Do silêncio à representatividade: trajetória de educadora sensibiliza no TJMT Inclusivo
Dona de uma sinceridade
cativante e de um bom humor genuíno, a professora Taís Augusta de Paula
promoveu, ao longo de quase duas horas, uma profunda e necessária reflexão
sobre a deficiência. Sem dar voltas ou usar eufemismos, Taís contou sua
história e a perspectiva de falecer em poucos anos de vida. Hoje, aos quase 50
anos, utiliza uma scooter para se locomover e usa cabelos curtos porque sua
condição, decorrente de sequelas da paralisia infantil (poliomielite), já não
lhe permite a coordenação e a força motora necessárias para pentear os cabelos.
Sua participação integrou a programação do projeto “TJMT Inclusivo: Autismo e
Direitos das Pessoas com Deficiência”, promovido pelo Tribunal de Justiça de
Mato Grosso (TJMT) nos dias 15 (Fórum de Cuiabá) e 16 (na Igreja Lagoinha).
Com o tema “Além do Olhar:
Compreendendo a Pluralidade das Deficiências”, Taís, que é superintendente de
Promoção e Articulação de Políticas Públicas para Pessoas com Deficiência da
Secretaria de Estado de Assistência Social e Cidadania (Setasc-MT), conduziu
uma fala direta, sensível e profundamente conectada com a realidade vivida por
milhares de famílias.
“Transformo dor em força e voz ativa”, afirmou, ao
sintetizar a trajetória que a levou da exclusão à liderança na formulação de
políticas públicas.
Primeira mulher com
deficiência a ocupar a função no Estado, ela destacou o simbolismo de estar
diante de um público expressivo, formado majoritariamente por profissionais da
educação. Em tom emocionado, dirigiu-se à vice-presidente do TJMT,
desembargadora Nilza Maria Pôssas de Carvalho: “Essa mulher
que fala com a senhora hoje, quando criança sonhava em falar para milhões de
pessoas”, disse, ao agradecer a oportunidade de dialogar com
cerca de 2,1 mil participantes no segundo dia do evento.
Ao resgatar memórias da
infância, Taís evidenciou a exclusão vivida no ambiente escolar e o impacto
dessas experiências em sua formação. “Lá, excluída na sala de aula, no
cantinho, eu ficava olhando pela janela e pensava: ‘Um dia eu vou falar para
milhares de pessoas’”, relembrou. “E hoje estou aqui, falando para tantas pessoas reunidas, especialmente
para quem atua na educação, área que também é a minha base. Estou muito feliz,
muito emocionada”, completou.
A professora destacou que sua
trajetória foi marcada por dificuldades sociais e econômicas, mas também pela
força da educação como instrumento de transformação. “Eu sou filha de mãe solo, cresci em bairro periférico, estudei sempre em
escola pública, mas a minha mãe me fez acreditar que, por meio da educação, eu
poderia transformar a minha vida”, afirmou.
Ao abordar sua condição de
saúde, Taís também compartilhou, com transparência, os desafios atuais e
futuros. “Segurar o microfone para mim é como segurar
um saco de arroz, de tão pesado. E o meu diagnóstico é que, com 50 anos, posso
perder ainda mais movimentos. Mas, enquanto eu viver, eu vou servir.
Enquanto a minha mente funcionar, o meu corpo pode
até me abandonar, mas eu vou continuar lutando para que as pessoas com
deficiência sejam de fato incluídas em uma sociedade que ainda insiste em
fingir que nós não existimos”.
Durante a palestra, Taís
também abordou os desafios enfrentados por pessoas com deficiência no acesso a
recursos e serviços. “Tudo para a pessoa com
deficiência é mais caro, mais difícil. Essa cadeira (scooter) que hoje é como minhas pernas é inacessível para a maioria. Isso também
é inclusão: garantir acesso”, destacou.
Ao compartilhar sua vivência
como educadora, ela relembrou episódios de exclusão dentro do próprio ambiente
profissional. “Na minha época, o aluno com
deficiência era visto como um fardo. E, quando me tornei professora, muitas
vezes fui excluída pelos próprios colegas. Mas nunca pelos meus alunos”,
afirmou, ao evidenciar o contraste entre preconceito estrutural e relações
humanas mais sensíveis no cotidiano escolar.
Mesmo diante das
adversidades, Taís ressaltou que a inclusão exige não apenas estrutura, mas
também atitude e compromisso. “A sociedade tem o poder de
transformar, mas também de excluir. E a educação está no centro disso. Se a
gente não avançar na inclusão dentro da escola, não teremos adultos com
deficiência vivendo com dignidade”, pontuou.
É
preciso agir
Ao final, fez questão de
reconhecer a importância de iniciativas institucionais como a promovida pelo
Tribunal de Justiça de Mato Grosso. “O que estamos vivendo aqui é um
marco para Mato Grosso e para Cuiabá. É isso que nós precisamos: falar,
refletir e agir sobre inclusão”, afirmou.
Ao promover um ambiente de
escuta, formação e sensibilização, o “TJMT Inclusivo” reafirma o compromisso do
TJMT com a construção de uma sociedade mais justa, acessível e verdadeiramente
inclusiva, consolidando-se como referência na articulação entre o Judiciário e
a sociedade pela dignidade da pessoa humana.
O
evento
Ao longo dos dois dias, o
evento reuniu magistrados, assessores, educadores e cuidadores de crianças com
deficiência em um amplo espaço de diálogo e construção coletiva, reafirmando o
papel institucional do Judiciário na promoção de políticas públicas mais
inclusivas e efetivas.
– O projeto
reforça o compromisso do Poder Judiciário de Mato Grosso, por meio da Comissão
de Acessibilidade e Inclusão, com o respeito à neurodiversidade e dá
cumprimento à Resolução 401/2021 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que
dispõe sobre desenvolvimento de diretrizes de acessibilidade e inclusão de
pessoas com deficiência nos órgãos do Judiciário, e à Lei federal nº
12.764/2012 - Lei Berenice Piana, que institui a Política Nacional de Proteção
dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista.
Patrícia Neves / Foto: Alair Ribeiro
Coordenadoria de Comunicação Social do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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