Congresso Internacional debate interpretação judicial e impactos da inteligência artificial
Nem
toda mudança no Direito começa com uma nova lei. Muitas vezes, ela nasce da
forma como juízes interpretam decisões passadas e é justamente nesse
território, entre tradição e transformação, que o primeiro dia do Congresso
Internacional de Precedentes levou o público a refletir, em Cuiabá.
Promovido pela Escola Superior da Magistratura de Mato Grosso (Esmagis), o evento reúne juristas do Brasil, da Itália e da Espanha para discutir a formação e a aplicação dos precedentes judiciais, sob uma perspectiva comparada, além dos impactos da Inteligência Artificial no sistema de Justiça. A programação ocorre nos dias 2 e 3 de fevereiro e é voltada a magistrados, servidores, membros do Ministério Público, advogados e acadêmicos do Direito.
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Legalidade,
interpretação e fidelidade aos precedentes
Na
palestra inaugural, o vice-presidente do Tribunal Constitucional da Itália,
professor doutor Francesco Viganò, tratou do tema “Princípio da legalidade,
certeza do direito e precedentes judiciais”, abordando os desafios teóricos
e práticos da interpretação judicial.
Segundo
o jurista, a atividade do juiz não se resume à aplicação mecânica da lei. “A
tarefa do juiz é decidir casos concretos, e essa tarefa não pode se esgotar,
como ingenuamente se acreditava, na simples aplicação da lei. A aplicação da
lei pressupõe, necessariamente, uma operação prévia de interpretação”, afirmou.
Viganò
destacou que toda interpretação envolve escolhas, mas que essas escolhas não
são livres, pois devem permanecer condicionadas ao texto legal. “A sujeição à
lei se expressa, antes de tudo, como sujeição ao texto da lei. A interpretação
deve sempre partir do texto e, ao final, retornar ao texto”, pontuou.
Ao
tratar da relação entre independência judicial e precedentes, o palestrante
ressaltou que a estabilidade das decisões é essencial para a confiança dos
cidadãos no sistema de justiça. “A existência de uma jurisprudência estável
permite que os cidadãos possam prever, de maneira razoável, as consequências
jurídicas de suas condutas”, disse.
Para
o professor, mesmo nos sistemas de civil law, é necessário um respeito
tendencial às decisões das cortes superiores. “Em um sistema jurídico de civil
law, embora não exista uma regra formal de vinculação aos precedentes, deve
haver, como regra geral, um respeito tendencial às decisões das cortes
superiores”, afirmou.
Ele
também defendeu que a superação de precedentes deve ocorrer apenas em situações
excepcionais. “A superação de precedentes deve ser considerada como um remédio
de última instância, reservado para situações em que existam razões muito
fortes para justificar a mudança”, completou.
A
construção dos precedentes e o diálogo com as distinções
O
primeiro painel do congresso foi conduzido pela juíza de Direito do Tribunal de
Justiça do Paraná, professora doutora Simone Trento, que abordou o tema “A
construção de precedentes e seu diálogo com as distinções subsequentes”. A desembargadora do TJMT, Helena Maria Bezerra Ramos e o promotor de Justiça do Ministério Público de Mato Grosso, René do Ó Souza compuseram a mesa de debates como presidente e debatedor, respectivamente.
De
acordo com a magistrada, o sistema de precedentes é construído a partir de um
diálogo permanente entre decisões passadas e casos futuros. “O sistema de
justiça faz julgados que funcionam como precedentes e depois esses precedentes
são invocados nos processos que se seguem e eles enriquecem ainda mais o
debate, fazendo esse diálogo, essa conversa com o que já foi julgado e o que
vem a ser julgado no futuro”, explicou.
Durante
a exposição, Simone Trento ressaltou que o Brasil ainda vive um momento inicial
de consolidação da cultura dos precedentes. “No Brasil, nós estamos ainda
construindo o começo de uma trajetória do que é lidar com precedentes na
compreensão do direito e na aplicação do direito”, afirmou.
A
magistrada também destacou a importância do intercâmbio entre juristas de
diferentes países e regiões. “É muito importante que se promova esse diálogo
entre professores de outros países e professores de diferentes lugares do
Brasil, porque nós ainda estamos construindo no Brasil uma cultura de respeito
aos precedentes”, disse.
Em entrevista, a juíza reforçou o papel institucional do Tribunal de Justiça de Mato Grosso na promoção desse debate. “Por isso é muito importante que o Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso dê o espaço, o incentivo, os recursos materiais e humanos para promoção dessa conversa, desse diálogo.”
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Foto: Alair Ribeiro
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
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