Judicialização das questões ambientais abre segundo dia de debates no TJMT

A palestra foi conduzida pela juíza federal Rafaela
Santos Martins da Rosa, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4),
doutora em Direito e coordenadora do JusClima2030 do Conselho Nacional de
Justiça (CNJ). Reconhecida pela atuação acadêmica e institucional em Direito Ambiental,
a magistrada ressaltou a urgência do tema e a importância de o Judiciário
assumir protagonismo diante da emergência climática.
Segundo ela, debates como os realizados no encontro
são essenciais para que magistrados e sociedade possam compreender os impactos
das mudanças climáticas e agir preventivamente. “Minha palestra é sobre emergência climática e parabenizo o Tribunal
por novamente trazer esse tema, priorizar essa agenda”, afirmou.
A juíza destacou que, enquanto o primeiro dia do
evento esteve voltado sobretudo à gestão administrativa do Judiciário, como
políticas de resíduos e redução de emissões, sua palestra teve como foco a
atividade-fim dos tribunais, que é a jurisdição. Nesse campo, explicou, ganha
relevância a responsabilidade civil em matéria climática e os desafios da
chamada litigância climática, que tende a se intensificar nos próximos anos.
Rafaela Rosa também apresentou avanços recentes no
plano internacional que impactam diretamente a atuação dos juízes brasileiros.
Ela lembrou que, em julho deste ano, a Corte Internacional de Justiça e a Corte
Interamericana de Direitos Humanos emitiram opiniões consultivas estabelecendo
deveres dos Estados em relação à emergência climática.
Essas manifestações, segundo a magistrada, produzem
efeitos concretos no país, uma vez que os tribunais nacionais têm a obrigação
de exercer o controle de convencionalidade. “Nós temos que cumprir essas decisões. A implicação é imensa”,
destacou.
Ao tratar do contexto mato-grossense, a juíza
reforçou que o Estado já possui compromissos legais expressos na legislação
interna. Ela citou o decreto estadual de 2021 que prevê a neutralidade em
carbono e a redução de 80% das emissões de gases de efeito estufa até 2030.
Para ela, esses marcos normativos tornam obrigatória a adequação de todas as
atividades econômicas às metas ambientais já fixadas.
Na avaliação da palestrante, a grande novidade do
momento é que o descumprimento dessas normas pode levar à judicialização, com a
imposição coercitiva das obrigações climáticas. Ela ressaltou que não se trata
de um embate entre desenvolvimento e meio ambiente, mas da própria
sobrevivência das atividades produtivas.
“O avanço da emergência
climática prejudica, evidentemente, as principais atividades econômicas. Nós
dependemos de um clima estável para ter uma produção agrícola condizente com
essa realidade. Então, é interesse de todos os setores conseguir controlar as
emissões”,
explicou.
A magistrada também chamou atenção para o movimento
crescente de ações judiciais que responsabilizam não apenas o poder público,
mas também empresas privadas, instituições financeiras e outros agentes que
financiam atividades econômicas. Na visão dela, o não cumprimento das metas de
redução de emissões traz riscos concretos de agravamento da crise climática e
coloca em xeque a capacidade de adaptação dos sistemas sociais e econômicos.
Concluindo sua fala, Rafaela Rosa destacou que a
judicialização é uma tendência inevitável, mas que o mais importante é a
mudança na percepção da sociedade sobre a centralidade da pauta climática. “Parece-se que há uma melhoria, pelo menos na
percepção geral, de que não há como negar o trato a esse problema. Um evento
como hoje mostra o quanto isso está na prioridade”, afirmou.
A palestra marcou a abertura da programação de
quinta-feira (18), que segue com painéis e debates voltados à transição
energética, gestão de resíduos sólidos, contratações sustentáveis e negócios
relacionados à agenda ESG. O encontro reúne magistrados, servidores,
especialistas e estudantes, reforçando o compromisso do Judiciário
mato-grossense com práticas de sustentabilidade e a agenda climática.
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Flávia Borges
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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