Vendas nos olhos e novas percepções: palestra provoca reflexão sobre a pluralidade das deficiências
Uma dinâmica simples, mas profundamente impactante,
marcou a terceira palestra da tarde do evento “TJMT Inclusivo: Autismo e
Direitos das Pessoas com Deficiência”, realizada nesta quarta-feira (15) no
Fórum de Cuiabá. Com os olhos vendados, participantes foram convidados a
experimentar, ainda que por alguns minutos, as limitações impostas pela
ausência da visão, exercício que abriu caminho para uma reflexão maior:
compreender que a deficiência vai muito além do que se enxerga.
A atividade integrou a palestra “Além do Olhar:
Compreendendo a Pluralidade das Deficiências”, ministrada pela superintendente
estadual das Pessoas com Deficiência, Thaís Augusta de Paula. Com uma abordagem
leve, interativa e até divertida em alguns momentos, mesmo diante de um tema
sensível, a palestrante conduziu o público a refletir sobre empatia, respeito
e, principalmente sobre a necessidade de reconhecer que não existe um único
modelo de deficiência.
O evento, promovido pelo Tribunal de Justiça de
Mato Grosso (TJMT), reúne magistrados(as), servidores(as), advogados(as) e
representantes da sociedade civil em dois dias de programação voltada à
inclusão e acessibilidade no âmbito do Judiciário. A iniciativa é coordenada
pela Comissão de Acessibilidade e Inclusão do TJMT, em parceria com a Escola
Superior da Magistratura de Mato Grosso (Esmagis-MT) e a Escola dos Servidores,
além de outras instituições.
Cada caso é único
Durante a palestra, Thaís destacou que a
pluralidade das deficiências exige um olhar individualizado. “Nem toda
deficiência é visível”, pontuou, ao citar exemplos como o autismo e a
deficiência auditiva, que muitas vezes não são identificados à primeira vista.
Segundo ela, essa invisibilidade pode agravar o
preconceito, já que pessoas com deficiências não aparentes frequentemente têm
suas condições questionadas ou desacreditadas. A fibromialgia, atualmente
reconhecida como deficiência, também foi mencionada como um exemplo de condição
que ainda enfrenta resistência social por falta de compreensão.
A palestrante reforçou que não existe deficiência
“melhor” ou “pior”, mas sim realidades diferentes que demandam respostas
específicas. Outro ponto abordado foi a diferença entre o modelo médico e o
modelo social da deficiência. Enquanto o primeiro foca na limitação individual,
o segundo aponta que as barreiras estão na sociedade. “O maior desafio é
remover obstáculos, principalmente os atitudinais”, afirmou.
Vivência, empatia e inclusão na
prática
Ao longo da apresentação, Thaís também compartilhou
sua trajetória pessoal como mulher com deficiência física, decorrente da
poliomielite, contraída ainda na infância. Em um relato marcado por superação,
relembrou dificuldades enfrentadas na escola e situações de exclusão que
evidenciam a falta de preparo e empatia ainda presentes em diferentes espaços.
Apesar das adversidades, destacou que a educação
foi determinante em sua trajetória, tornando-se professora e, posteriormente
gestora pública. Hoje, utiliza sua própria história como ferramenta de
conscientização e empoderamento.
A superintendente também chamou atenção para o
capacitismo presente no cotidiano, relatando episódios em que sua capacidade
profissional foi questionada ou em que terceiros foram acionados para responder
por ela. “O preconceito, muitas vezes, é invisível, mas profundamente
doloroso”, afirmou.
A palestrante também abordou o conceito de
interseccionalidade, destacando que a discriminação pode ocorrer de forma
sobreposta, atingindo uma mesma pessoa em diferentes dimensões. Segundo ela,
mulheres com deficiência, especialmente negras, enfrentam não apenas o
capacitismo, mas também barreiras relacionadas ao gênero e à raça, o que torna
a exclusão ainda mais intensa. Essas camadas de preconceito se somam no
cotidiano, refletindo em menor acesso a oportunidades, questionamentos sobre
sua capacidade e invisibilidade. “A inclusão passa por atitudes simples, como
escuta ativa, respeito e garantia de acessibilidade”.
Para Thaís, a realização de um evento com essa
temática dentro do Tribunal de Justiça representa um avanço significativo.
“Muitas pessoas com deficiência nunca tiveram a oportunidade de acessar esse
espaço. Isso
mostra que a inclusão está em um processo de ampliação, dando visibilidade para
a sociedade de que nós existimos e queremos contribuir, somar, porque fazemos
parte dela”,
destacou.
Encerrando a palestra, reforçou que a construção de uma sociedade mais inclusiva depende do compromisso coletivo. “A acessibilidade não é um favor, é um direito. E a inclusão precisa ser contínua”, concluiu.
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Roberta Penha / Foto: Josi Dias
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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