Romantização do autismo pode comprometer invisibilizar desafios reais, alerta especialista
A
ideia de que o autismo está sempre associado a habilidades extraordinárias pode
parecer positiva à primeira vista, mas esconde um risco silencioso: a
invisibilização dos desafios enfrentados por milhares de pessoas e famílias. O
alerta foi feito pelo neurologista pediátrico Thiago Gusmão, durante a palestra
“O perigo da romantização do autismo: do nível 1 ao 3”, que abriu a programação
da tarde do evento “TJMT Inclusivo: Autismo e Direitos das Pessoas com
Deficiência”, nesta quarta-feira (15), no Fórum de Cuiabá.
A
iniciativa marca a primeira edição de 2026 do evento, promovido pelo Tribunal
de Justiça de Mato Grosso (TJMT), reunindo magistrados, servidores e
representantes da sociedade civil para discutir inclusão e acessibilidade no
sistema de Justiça. A ação é coordenada pela Comissão de Acessibilidade e
Inclusão, em parceria com a Escola Superior da Magistratura de Mato Grosso
(Esmagis-MT), a Escola dos Servidores, Prefeitura de Cuiabá e a Igreja
Lagoinha.
Durante
a palestra, o especialista destacou que o autismo, independentemente do nível
de suporte (1, 2 ou 3), é caracterizado por prejuízos na comunicação, na
interação social e por comportamentos restritos e repetitivos, aspectos que
muitas vezes são ignorados em discursos superficiais difundidos principalmente
nas redes sociais. “Hoje existe uma cadeia de influenciadores que mostram
apenas o lado positivo, as potencialidades. Elas existem, mas o diagnóstico é
baseado nas dificuldades. Quando se vê apenas esse lado romantizado, a visão
fica superficial”, explicou.
Segundo
ele, a crença de que todo autista possui altas habilidades, como ocorre em
casos raros de “savants”, compromete a compreensão social sobre o transtorno.
“Isso representa uma pequena parcela. Quando a sociedade passa a acreditar
nisso, perde a capacidade de enxergar os prejuízos intensos que o autismo pode
trazer”, pontuou.
Desconstrução
de mitos
Ao
longo da exposição, Thiago Gusmão reforçou que o autismo não pode ser analisado
apenas sob a ótica da inteligência, mas principalmente da funcionalidade. Ou
seja, da capacidade de autocuidado, organização da rotina, independência e
estabelecimento de relações sociais.
Ele
destacou que muitas pessoas no espectro, inclusive com alto nível intelectual,
enfrentam dificuldades significativas para gerir a própria vida cotidiana. Além
disso, comportamentos como agressividade ou autolesão não devem ser
interpretados como “birra”, mas como formas de expressão de sofrimento,
frequentemente relacionadas à dificuldade de comunicação e regulação emocional.
O
especialista também chamou atenção para o aumento dos diagnósticos, explicado
pela ampliação dos critérios, maior conscientização e melhor preparo dos
profissionais. Casos antes confundidos com ansiedade, depressão ou transtornos
de personalidade hoje são identificados corretamente como autismo, inclusive em
mulheres, que historicamente foram subdiagnosticadas devido à chamada
“camuflagem social”.
Impacto
no Judiciário
Levar
esse debate ao Judiciário, segundo Thiago Gusmão, é fundamental para garantir
decisões mais justas e efetivas. Isso porque muitas famílias enfrentam
dificuldades no acesso a terapias, suporte educacional e benefícios, dependendo
de decisões judiciais para assegurar direitos básicos. “Falar com quem faz a
lei prevalecer é essencial. Na base, temos mães que enfrentam realidades
extremamente difíceis, muitas vezes sem acesso a tratamento. Até chegar a uma
decisão judicial, é fundamental que o juiz compreenda o autismo”, afirmou.
Durante
a palestra, ele ressaltou que a falta de conhecimento técnico pode comprometer
a análise de laudos e a concessão de direitos, reforçando a importância de
capacitações contínuas para magistrados e servidores.
O
especialista também destacou o impacto social e econômico do transtorno, que
vai além do indivíduo e atinge toda a família. Muitas vezes, responsáveis
precisam abandonar o trabalho para cuidar dos filhos, enquanto os custos com
terapias são elevados e contínuos.
Ao
final, reforçou que inclusão não é um ato de boa vontade, mas um direito. “O
objetivo é garantir dignidade e qualidade de vida. O autismo é um tema sério,
que exige informação, políticas públicas e conscientização permanente”,
concluiu.
O evento segue até quinta-feira (16), com uma programação voltada ao aprofundamento técnico e à construção de um Judiciário mais preparado para lidar com as demandas das pessoas com deficiência, fortalecendo o acesso à Justiça de forma inclusiva e efetiva.
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Celly Silva / Foto: Josi Dias
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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