Quando saúde e educação não dialogam, direitos são comprometidos, alerta advogado no TJMT Inclusivo
A interdependência entre
saúde e educação, pilares constitucionais indissociáveis, foi o eixo central da
palestra do advogado Bruno
Henrique Saldanha Farias no “TJMT Inclusivo: Autismo e Direitos das
Pessoas com Deficiência”. Promovido pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso
(TJMT), o evento, realizado na quinta-feira (16) na Igreja Lagoinha, reafirmou
a necessidade de simetria entre políticas públicas e práticas institucionais para
garantir inclusão e reuniu mais de 2,1 mil participantes, entre coordenadores
escolares, professores e cuidadores de alunos com deficiência.
“O
que eu posso garantir a vocês é que o direito da saúde e o direito da educação
precisam, indiscutivelmente, caminhar lado a lado, sob pena de falharem juntos”,
afirmou, ao destacar que a fragmentação dessas políticas resulta em lacunas no
atendimento e compromete diretamente o desenvolvimento das crianças.
A partir de sua experiência pessoal
como pai de um adolescente neurodivergente, o palestrante trouxe à tona
situações concretas que evidenciam a necessidade de comunicação efetiva entre
família e escola, especialmente no processo de identificação precoce. “Onde estava o erro naquele momento? Na
família que não percebeu ou na escola que percebeu e não disse? Grande parte da
vida dessas crianças começa na escola”, pontuou, ao evidenciar
o papel estratégico da comunidade escolar como espaço de observação contínua do
desenvolvimento infantil.
O advogado também
problematizou os limites estruturais enfrentados pelas instituições de ensino
diante da inclusão, ressaltando que a garantia de direitos exige mais do que
previsão legal. “Não tem
como uma sala com 20 alunos, sendo seis ou sete com necessidades específicas,
funcionar sem apoio adequado. É preciso estrutura, profissionais e
sensibilidade”, destacou, ao chamar a atenção para a
necessidade de investimentos e planejamento, incluindo a construção de um plano
de trabalho individualizado.
Tendo mais de três mil ações
já protocoladas para a garantia de direitos das famílias, ao abordar o
arcabouço jurídico Bruno Henrique Farias reconheceu os avanços normativos, mas
enfatizou que a efetividade dos direitos depende de mudança cultural e de responsabilização
compartilhada. “Seria
muito pior sem a lei. O que falta hoje é conscientização. Não podemos tratar a
inclusão apenas na literalidade da norma, mas na prática diária”,
disse.
Em uma abordagem que alia
técnica e humanidade, o palestrante também dirigiu uma mensagem direta aos
educadores, destacando seu papel transformador no processo de inclusão. “Não desistam dos alunos de vocês.
Muitas vezes, por trás de um comportamento, existe uma realidade que precisa
ser compreendida. É aí que começa o verdadeiro processo de inclusão”,
afirmou.
Além disso, o palestrante
chamou a atenção para a necessidade de superação de práticas excludentes ainda
presentes no cotidiano escolar, destacando que a omissão também compromete
direitos. “Quando a
gente assume uma função ligada ao desenvolvimento humano, não pode se omitir. É
justamente nesse silêncio que começa o processo de exclusão”,
advertiu. Para ele, a inclusão exige posicionamento ativo e compromisso
coletivo, sobretudo diante de situações que demandam diálogo sensível com as
famílias e compreensão das múltiplas realidades que cercam os alunos.
Em outro momento, ao abordar
os impactos da ausência de intervenção adequada ao longo da vida, o advogado
reforçou o caráter preventivo da atuação integrada entre saúde e educação. “Se a gente não prepara o mundo para
essas crianças, elas vão crescer sem o suporte necessário e isso cobra um preço
lá na frente. Inclusão não é um favor, é um dever que precisa ser assumido hoje”,
pontuou.
Reconhecimento:
Durante a palestra, Bruno
Henrique Farias também fez questão de enaltecer a iniciativa do Tribunal de
Justiça de Mato Grosso, destacando o papel institucional do Judiciário na
promoção de mudanças concretas. “Eu
não gosto de falar apenas da literalidade da lei. O que o TJMT está fazendo
aqui é diferente: é trazer vivência, é aproximar o Direito da realidade das
pessoas. Isso transforma”, afirmou ao agradecer a vice-presidente do Tribunal de
Justiça, desembargadora Nilza Possas de Carvalho, que também preside a Comissão
de Acessibilidade e Inclusão do Judiciário, pela iniciativa.
TJMT Inclusivo – O projeto reforça o compromisso do Poder Judiciário de Mato
Grosso, por meio da Comissão de Acessibilidade e Inclusão, com o respeito à
neurodiversidade e dá cumprimento à Resolução 401/2021 do Conselho Nacional de
Justiça (CNJ), que dispõe sobre o desenvolvimento de diretrizes de
acessibilidade e inclusão de pessoas com deficiência nos órgãos do Judiciário,
e à Lei federal nº 12.764/2012 - Lei Berenice Piana, que institui a Política
Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista.
Patrícia Neves / Foto: Alair Ribeiro
Coordenadoria de Comunicação Social do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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