Curatela e autonomia de pessoas autistas desafiam decisões judiciais
Definir até onde vai a proteção e onde começa a
autonomia é um dos maiores desafios enfrentados pelo Poder Judiciário nos casos
que envolvem pessoas com transtorno do espectro autista (TEA). O tema esteve em
evidência na palestra “Direitos dos autistas e a importância da curatela/interdição
quando alcançada a maioridade civil da pessoa autista”, realizada na tarde desta
quarta-feira (15) no evento “TJMT Inclusivo: Autismo e Direitos das Pessoas com
Deficiência”. A palestra foi conduzida pelas advogadas Mayara Rosa Franco e
Andréia Schwarz Santos e destacou a complexidade das decisões judiciais que
impactam diretamente a vida, a dignidade e os direitos dessas pessoas.
Promovido em parceria com a Esmagis-MT e a Escola dos Servidores, o encontro reforçou a necessidade de decisões sensíveis, individualizadas e fundamentadas, capazes de equilibrar o dever de proteção com o respeito à autonomia.
Entre direitos garantidos e
desafios na prática
Ao iniciar sua fala, a advogada Mayara Rosa Franco
destacou que sua atuação profissional é atravessada pela experiência como mãe
atípica, o que amplia sua percepção sobre as dificuldades enfrentadas pelas
famílias. Segundo ela, embora exista um conjunto robusto de leis que asseguram
direitos às pessoas com autismo, como acesso à saúde, educação, inclusão social
e tratamento adequado, a efetivação desses direitos ainda encontra barreiras
significativas.
Com base na atuação prática, relatou que são
recorrentes os casos de dificuldade no acesso a tratamentos, especialmente
diante de entraves impostos por planos de saúde. Apesar da redução de negativas
diretas, surgiram barreiras indiretas, como demora na autorização, limitação de
terapias e encaminhamento para clínicas sem estrutura adequada.
“Tivemos muitos avanços recentemente, desde 2022,
com a lei do rol exemplificativo, mas ainda enfrentamos uma certa demora na
efetividade. Existe a tutela de urgência e o Tribunal entende a necessidade do
tratamento, porém ainda há dificuldade na demora do próprio Estado e do
município em cumprir, efetivar e iniciar as terapias”, comentou.
No campo educacional, a advogada apontou práticas
discriminatórias, como o desaparecimento de vagas após a identificação do
diagnóstico, além da ausência de profissionais capacitados e suporte adequado
nas escolas. Outro ponto sensível envolve a sobrecarga das famílias,
principalmente das mães, que frequentemente assumem sozinhas os cuidados e
enfrentam dificuldades financeiras para manter o tratamento dos filhos.
Mayara também destacou a importância do
acompanhante terapêutico, profissional da saúde indicado pelo médico que atua
em diversos ambientes para promover o desenvolvimento da pessoa autista.
Segundo ela, esse suporte não pode ser confundido com o acompanhante escolar,
sendo parte essencial do tratamento.
Curatela, autonomia e decisões
sensíveis
Na sequência, a advogada Andréia Schwarz Santos
trouxe à discussão o papel do Judiciário na definição da curatela e os desafios
de decidir sobre a autonomia da pessoa com deficiência ao atingir a maioridade
civil. Também mãe de um adolescente autista, ela ressaltou que o conhecimento
sobre o tema muitas vezes nasce da vivência direta, aliada à aplicação da
legislação.
Andréia explicou que a curatela é uma medida
judicial destinada a pessoas maiores de idade que não possuem plena capacidade
de exercer atos da vida civil, sendo considerada excepcional após a Lei
Brasileira de Inclusão. Nesses casos, a medida tem caráter protetivo, voltado
principalmente à administração patrimonial e à representação em atos negociais,
sem retirar direitos fundamentais.
Como alternativa, destacou a tomada de decisão
apoiada, indicada para pessoas com maior autonomia, permitindo que escolham
pessoas de confiança para auxiliá-las em decisões específicas, sem perda da
capacidade civil.
Durante entrevista, a advogada enfatizou o papel do
Judiciário na condução desses processos. Segundo ela, a atuação das equipes
técnicas tem sido essencial para garantir decisões mais qualificadas. “O Poder
Judiciário pode colaborar permanecendo com esse padrão de qualidade nas
análises e nas decisões”, afirmou, ao destacar a importância dos estudos
psicossociais na avaliação dos casos.
Ela também chamou atenção para os desafios
enfrentados, como o desconhecimento das famílias sobre os instrumentos legais e
o estigma ainda existente em torno da interdição. Outro ponto destacado foi a
necessidade de evitar a banalização da curatela. “É importante uma análise
minuciosa para evitar abusos, mas também garantir a concessão nos casos em que
ela é realmente necessária”, ressaltou.
Andréia reforçou ainda que eventos como esse são
fundamentais para ampliar o conhecimento e promover a conscientização.
“Autistas crescem, e quando atingem a maioridade é preciso regularizar a
situação civil daqueles que necessitam de apoio, especialmente os de maior
nível de suporte”, explicou.
Ao final, o debate evidenciou que não há respostas padronizadas. Cada caso exige análise cuidadosa, baseada em critérios técnicos e humanos. Mais do que aplicar a legislação, o desafio do Judiciário está em tomar decisões sensíveis, capazes de proteger sem limitar indevidamente, garantindo dignidade, inclusão e respeito à autonomia das pessoas com deficiência.
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Roberta Penha / Foto: Josi Dias
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
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