Grupo Reflexivo de Barra do Garças reduz reincidência e fortalece prevenção à violência doméstica
A atuação preventiva no enfrentamento à violência
doméstica tem ganhado força em Mato Grosso com a implantação de 24 Grupos
Reflexivos para Homens Autores de Violência Doméstica e Familiar em diferentes
comarcas. A iniciativa, que complementa as medidas judiciais tradicionais,
apresenta resultados concretos: em Barra do Garças, onde o projeto funciona há
mais de dez anos, dos 56 participantes em 2025, apenas cinco registraram nova
ocorrência, mantendo a taxa de reincidência abaixo de 10%.
O juiz
Marcelo Sousa Melo Bento de Resende, titular da 2ª Vara Criminal de Barra do
Garças, destaca que o avanço dos grupos reflexivos tem sido impulsionado pela
atuação da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica
e Familiar (Cemulher-MT), sob coordenação da desembargadora Maria Erotides.
O encaminhamento ocorre quando é deferida a
medida protetiva. Após o pedido da vítima e a concessão da medida, o autor da
agressão é intimado a comparecer obrigatoriamente a, pelo menos, oito
encontros, sob pena de prisão em caso de descumprimento. Essa determinação
também pode constar em sentença condenatória, como parte das medidas impostas
ao autor da violência.
Em Barra
do Garças, o grupo já era referência antes mesmo da chegada do magistrado à
comarca, em 2020. “É fundamental trabalharmos a violência doméstica não apenas
sob a ótica da punição ou da prisão. Precisamos de alternativas que atuem na
raiz do problema”, afirma.
Reflexão para transformar comportamentos
Os grupos
são conduzidos por profissionais da Psicologia e seguem diretrizes
estabelecidas pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Ao longo de oito a doze
encontros, os participantes são convidados a refletir sobre padrões de
comportamento, especialmente aqueles ligados ao machismo estrutural.
De acordo
com o juiz, muitos homens chegam ao sistema de Justiça sem perceber que
reproduzem condutas aprendidas ao longo da vida. “É comum que estejam repetindo
comportamentos vistos dentro de casa, muitas vezes naturalizados pela
sociedade. Eles cresceram ouvindo que precisam ser duros, agressivos, que não
podem demonstrar fragilidade. Esse modelo acaba gerando prejuízos e, em alguns
casos, culmina em crime”, explica.
Nos
encontros, são debatidos temas como a Lei Maria da Penha, saúde do homem,
comunicação não violenta, gestão da raiva, responsabilização e os impactos do
álcool nas relações familiares.
Resultados e impacto social
O magistrado
reforça que o trabalho desenvolvido nos encontros busca enfrentar o machismo de
forma reflexiva e estruturada.
Ao longo de
oito reuniões, o tema é debatido em tópicos específicos, com o objetivo de
levar o participante a reconhecer que a agressão contra a mulher não é apenas
um crime, mas também um comportamento que lhe causa prejuízos pessoais,
familiares e sociais. A proposta é provocar uma mudança de consciência, fazendo
com que ele perceba as consequências de seus atos para além da
responsabilização penal.
“Esse
processo de conscientização representa o ponto de virada: quando o homem
entende que pode transformar a própria vida, como pai, marido, companheiro e
cidadão, ao rever atitudes e romper
padrões de violência”. O magistrado explica que os encontros são realizados de
forma consecutiva, garantindo continuidade no acompanhamento e favorecendo a
consolidação das reflexões e mudanças de comportamento.
“Em
regra, percebemos uma redução significativa da reincidência. Quando há novos
casos, muitas vezes estão associados ao abuso de álcool ou a outros fatores
externos”, pontua.
Além da
proteção às mulheres, o projeto também chama atenção para os impactos do
machismo sobre os próprios homens. Dados nacionais indicam que a população
carcerária é majoritariamente masculina e que a expectativa de vida dos homens
é, em média, cinco a seis anos menor que a das mulheres.
“Não se
trata de minimizar a violência sofrida pelas mulheres, que são as principais vítimas, inclusive de
feminicídio, mas de compreender que esse modelo de masculinidade também impõe
perdas e limitações aos próprios homens. O grupo reflexivo é um espaço de
aprendizado e de reconstrução de trajetórias”, conclui o juiz.
Ampliação
A ampliação dos Grupos Reflexivos integra o “Plano
de Diretrizes e Metas – Gestão 2025-2026” da Cemulher-MT, que estabelece como
objetivo estratégico expandir o número de comarcas com programas ativos. A
iniciativa reafirma o papel do Poder Judiciário não apenas na
responsabilização, mas também na prevenção, educação e na transformação social,
contribuindo para a construção de relações mais saudáveis e para a redução da
violência contra a mulher em Mato Grosso.
Atualmente, os grupos estão em funcionamento nas
comarcas de Alto Araguaia, Alto Taquari, Barra do Bugres, Barra do Garças,
Campo Verde, Chapada dos Guimarães, Colíder, Cuiabá, Feliz Natal, Juína, Lucas
do Rio Verde, Matupá, Mirassol D’Oeste, Nova Mutum, Pontes e Lacerda, Primavera
do Leste, Rio Branco, Rondonópolis, Sinop, Sorriso, Tabaporã, Tangará da Serra,
Várzea Grande e Vila Bela da Santíssima Trindade.
Patrícia Neves
Coordenadoria de Comunicação Social do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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