Sergio Valério é empossado como desembargador e define magistratura como “sacerdócio”
“A
magistratura é um sacerdócio, a gente tem que saber que o trabalho nosso tem um
cunho social”. A afirmação, carregada de convicção, sintetizou o discurso do
desembargador Sergio Valério durante a solenidade de sua posse realizada na
tarde desta sexta-feira (13), no Tribunal de Justiça de Mato Grosso.
Ao
assumir o cargo no Segundo Grau da Corte, o magistrado coroou uma trajetória
iniciada tardiamente na magistratura - aos 40 anos - após abrir mão da
estabilidade como servidor concursado na esfera federal para perseguir um sonho
cultivado desde a infância, desde os oito anos.
Com 34
anos de carreira, Sergio Valério integrará agora a Segunda Câmara Criminal do
TJMT. O desembargador completará 75 anos
em julho deste ano, idade limite para a aposentadoria compulsória, mas afirmou
que chega à nova função com o mesmo compromisso que o acompanhou ao longo de
toda a vida profissional.
Em
discurso emocionado, relembrou as próprias origens e as dificuldades
enfrentadas no início da caminhada.
“Para um
homem que quando criança vendia alface nas ruas de Mato Grosso do Sul, para
ajudar no orçamento doméstico, tomar assento nesta cadeira hoje uma palavra só
define o sentimento. Gratidão. Gratidão a Deus, em primeiro lugar, por ter-me
conservado com vida e saúde até este momento. Gratidão aos meus pais, por terem
me ensinado o caminho da humildade, da perseverança, pois a eles devo a
formação do meu caráter, da minha personalidade, da honestidade, do respeito
das relações interpessoais e do bom senso para servir o certo ou o errado.
Gratidão à minha família, minha querida esposa, e aos meus filhos, que sempre
me apoiaram”.
Muito
emocionado, o desembargador relembrou alguns dos significativos momentos de sua
atuação. “Passei por várias comarcas, mas me lembro muito bem quando eu assumi
a primeira comarca, em Porto dos Gaúchos. Um percurso de 320 km de estradas
esburacadas, em vários trechos passei por verdadeiros túneis negros, onde a
copa das árvores se encravavam, mas eu e minha família seguíamos felizes”.
“Quando
ingressei na magistratura, a estrutura do Judiciário era bem diferente. Aliás,
precária mesmo. Na comarca não havia um computador sequer, de forma que
precisei adquirir um particular. Pasmem, já realizei audiência à luz de velas,
com uma presidiária, na delegacia, porque só havia um policial e não tinha como
levá-la até o fórum. Mas essas dificuldades iniciais não me arrefeceram o
ânimo. Ao contrário, me fizeram mais consciente da necessidade do Judiciário”.
Sergio
Valério reforçou a consciência da expressiva atividade. “Atuo pautado pela
imparcialidade exigida de um juiz e com muito respeito. Vivemos numa época de
múltiplas ideias e opiniões, mas tenho adotado a postura de um juiz
conservador, embora respeite as opiniões contrárias, por serem elemento
essencial da democracia. Conservador porque entendo que o juiz encontra no
ordenamento jurídico tudo que precisa para exercer sua atividade. Considero-me
fiel ao meu compromisso de bem servir e distribuir justiça na máxima extensão
da minha capacidade. Discreto porque não me simpatizo com posições midiáticas”.
Filhos e esposa
relembram renúncias e fé
A posse do desembargador foi
marcada não apenas pelo reconhecimento institucional, mas também por
depoimentos emocionados da família, que acompanhou de perto cada etapa da trajetória.
Sua esposa há 52 anos, Raquel
Souza Valério reviveu o início da caminhada do marido, muito antes mesmo da
toga. “Primeiro ele passou num concurso para fiscal federal, mas não era
chamado. Ele trabalhava num banco, mas era muito difícil. E ele falou: ‘Meu
bem, você fica no banco e eu vou advogar’. Na primeira causa, ele ganhou e
seguimos. Ele sempre quis ser juiz e precisou se dedicar muito”.
Ela também recorda, com
emoção, dos sacrifícios feitos para que o marido pudesse estudar. “Ele dizia
assim: eu vou ser juiz. Eu saí um dia com as crianças e deixei um bilhete
assim: pode estudar, juiz de meia tigela. E ele escreveu no mesmo bilhete: ‘Hoje
eu sou juiz de meia tigela e um dia eu vou ser juiz de verdade’. Passa um filme
pela minha cabeça, tudo o que passamos”, conta aos risos.
Para a filha, Juliana Souza
Valério, traduzir o momento em palavras é um desafio. “É difícil falar quando é
algo muito precioso, e transformar em uma frase ou uma palavra parece que a
gente diminui um momento tão memorável como este. Grata a Deus e ao meu pai.
Tenho certeza que ele nunca imaginou, mas ele merece muito”.
Sua outra filha, Joscelaine
Souza Valério, relembrou as mudanças e adaptações enfrentadas pela família
quando o pai decidiu seguir o sonho da magistratura. “Eu morava numa chácara e
sempre fomos para a mesma escola. De repente, mudamos de cidade, passamos a
morar em um apartamento e a gente sentia muita falta da cidade natal. Começamos
a ter muita dificuldade. Meu pai chegou a pensar em desistir, mas a minha mãe
não deixou, era o sonho dele. O sonho dele era ser juiz, mas para o meu pai,
família é muito maior”.
O filho, Jackson Wesley
Valério também acompanhou a solenidade.
Sonho, renúncias e vocação
A
história pessoal do novo desembargador confunde-se com a própria ideia de
perseverança. Filho de família simples, começou a trabalhar ainda criança na
roça. Para estudar, precisou pedir autorização ao avô, homem rígido, que
permitia a frequência escolar apenas quando o trabalho no campo não exigia sua
presença.
Antes da
toga, construiu carreira no Banco do Brasil e como fiscal do antigo IAPAS,
posteriormente incorporado ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Mesmo
com estabilidade, decidiu cursar Direito, apoiado pela esposa, que assumiu
parte das responsabilidades financeiras da casa para que ele pudesse estudar.
Aprovado
no concurso da magistratura aos 40 anos, já pai de três filhos, iniciou a nova
carreira com vencimentos inferiores aos que recebia anteriormente. Ainda assim,
segundo relatos da família, a realização pessoal compensava qualquer perda
material. Enquanto muitos investiam em bens, ele investia em livros.
A mudança
para Cuiabá trouxe desafios, especialmente para as filhas, que enfrentaram
dificuldades de adaptação. O magistrado chegou a cogitar desistir da carreira
ao perceber o sofrimento delas, mas foi novamente incentivado pela esposa a
seguir adiante. Em Porto dos Gaúchos, a família encontrou acolhimento e
estabilidade.
Ao longo
da trajetória, atuou nas comarcas de Cuiabá, Tangará da Serra, Diamantino,
Porto dos Gaúchos, Alta Floresta e Barra do Garças. Na Capital, passou pelo 4º
Juizado Especial Cível, 11ª Vara Cível, 3ª Vara Especializada de Família e
Sucessões, 1ª Vara da Infância e Juventude, 3ª Vara Criminal, 1ª Vara Cível e
1ª Vara Especializada de Família e Sucessões, além de ter sido titular da 2ª
Vara Especializada de Família e Sucessões.
Reconhecido
pela postura conciliadora, especialmente na área de família, também influenciou
novos magistrados, inclusive familiares e ex-assessores que hoje integram a
Justiça estadual e de outros estados.
Na
véspera da posse, emocionou-se ao lembrar dos pais e de um tio já falecido,
lamentando não poder dividir com eles o momento que considera o ápice da
carreira.
Ao assumir o cargo de desembargador, Sergio Valério reafirmou a convicção que o acompanha desde o início: para ele, a magistratura não é apenas uma profissão - é missão, vocação e compromisso social.
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Patrícia Neves / Foto: Alair Ribeiro e Josi Dias
Coordenadoria de Comunicação Social do TJMT
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