Com emoção e reconhecimento, desembargadora Maria Erotides recebe Ordem do Mérito de MT
A cerimônia de
outorga da Ordem do Mérito Mato Grosso, no grau de Grã-Cruz, à desembargadora
Maria Erotides Kneip foi marcada por emoção, aplausos demorados e discursos que
ultrapassaram os protocolos formais para revelar afeto, admiração e gratidão.
No Palácio Paiaguás, autoridades dos três poderes, familiares, magistrados,
integrantes do sistema de Justiça e amigos acompanharam uma homenagem que
reconheceu não apenas a trajetória jurídica da magistrada, mas sobretudo sua
atuação na defesa das mulheres e da dignidade humana.
A honraria,
concedida pelo Governo do Estado com fundamento no Decreto nº 1.961, de 19 de
março de 2026, reconhece o “excepcional mérito pessoal” da desembargadora e sua
atuação histórica no enfrentamento à violência doméstica e familiar em Mato
Grosso e no Brasil.
Ao discursar,
Maria Erotides falou com serenidade, emoção e firmeza. Em diversos momentos,
relembrou a própria trajetória na magistratura, agradeceu às pessoas que
caminharam ao seu lado e destacou que a homenagem não pertence apenas a ela.
“Eu não recebo
essa homenagem como uma distinção individual. Eu a recebo como um gesto de
reconhecimento a uma caminhada inteira construída por muitas mãos, com muitas
vozes, por muitos encontros e sobretudo por uma fé permanente em Deus, em
Cristo Jesus, em Maria Santíssima e na Justiça”, afirmou.
A
desembargadora também refletiu sobre a aposentadoria compulsória aos 75 anos e
disse que o encerramento do ciclo formal na magistratura não representa o fim
de sua missão. “A aposentadoria encerra um ciclo formal na magistratura, mas
não encerra uma vocação. Não encerra o compromisso, não encerra a
responsabilidade de quem dedicou a vida ao servir”, declarou.
Ao recordar a
própria trajetória, Maria Erotides afirmou que aprendeu, ao longo dos anos, que
julgar vai muito além da aplicação fria da lei. “Julgar é escutar, é
compreender a dor humana sem perder a firmeza da razão. É saber que por detrás
de cada processo há uma história, uma família, um medo, uma esperança”, disse.
Em um dos
momentos emotivamente mais fortes da solenidade, a magistrada voltou sua fala
para a defesa das mulheres vítimas de violência, causa que marcou sua atuação
dentro e fora do Judiciário. “A violência contra a mulher não é um problema
privado. Não é um desentendimento doméstico. É violação de direitos humanos”,
ressaltou.
Ela lembrou a
criação e fortalecimento das redes de enfrentamento à violência doméstica em
Mato Grosso, destacando o esforço conjunto entre Judiciário, Executivo,
Ministério Público, Defensoria, forças de segurança, universidades e
municípios.
“Quando falamos
em rede, não falamos de uma palavra bonita. Falamos de uma estrutura de
proteção. Falamos de vidas que podem ser preservadas”, afirmou.
Já ao fim do
discurso, profundamente emocionada, Maria Erotides resumiu o sentimento diante
da homenagem. “Eu recebo como se fosse mesmo um abraço por toda a minha
carreira, por toda a minha vida. E eu agradeço muito, muito, muito. Eu ainda
preciso trabalhar mais para ser merecedora de tamanha homenagem.”
Emoção toma
conta da cerimônia
O momento mais
marcante da solenidade aconteceu durante o discurso do presidente do Tribunal
de Justiça de Mato Grosso, desembargador José Zuquim. Visivelmente emocionado e
com a voz embargada em diversos trechos, ele não conseguiu conter as lágrimas
ao falar sobre a colega de magistratura.
Zuquim destacou
que a trajetória de Maria Erotides ultrapassou os limites institucionais do
Judiciário e se transformou em referência nacional na defesa dos direitos das
mulheres.
“Há homenagens
que reconhecem cargos. Esta reconhece uma história. Uma história que honra o
Poder Judiciário, dignifica Mato Grosso e nos recorda que a Justiça só cumpre
plenamente sua missão quando se aproxima da dor concreta das pessoas”, afirmou.
O desembargador
também ressaltou a sensibilidade e a coragem da magistrada ao longo da
carreira.
“Essa causa
exige firmeza, sensibilidade e presença institucional. Exige que a Justiça
saiba ouvir antes que seja tarde, agir quando necessário e proteger quando a
vida se encontra ameaçada.”
Em meio à
emoção, Zuquim encerrou a homenagem sob aplausos e visivelmente comovido pela
despedida da colega às vésperas da aposentadoria compulsória. “A senhora
representa o amor ao próximo”.
O governador
Otaviano Pivetta também fez um discurso marcado pela emoção e pelas lembranças
pessoais sobre a convivência com a magistrada. Ele contou que, antes de
conhecê-la pessoalmente, tinha a imagem de uma mulher firme e rigorosa, mas que
mudou completamente de percepção ao encontrá-la pela primeira vez, durante o
período em que Maria Erotides atuava como corregedora-geral da Justiça.
“Eu vi no
primeiro olhar o lado humano. E se tivesse que mostrar um rosto que representa
a generosidade, eu mostraria aquele rosto”, declarou.
Pivetta definiu
a desembargadora como alguém movida pelo amor ao próximo. “A senhora representa
uma mulher que exala, irradia amor ao próximo. Nunca perdeu a ternura, apesar
de ter sido justa e cumpridora da sua missão”.
O governador
também afirmou que Maria Erotides se tornou inspiração para o Estado. “A
senhora fez a Justiça que o povo quer. A senhora é uma juíza modelo para todo
mundo se espelhar e se inspirar”.
Ao final,
lembrou a emoção de José Zuquim durante a cerimônia. “Não é à toa que meu amigo
José Zuquim soltou as lágrimas. Não é por acaso”, afirmou.
Legado
inspira novas gerações
A
desembargadora Gabriela Knaul Albuquerque também prestou homenagem à colega e
relembrou o período em que ainda era estudante de Direito e viu Maria Erotides
atuar de forma firme e corajosa mesmo diante de ameaças.
“Eu entrei na
sala e vi uma juíza de uma energia muito forte, escoltada porque estava sob
ameaça justamente pela defesa dos direitos das mulheres”, recordou.
Segundo
Gabriela, a atuação de Maria Erotides inspirou gerações de magistradas. “Ela
transferia coragem. Representava a mulher magistrada em tantos fóruns e
espaços. Essa voz fala forte até hoje”.
A presidente da
Associação Mato-grossense de Magistrados (Amam), juíza Jaqueline Cherulli,
também destacou o olhar humano da desembargadora e a capacidade de acolher sem
perder a imparcialidade. “Ela sabia julgar, mas também sabia acolher a vítima
na medida exata, respeitando a dignidade das pessoas”.
Trajetória
construída na defesa das mulheres
Natural de Juiz
de Fora (MG), Maria Erotides Kneip nasceu em 4 de junho de 1951 e formou-se em
Direito pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 1973. Atuou na advocacia
em Mato Grosso do Sul e Mato Grosso até ingressar na magistratura
mato-grossense, em 1985.
Ao longo da
carreira, passou pelas comarcas de Alto Garças, Rosário Oeste, Várzea Grande e
Rondonópolis. Em 2011, foi promovida ao cargo de desembargadora do Tribunal de
Justiça de Mato Grosso.
Reconhecida
nacionalmente pela atuação no enfrentamento à violência doméstica, foi
idealizadora do Colégio de Coordenadores da Mulher em Situação de Violência
Doméstica e Familiar do Poder Judiciário Brasileiro (Cocevid) e coordenou a
Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar
(Cemulher).
Entre as
iniciativas lideradas pela magistrada estão a implantação de mais de 120 redes
municipais de enfrentamento à violência contra a mulher em Mato Grosso, além da
capacitação de milhares de profissionais e da criação de projetos educacionais
voltados à conscientização sobre igualdade de gênero e proteção às mulheres.
Entre os presentes na solenidade estavam o juiz auxiliar da Presidência do TJMT, Tulio Duailibi, o juiz Marcos Terêncio, a procuradora do Estado Gláucia Amaral, a senadora Margareth Buzetti, a procuradora de Justiça Elizamara Portela, o deputado estadual Carlos Avalone e a delegada Mariell Antonini.
Flávia Borges / Foto: Lucas Figueiredo
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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