagner Mônantha, as turmas a partir do 6º ano do ensino fundamental aprendem cada uma sobre um povo indígena ou quilombola de Mato Grosso, por exemplo, sua história, sua cultura, seus saberes. O projeto será finalizado com as apresentações para compartilhamento do aprendizado com toda a escola. A iniciativa põe em prática as Leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que tornam obrigatório o ensino das histórias e culturas afro-brasileira e indígena nas unidades públicas e privadas de ensino do Brasil. “Os projetos visam justamente trazer esse conhecimento numa perspectiva decolonial, tirando essa visão do olhar eurocentrado e focando nas potencialidades que existem na cultura afro, na cultura indígena do nosso Brasil”, afirma Wagner.

Segundo ele, a educação antirracista possibilita aos estudantes conhecer saberes ancestrais, que constituem o povo brasileiro. “O aluno ele precisa entender de onde a gente vem para poder conhecer também uma perspectiva de futuro que vise conhecer a sua própria história”, explica.

Com uma vasta programação, o encerramento do Curso de Letramento Racial também contou com a palestra “Protocolo de julgamento com perspectiva de raça”, proferida pela juíza do Tribunal Regional do Trabalho da 23ª Região, Claudirene Andrade Ribeiro, e moderado pelas juízas do TJMT Alethea Assunção Santos e Tatiana dos Santos Batista. Além disso, a professora Silviane Ramos também participou do evento como palestrante do tema “Movimento interno pela equidade – onde você guarda seu racismo” e encerrou a programação moderando uma roda de vivências com a participação de representantes dos povos negro, indígena e cigano.

Foto em plano aberto que mostra a apresentação artística de Ceila Mônica e Regis Gomes. Ela está no centro do palco, com o microfone na mão. Ele está logo atrás, tocando atabaque. Há uma intérprete de Libras no palco. O público assiste sentado. Cultura e arte

O evento também foi permeado por cultura e arte, proporcionando aos participantes a Feira “Potências Negras Criativas”, composta por empreendedores do Quilombo Mata-Cavalo, indígenas e ciganos, que expuseram artesanatos, produtos da agricultura familiar, quitutes, entre outros.

Houve ainda apresentações artísticas. A servidora do TJMT, Ceila Mônica Ferraz, juntamente com o percussionista e professor de capoeira, Regis Gomes, impactaram o público com a interpretação musical do poema “Até no falar devemos respeitar”, de autoria de Ceila. A cantora Sheila Black encantou ao público com canções autorais que tratam da resistência negra no cotidiano da vida. E o grupo de dança cigana “Hijos de la Luna” mostrou toda a beleza e expressividade de sua música. 

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Celly Silva

Coordenadoria de Comunicação do TJMT

imprensa@tjmt.jus.br

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