Congresso Internacional de Precedentes debate inteligência artificial e segurança jurídica em Cuiabá
O
Poder Judiciário de Mato Grosso, por meio da Escola Superior da Magistratura
(Esmagis-MT), realizou na tarde desta terça-feira (3), no auditório do Complexo
dos Juizados Especiais de Cuiabá, mais uma etapa do Congresso Internacional de
Precedentes, com foco no debate sobre inteligência artificial e precedentes
judiciais.
O
sétimo painel foi presidido pelo desembargador Lídio Modesto da Silva Filho, responsável
pelo eixo de tecnologia digital da Esmagis-MT, que destacou a importância da
iniciativa e a relevância do tema para o aprimoramento da prestação
jurisdicional.
No
debate, dois dos principais pesquisadores convidados do evento: o professor doutor
livre-docente da Universidade de São Paulo (USP) Luciano Vieira de Araújo,
coordenador do curso de Sistemas de Informação, com atuação em ciência de
dados, aprendizado de máquina e big data, e a professora doutora da USP Ana
Carla Bliacheriene, que atua nas áreas de Direito, Gestão Pública, Inovação,
Inteligência Artificial Generativa, Resiliência Cibernética e Smart Cities.
Ambos trouxeram reflexões sobre os impactos da inteligência artificial no
sistema de Justiça e na aplicação dos precedentes.
A
professora Ana Carla, em trabalho desenvolvido conjuntamente com o professor
Luciano Araújo, apresentou uma classificação que separa a inteligência
artificial generativa em dois grupos: passiva e ativa.
Ela
observou que as IAs generativas passivas correspondem, em grande medida, aos
sistemas comerciais de chat disponíveis no mercado, que funcionam como
interfaces amigáveis para pesquisar, interpretar e dialogar com documentos ou
temas ainda pouco conhecidos pelo usuário.
Por
outro lado, as IAs generativas ativas representam um estágio mais avançado,
pois permitem interação direta com grandes massas de dados institucionais, incluindo
bancos de processos do Poder Judiciário, viabilizando análises amplas,
estruturadas e sistemáticas em escala.
“O precedente vem para dar
segurança, estrutura, estabilidade, acesso à justiça. Nós aprendemos isso. Na
prática, o mandamento é essa norma, é um grande ponto de luz. Talvez, agora,
tenhamos uma tecnologia que nos dá a oportunidade de fazer o Processo Civil
voltar para os outros passos, o passo de acordo social, porque é capaz de
apoiar o humano naquilo que ele é incapaz de fazer diante do ganho processual”,
disse a professora.
Qualidade
A
professora destacou que o congresso se sobressaiu pela amplitude e profundidade
dos temas abordados, com análises teóricas e críticas sobre a aplicação dos
precedentes no Brasil em comparação à experiência internacional. Segundo ela, o
elevado volume de processos torna indispensável o uso da tecnologia para
auxiliar na identificação de demandas repetitivas, desde que observados
critérios éticos e técnicos.
Nesse
contexto, enfatizou a importância da Resolução nº 615 do Conselho Nacional de
Justiça (CNJ), que estabelece diretrizes para o uso responsável da inteligência
artificial no Poder Judiciário, e mencionou as pesquisas desenvolvidas na USP
voltadas à criação de sistemas de IA generativa com rastreabilidade,
transparência e auditabilidade.
Para
o professor Luciano Vieira de Araújo, o congresso possibilitou a reflexão a
partir da perspectiva da inteligência artificial generativa. “Os precedentes
são fundamentais para estruturar o ordenamento jurídico, promover coerência
decisória e fortalecer a segurança jurídica. A inteligência artificial nos
oferece a oportunidade de aprofundar esse debate e pensar em como lidar com os
desafios e exigências que os tribunais enfrentam atualmente. Nesse contexto, as
escolas da magistratura desempenham um papel essencial na formação e na
reflexão crítica sobre essas transformações, como é o caso da Esmagis”.
Ele
pontua que embora a inteligência artificial generativa seja muito avançada, seu
uso nem sempre tem gerado os resultados esperados, mesmo quando se utilizam
bons comandos (prompts) ou sistemas automatizados sofisticados.
“O
que defendemos é que a tecnologia deve ser empregada de forma estratégica,
apoiando a execução de tarefas processuais e liberando magistrados e servidores
para se dedicarem ao que é essencial: a análise jurídica, a interpretação e o
julgamento qualificado dos casos. Nossa proposta é adotar uma abordagem
integrada, que combine diferentes recursos computacionais e ferramentas de
inteligência artificial generativa para apoiar todo o fluxo de análise
processual, desde a organização das informações até a preparação dos elementos
necessários para uma decisão bem fundamentada”, opina Araújo.
Doutor em Direito, professor da
Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e convidado a
participar dos debates, Marco
Aurélio Marrafon destacou a necessidade de equilíbrio entre inovação
tecnológica e garantias jurídicas:
“Nossa
formação jurídica foi moldada pela tradição humanista da modernidade, a partir
de um conceito de Estado de Direito construído entre o final do século XVII e o
início do século XVIII. No entanto, pouco desse contexto histórico permanece
intacto na vida contemporânea, o que nos coloca diante de um paradoxo.
Continuamos, em grande medida, pensando o Direito a partir de referenciais do
século XVIII, período em que se consolidou um modelo analítico e racionalista
de compreensão jurídica”.
Marrafon
prossegue avaliando que o desafio - e o paradoxo - está justamente em perceber
que não é possível compreender o novo com os mesmos olhos do passado. “Ao
reconhecermos as mudanças na cultura psicológica e social que estão em curso,
passamos a ter melhores condições de refletir sobre a decisão judicial, a
interpretação jurídica e o papel das instituições à luz desses novos
mecanismos. Hoje, vemos emergir formas de controle associadas às tecnologias
digitais, como o chamado “capital de vigilância” e modelos de gestão social
baseados em dados comportamentais, que configuram o que podemos chamar de uma
verdadeira engenharia emocional”.
Finaliza
avaliando que é necessário repensar o Direito em novas bases, sem abandonar as
conquistas do Estado Democrático de Direito, mas adaptando-as a essa nova
realidade tecnológica. O diálogo com as novas tecnologias deve buscar não
apenas eficiência, mas sobretudo justiça, proteção dos direitos fundamentais e
efetividade das garantias constitucionais.
Honrarias
Durante
o evento, os professores convidados passaram a integrar o quadro de professores
notáveis da Esmagis-MT, em
reconhecimento aos relevantes serviços prestados ao meio jurídico e acadêmico e
às contribuições expressivas ao fortalecimento das instituições judiciais.
Aos
professores doutores também foi concedida a Comenda Desembargador João Antônio
Neto, honraria destinada a reconhecer personalidades pelos relevantes serviços
prestados ao sistema de Justiça.
Foram
agraciados ainda o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT) Allison
Carvalho de Alencar, e o procurador de Justiça de Mato Grosso Antônio Sérgio
Cordeiro Piedade.
Em
reconhecimento acadêmico e cooperação científica, o desembargador e diretor da
Esmagis, Márcio Vidal, e Antônio Veloso Peleja Júnior, juiz auxiliar da
Vice-Presidência do Tribunal de Justiça de Mato Grosso e coordenador pedagógico
da Esmagis-MT, receberam um pin de prata, do Grupo de Pesquisa em Cidades Inteligentes da Escola de
Artes, Ciências e Humanidades da
Universidade de São Paulo (EACH-USP).
O
conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, Allison Carvalho de Alencar,
igualmente recebeu a honraria acadêmica pelo desenvolvimento de pesquisa
voltada à inteligência artificial generativa ativa aplicada ao controle
externo, reforçando o diálogo entre Judiciário, academia e órgãos de controle.
Evento
O Congresso Internacional de Precedentes foi promovido pela Escola Superior da Magistratura Desembargador João Antônio Neto (Esmagis-MT), e organizado em parceria com a ALFA Escola de Direito, Centro Universitário Alves Faria (UNIALFA) e Faculdade Autônoma de Direito (FADISP). Ao longo de dois dias, reuniu renomados juristas do Brasil, Itália e Espanha.
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Foto: Alair Ribeiro
Coordenadoria de Comunicação Social do TJMT
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