Palestra destaca papel da educação na identificação e acolhimento de pessoas com autismo
A abertura da programação desta
quinta-feira (16) do evento “TJMT Inclusivo: Autismo e Direitos das Pessoas com
Deficiência” foi marcada por um chamado à escuta, ao conhecimento e à
responsabilidade coletiva com a inclusão. Realizado em Cuiabá, o encontro reuniu
cerca de 1,5 mil profissionais da educação, familiares, cuidadores e
representantes de instituições públicas em uma agenda dedicada ao
fortalecimento de práticas mais humanas e eficazes no atendimento às pessoas
com deficiência, especialmente aquelas com transtorno do espectro autista
(TEA).
A palestra de abertura, “Os principais
transtornos do neurodesenvolvimento na sala de aula: como conduzir”, foi
proferida pelo neurologista pediátrico Thiago Gusmão, que apresentou um
panorama amplo sobre o autismo no Brasil, suas características, comorbidades e
os principais desafios enfrentados no ambiente escolar. Com linguagem acessível
e foco na realidade das salas de aula, o especialista destacou que compreender
o autismo exige ir além de estereótipos e enxergar a complexidade do
neurodesenvolvimento, inclusive em casos menos visíveis.
Ao longo da exposição, Thiago
Gusmão explicou que o autismo é uma condição multifatorial, com forte
componente neurobiológico e genético, frequentemente associada a outras condições,
como TDAH, distúrbios do sono, ansiedade, deficiência intelectual, epilepsia e
alterações sensoriais. Para ele, o olhar atento da escola é decisivo,
especialmente porque muitos sinais aparecem primeiro no cotidiano escolar,
antes mesmo de serem percebidos pela família ou confirmados por diagnóstico
clínico.
“É muito comum vermos que são os
profissionais da educação os primeiros a notar algumas características do
espectro. Por isso é importante que eles sejam capacitados para também
identificar e que saibam que nem todo autismo se manifesta de forma evidente.
Muitas crianças e adolescentes podem apresentar boa fala, inteligência
preservada e até bom desempenho em determinadas áreas, mas ainda assim
enfrentarem grandes dificuldades de autonomia, socialização, organização
emocional e adaptação à rotina”, explicou. Segundo ele, esses estudantes muitas
vezes passam despercebidos porque ‘camuflam’ sinais do transtorno, o que atrasa
o acolhimento adequado.
Outro ponto enfatizado foi a
urgência de se investir em intervenção precoce, capacitação continuada dos
professores e construção de planos educacionais individualizados. Para Thiago
Gusmão, não basta esperar que a criança se adapte sozinha ao modelo tradicional
de ensino. É preciso que a escola compreenda suas particularidades, adapte
materiais, observe seus interesses e encontre caminhos para favorecer a
aprendizagem, a autonomia e a permanência com dignidade no espaço escolar.
Durante a palestra, o
neurologista também destacou o impacto social e econômico da falta de
diagnóstico e de acompanhamento adequados. Ele lembrou que, no Brasil, milhões
de pessoas podem estar dentro do espectro autista, muitas sem laudo ou sem
acesso a atendimento especializado. Nesse cenário, reforçou que capacitar
professores é investir na base da inclusão. “Quando a gente treina professor, a
gente fortalece quem está com a criança todos os dias. Muitas vezes, é o
professor quem percebe primeiro que algo precisa de atenção”, afirmou.
Para ele, a participação do Poder
Judiciário em ações como essa amplia o alcance do debate e contribui para uma
sociedade mais consciente. Ao levar o tema também a magistrados, promotores,
defensores e demais operadores do Direito, a iniciativa ajuda a aproximar a
aplicação da lei das necessidades reais das famílias e das pessoas com
deficiência.
A importância desse conhecimento
também foi sentida por quem vive a inclusão no dia a dia da escola. A cuidadora
de alunos com deficiência da rede municipal Letícia Gomes, da Escola Municipal
Juarez Sodré, avaliou que a formação ajuda a responder dúvidas práticas que
surgem na rotina de trabalho.
“Eu acho interessante porque está
sendo falado de muitas dúvidas que a gente tem durante as aulas, principalmente
na questão da agressividade. Tem muitos que batem na gente, então a gente
precisa saber como lidar. Às vezes, a criança é muito inteligente, mas ainda
precisa de ajuda para comer, para ir ao banheiro, e a gente ficava meio em
dúvida em relação a isso. Hoje está sendo disponibilizado o curso e tirando
nossas dúvidas”, relatou.
A secretária Vanessa de Souza
Martins Guedes, mãe de Guilherme, de 16 anos, também acompanhou a programação e
destacou a importância de ampliar o acesso à informação para as famílias. Ela
contou que a busca por respostas começou a partir das dificuldades percebidas
na escola e revelou os obstáculos enfrentados até conseguir uma avaliação mais
aprofundada do filho, que atualmente tem diagnóstico de deficiência intelectual
e TDAH, com investigação em andamento para TEA.
“Foi a escola que me deu alerta
mesmo. Desde a creche, as professoras falavam que ele tinha algumas
resistências, algumas dificuldades. Para conseguir o laudo, eu precisei
investir, abrir mão de muitas coisas e buscar atendimento particular para
entender melhor o que ele tinha e correr atrás dos direitos dele”, contou.
Sobre a iniciativa do Tribunal de
Justiça, Vanessa foi enfática ao reconhecer a relevância do evento.
“Maravilhosa essa atitude. Estão de parabéns mesmo. Nós precisamos de
informação, porque só com informação a inclusão dos nossos filhos pode
acontecer de verdade”, afirmou.
Justiça Inclusiva
A primeira edição de 2026 do projeto
“TJMT Inclusivo: Autismo e Direitos das Pessoas com Deficiência”, em Cuiabá, reforça
o compromisso do Poder Judiciário de Mato Grosso em alinhar-se às recomendações
do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que incentiva os tribunais a promoverem
políticas de acessibilidade e inclusão. A ação é coordenada pela Comissão de
Acessibilidade e Inclusão do TJMT, em parceria com a Escola Superior da Magistratura
de Mato Grosso (Esmagis-MT), Escola dos Servidores, Prefeitura de Cuiabá e
Igreja Lagoinha
De acordo com o CNJ, os tribunais
brasileiros devem implementar políticas de acessibilidade e inclusão, de modo a
garantir um atendimento mais humano, eficaz e adequado às pessoas com
deficiência. Isso inclui a capacitação de magistrados(as) e servidores(as), a
adaptação de processos e estruturas físicas e tecnológicas, bem como a promoção
de eventos que ampliem a conscientização da sociedade sobre o tema.
Todas as palestras do evento estão disponíveis no YouTube, assista aqui.
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Ana Assumpção / Foto: Josi Dias
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
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