Fibromialgia evidencia limites da acessibilidade e reforça debate sobre inclusão no Judiciário
A dor não aparece nos exames, não deixa marcas
visíveis no corpo, mas impacta profundamente a rotina de milhares de pessoas.
Esse foi o ponto de partida da palestra “Fibromialgia e o Direito de Ir e Vir:
Desafios da Acessibilidade Urbana e Social”, ministrada por Carmen Miranda
Sousa, presidente da Associação de Fibromialgia, durante a programação da tarde
do evento “TJMT Inclusivo: Autismo e
Direitos das Pessoas com Deficiência”. A atividade trouxe à tona a
necessidade de reconhecer que doenças invisíveis também geram direitos e exigem
respostas concretas do poder público.
Realizado pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso
(TJMT), em parceria com a Escola Superior da Magistratura de Mato Grosso
(Esmagis-MT) e a Escola dos Servidores, o evento reuniu magistrados,
servidores, advogados e representantes da sociedade civil para discutir
inclusão e acessibilidade no sistema de Justiça. A iniciativa integra as ações estratégicas
do Judiciário mato-grossense voltadas à ampliação do acesso à Justiça de forma
mais efetiva e humanizada.
Durante a palestra, Carmen destacou que a
fibromialgia ainda enfrenta um dos maiores obstáculos: a invisibilidade. “É uma
doença que as pessoas não veem. Não estamos de muleta, nem em cadeira de rodas,
e por isso muitos acreditam que não temos nenhum problema. Mas é real, é uma
dor neurológica que incapacita”, afirmou. Segundo ela, estima-se que cerca de
90 mil pessoas convivam com a condição em Mato Grosso.
Ampliação do conceito de
deficiência
A fala da palestrante reforçou a necessidade de
ampliar o entendimento sobre o que caracteriza uma deficiência. Embora uma
recente legislação federal já reconheça a fibromialgia como deficiência, na prática,
o desconhecimento ainda gera constrangimentos e dificulta o acesso a direitos
básicos.
Carmen explicou que a doença provoca dor
generalizada, fadiga intensa e sintomas cognitivos, como falhas de memória,
fatores que impactam diretamente a autonomia e a qualidade de vida dos
pacientes. “Dormimos e acordamos como se tivéssemos passado a noite carregando
peso. E, ainda assim, precisamos trabalhar, manter nossas funções e lidar com
julgamentos”, pontuou.
A ausência de exames específicos para comprovação
da fibromialgia também contribui para a exclusão. “A doença não aparece em
exames, mas é limitante. Muitas vezes, nem a própria família acredita. Acham
que é preguiça ou busca por vantagem, quando, na verdade, é uma dor que afeta
profundamente o corpo e a mente”, relatou.
Entre os principais pontos abordados, esteve o direito de ir e vir, diretamente impactado pelas barreiras urbanas e sociais enfrentadas por pessoas com fibromialgia. Longas filas, falta de locais adequados para descanso, dificuldades no transporte público e jornadas extensas são desafios recorrentes. “Nem sempre conseguimos permanecer em pé por muito tempo ou enfrentar deslocamentos longos sem prejuízo à saúde. Não buscamos privilégios, mas condições adequadas”, destacou Carmen.
Visibilidade que transforma
Para a presidente da associação, iniciativas como o
“TJMT Inclusivo” são fundamentais para mudar essa realidade. “Eventos como este
trazem alívio e reconhecimento. Ajudam a dar visibilidade a uma doença
invisível e a conscientizar quem ainda não acredita”, disse.
A palestrante também chamou atenção para o impacto
social da desinformação e para a importância do apoio familiar. “Sem
compreensão e empatia, a situação se torna ainda mais difícil. Precisamos que a
sociedade entenda que a dor existe e que essas pessoas precisam ser respeitadas”.
Ao encerrar sua fala, Carmen reforçou que a construção de uma sociedade mais acessível passa pelo reconhecimento das diferentes formas de sofrimento humano. “Uma sociedade inclusiva é aquela que reconhece todas as dores e apoia todas as pessoas”, concluiu.
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Roberta Penha / Foto: Alair Ribeiro
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
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