Desafios invisíveis do autismo são tema de palestra no TJMT Inclusivo
Nem sempre o que mais desafia a
inclusão pode ser percebido de imediato. Em muitos casos, está justamente no
que passa despercebido, no comportamento que parece apenas timidez, distração,
dificuldade de socialização ou até indisciplina. Foi com esse olhar sensível e
técnico que o psicólogo Marcelo Zanotti da Silva conduziu a palestra “Desafios
invisíveis do transtorno do espectro autista de nível I de suporte nas
escolas”, durante a programação do TJMT Inclusivo: Autismo e Direitos das
Pessoas com Deficiência, realizado nesta quinta-feira (16), em Cuiabá.
Pesquisador da Universidade
Federal do Espírito Santo (Ufes) e doutorando na área, Marcelo Zanotti trouxe
para o debate uma reflexão importante sobre os casos de autismo que, por não
apresentarem sinais tão evidentes, muitas vezes acabam não sendo compreendidos,
acolhidos ou sequer identificados no ambiente escolar. Em sua trajetória como
psicólogo e estudioso do transtorno do espectro autista, ele também descobriu
ser autista nível 1 de suporte, o que torna sua fala ainda mais subsidiada pela
experiência, conhecimento e pela escuta de quem pesquisa, atende e também
vivencia o tema.
“O que é chamado autismo nível 1
de suporte, muitas vezes equivocadamente rotulado como ‘autismo leve’, também
traz prejuízos reais para a vida da pessoa, especialmente nas áreas de
comunicação, interação social, padrões restritos de interesse e sensorialidade.
A diferença é que esses sinais podem se manifestar de forma menos visível, o
que exige um olhar mais atento por parte da escola, dos profissionais e das
famílias”, explicou.
Marcelo destacou que muitas
crianças e adolescentes dentro desse perfil conseguem manter aparente
funcionalidade no dia a dia, com desempenho escolar que pode variar de
dificuldades importantes até quadros de altas habilidades. “Ainda assim, isso
não significa ausência de sofrimento ou de necessidade de apoio. Há estudantes
que gastam enorme energia para sustentar comportamentos socialmente esperados,
tentando se ajustar ao ambiente e mascarando sinais do transtorno, fenômeno
conhecido como camuflagem”, ressaltou.
Para o psicólogo, dar
visibilidade a esse perfil é “enxergar o invisível”. Ele observou que, quando
esses sinais não são percebidos, o estudante pode ser interpretado apenas como
desatento, desorganizado, malcomportado ou emocionalmente difícil, quando na
verdade enfrenta desafios profundos de regulação, pertencimento e funcionamento
social. A palestra buscou justamente ampliar essa compreensão entre os
profissionais da educação, que convivem diariamente com essas crianças e
adolescentes e ocupam papel central na identificação dos sinais e no
acolhimento adequado.
Marcelo também avaliou que a
iniciativa do Poder Judiciário em promover esse diálogo com educadores é
fundamental para consolidar uma cultura de inclusão. Segundo ele, quando
diferentes instituições se envolvem no debate, a sociedade avança do discurso
para a prática. “A gente não está só capacitando, está criando uma cultura de
inclusão. E a inclusão vira realidade quando todo mundo se engaja”, defendeu.
A importância da palestra também
foi destacada por quem vive a rotina escolar. O diretor da Escola Estadual
Césario Neto, Wagner Mônantha Souza Morais classificou o evento como essencial
para o aprimoramento das práticas educacionais. “Excepcional acho que é a
palavra que resume. Momentos como esse são de extrema importância porque tratam
de um contexto real das escolas de Mato Grosso e do Brasil. Nós temos avanços
na educação inclusiva, mas também reconhecemos que ainda há muito a ser feito”,
afirmou.
Ele ressaltou que o debate
promovido pelo TJMT ajuda a mostrar que a inclusão não é uma responsabilidade
exclusiva da escola. “Isso mostra para as demais instituições que não é uma
demanda específica da escola. É uma demanda que concerne a todas as
instituições. Todos têm que abraçar isso de maneira muito firme”, disse. Para
Wagner, o fato de o Tribunal de Justiça assumir protagonismo nessa pauta
fortalece a atuação das escolas e amplia a atenção dos demais órgãos para a
necessidade de ações mais efetivas.
A coordenadora pedagógica de
educação infantil municipal Aparecida de Silva de Pinho também reforçou o
quanto esse tipo de capacitação dialoga com a realidade das unidades escolares.
Segundo ela, lidar com crianças autistas ou com indícios de neurodivergência já
faz parte da rotina diária de professores, coordenadores e cuidadoras (CADs).
“Isso é rotina no nosso dia a dia. Eu acho importante, principalmente para as
CADs, que estão mais próximas dessas crianças todos os dias. E nós, como
professores e coordenadores, também observamos um endurecimento dos pais em
relação a isso”, relatou.
Ela explicou que a escola, muitas
vezes, é o primeiro espaço em que os sinais aparecem com mais clareza. “Em
muitos casos, a observação do professor e da CAD é que começa a mostrar que
algo precisa ser investigado. A gente vai registrando no dia a dia, fazendo
essa costura, até chegar a um ponto mais concreto para orientar a família a
buscar ajuda”, afirmou. Para a coordenadora, a formação também ajuda os profissionais
a conduzir esse diálogo com as famílias de maneira mais preparada e respeitosa.
A mesma percepção foi
compartilhada pela coordenadora pedagógica de educação infantil Rivanda Brito
Tataira. Ela destacou que o trabalho da escola se torna ainda mais desafiador
quando a criança apresenta comportamentos que indicam necessidade de apoio, mas
ainda não possui diagnóstico fechado. “Quando a criança tem laudo, a gente já
consegue trabalhar melhor com ela. Mas, quando não tem, é muito desafiador,
porque a gente precisa conviver, entender, conversar com os pais e buscar
caminhos”, explicou.
A educadora observou também que a
resistência de algumas famílias ainda é um obstáculo frequente no ambiente
escolar, o que torna o acesso à informação ainda mais necessário. “Quando o pai
aceita, fica mais fácil, porque a gente consegue buscar uma rede de apoio. E
quando a gente vem para palestras como essa, sai com conhecimento para conduzir
o trabalho junto com os professores, com os pais e, principalmente com as
crianças”, disse.
Para ela, compreender que cada
caso é único faz toda a diferença no atendimento. “Nem todos os problemas são
iguais. Muitas vezes tem o TEA junto com outra condição, como TDAH. Então,
essas orientações ajudam muito”, contou.
Justiça Inclusiva
Realizada em Cuiabá, a primeira
edição de 2026 do projeto “TJMT Inclusivo: Autismo e Direitos das Pessoas com
Deficiência” reuniu cerca de 1,5 mil profissionais da educação, familiares,
cuidadores e representantes de instituições públicas, com uma agenda dedicada
ao fortalecimento de práticas mais humanas e eficazes no atendimento às pessoas
com deficiência, especialmente aquelas com transtorno do espectro autista
(TEA).
O evento é coordenado pela
Comissão de Acessibilidade e Inclusão do TJMT, em parceria com a Escola Superior
da Magistratura de Mato Grosso (Esmagis-MT), Escola dos Servidores, Prefeitura
de Cuiabá e Igreja Lagoinha. A iniciativa integra o conjunto de ações
estratégicas do Judiciário mato-grossense para promover o acesso à Justiça de
forma mais ampla, inclusiva e efetiva para todos os cidadãos.
De acordo com o CNJ, os tribunais
brasileiros devem implementar políticas de acessibilidade e inclusão, de modo a
garantir um atendimento mais humano, eficaz e adequado às pessoas com
deficiência. Isso inclui a capacitação de magistrados(as) e servidores(as), a
adaptação de processos e estruturas físicas e tecnológicas, bem como a promoção
de eventos que ampliem a conscientização da sociedade sobre o tema.
Todas as palestras do evento estão disponíveis no YouTube, assista aqui.
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pessoas com deficiência
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Ana Assumpção / Foto: Josi Dias
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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