Evento debate papel da Inteligência na execução penal e ressocialização no sistema prisional
O papel do
Poder Judiciário na transformação do sistema prisional brasileiro esteve no
centro dos debates do Painel 5 do Encontro Técnico “Inteligência na Execução
Penal e a Importância da Ressocialização”, realizado nesta sexta-feira (29) no
auditório da sede das Promotorias de Justiça de Cuiabá. Com o tema
“Perspectivas do Judiciário para a Implementação do Plano Pena Justa”, o painel
reuniu autoridades do sistema de Justiça e da administração penitenciária para
discutir caminhos voltados à efetividade da execução penal e à ressocialização
de pessoas privadas de liberdade.
A palestra de
abertura foi conduzida pelo supervisor do Grupo de Monitoramento e Fiscalização
do Sistema Carcerário e do Sistema de Execução de Medidas Socioeducativas (GMF)
do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), desembargador Orlando de Almeida
Perri. Debate realizado após a palestra contou com a participação do secretário
executivo da Secretaria da Administração Penitenciária de São Paulo (SAP-SP),
coronel Marco Antonio Severo, e teve a mesa presidida pelo desembargador Wesley
Sanchez Lacerda.
O painel
integrou a programação do segundo e último dia do encontro técnico promovido
pelo Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPMT), em parceria com
instituições do sistema de Justiça e segurança pública. O evento reuniu
magistrados, membros do Ministério Público, profissionais das forças de
segurança e especialistas de diversos estados brasileiros para debater
estratégias de inteligência no sistema penitenciário, combate ao crime
organizado e políticas de ressocialização.
Durante a
palestra, o desembargador Orlando Perri fez uma análise crítica sobre o atual
modelo prisional brasileiro e defendeu a necessidade de mudanças estruturais no
sistema penal. Segundo ele, o encarceramento em massa não tem sido capaz de
reduzir a violência e nem promover a recuperação social dos apenados.
“Nós temos que
realmente repensar a questão prisional do Estado de Mato Grosso. Somos um
estado hiperencarcerador”, afirmou o magistrado ao destacar a necessidade de
conscientização dos operadores do Direito sobre os limites do aprisionamento
como resposta à criminalidade.
O desembargador
observou que experiências internacionais já demonstraram a necessidade de
revisão de determinadas condutas criminalizadas. “A prisão não ressocializa
ninguém. Pelo menos no Brasil, é um modelo fracassado”, pontuou.
Ao abordar o
Plano Pena Justa, Orlando Perri explicou que sua proposta exige união entre
instituições e comprometimento dos poderes públicos para alcançar resultados
efetivos. “O Pena Justa é um programa bastante complexo, assentado em quatro
eixos, com 307 metas e pelo menos um milhar de indicadores que precisam ser
cumpridos. Vai exigir um esforço hercúleo de todas as autoridades e de todos os
poderes”, explicou.
O magistrado
também destacou a importância do Programa Semear, lançado em Mato Grosso
durante o evento, e apontou a iniciativa como referência nacional em
ressocialização. “É um programa maravilhoso, já consolidado no Estado de São
Paulo e que tem levado ressocialização ao sistema prisional. É um projeto a ser
imitado e copiado por Mato Grosso”, afirmou.
Segundo ele, o
Semear dialoga diretamente com os objetivos do Plano Pena Justa. “Os dois
programas são intercorrelacionados. O Semear visa especialmente a
ressocialização dos nossos reeducandos”, completou.
Ao presidir a
mesa do painel, o desembargador Wesley Sanchez Lacerda trouxe reflexões sobre
os desafios institucionais enfrentados pelo sistema de Justiça e chamou a atenção
para o avanço das facções criminosas para além dos presídios.
Ele ressaltou
que o termo “Pena Justa” pode gerar interpretações equivocadas sobre o papel do
Judiciário no sistema prisional. “O nome Pena Justa dá uma falsa impressão de
injustiça da pena e, consequentemente de uma coparticipação do Judiciário
nisso. O Judiciário não tem relação com essa distorção estrutural do sistema”,
ponderou.
O magistrado
também fez um alerta sobre a atuação das organizações criminosas fora dos
presídios. “A maioria absoluta dos faccionados está aqui fora, para além dos
muros do sistema prisional, praticando crimes e cumprindo ordens de dentro das
unidades”, afirmou.
Segundo Wesley
Sanchez, as facções vêm ampliando sua atuação para setores econômicos e
institucionais estratégicos. “A tendência hoje é cada vez maior de migração das
facções para negócios lícitos, como mineração, crimes ambientais, combustíveis,
processo político-eleitoral e até incursão nas carreiras jurídicas”, disse.
Em tom de
preocupação, o desembargador defendeu o fortalecimento das instituições do
sistema de Justiça. “A advocacia privada e a sociedade ainda irão sentir muita
falta de uma magistratura e de um Ministério Público fortes, independentes e
motivados”, concluiu.
A discussão
também trouxe experiências da administração penitenciária paulista. O
secretário executivo da Secretaria de Administração Penitenciária de São Paulo,
coronel Marco Antonio Severo destacou a ressocialização como uma obrigação
permanente do Estado e enfatizou o papel da sociedade civil nesse processo.
Segundo ele, o
Semear nasceu justamente dessa união entre o poder público e entidades
parceiras. “O Programa Semear trata da ressocialização da pessoa privada de
liberdade e é uma iniciativa construída com parceiros da sociedade civil, que
se unem nessa difícil tarefa de reinserir a pessoa presa na sociedade”,
afirmou.
O coronel
ressaltou que a ressocialização está prevista na Lei de Execução Penal e
representa uma tentativa concreta de evitar a reincidência criminal. “O
trabalho desenvolvido pelo Semear em São Paulo já trouxe resultados
significativos e tenho certeza de que em Mato Grosso também alcançará seus
objetivos”, disse.
Programa Semear
em MT
Encerrando a
programação do encontro técnico, o evento marcou o lançamento oficial do
Programa Semear em Mato Grosso. A iniciativa busca fortalecer ações voltadas à
reinserção social de pessoas privadas de liberdade por meio de um trabalho
integrado entre Poder Judiciário, administração penitenciária e sociedade
civil.
Representando a
Secretaria de Administração Penitenciária de São Paulo, Jean Ulisses Campos
Carlucci apresentou a experiência paulista, onde o programa já está consolidado
há mais de uma década. “São mais de 10 anos de aplicação nas unidades
prisionais do Estado de São Paulo. Hoje, o programa alcança praticamente todas
as unidades prisionais paulistas”, destacou.
Segundo ele,
Mato Grosso receberá suporte técnico e metodológico para implantação das ações.
“A ideia é trazer a expertise, os facilitadores e os projetos já aplicados em
São Paulo, para que possam ser adaptados à realidade do estado”, explicou.
Jean Ulisses
também destacou iniciativas psicossociais implementadas dentro das unidades
prisionais, incluindo projetos de reflexão emocional e enfrentamento à
violência doméstica.
Ele citou como
exemplo o projeto “Luz, Câmera, Ação”, que utiliza sessões de cinema mediadas
para estimular reflexões entre os custodiados. “Muitos acabam se reconhecendo
na própria história e percebem que estavam reproduzindo ciclos de violência
vividos dentro da própria família”, relatou.
De acordo com
ele, essas ações possuem baixo custo operacional e apresentam resultados
relevantes na redução da reincidência criminal.
A diretora
executiva do Instituto Ação Pela Paz, Solange Senese explicou que o Programa Semear
funciona como uma força-tarefa entre instituições públicas e sociedade civil
organizada.
“O programa
consiste na união entre sociedade civil, Tribunal de Justiça e poder público em
prol da redução da reincidência criminal”, afirmou.
Ela destacou os
resultados obtidos pelo programa em São Paulo, especialmente no acompanhamento
pós-cárcere. “Hoje, 82,5% dos participantes não retornam ao sistema prisional
pelo cometimento de novos crimes”, revelou.
Para Solange, o
enfrentamento ao crime organizado depende da união entre as instituições e a
sociedade. “O crime organizado se une. Se nós, como sociedade, não fizermos o
mesmo, não vamos vencer essa luta”, declarou.
Também presente
no lançamento, o desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) Luiz
Antonio Cardoso destacou que o Semear deixou de ser apenas um projeto
experimental e se tornou uma política consolidada de ressocialização. “Um dia
foi projeto. Hoje, é um programa efetivamente consolidado em termos de
execução”, afirmou.
Segundo ele, o
sucesso da iniciativa está diretamente ligado à integração entre Judiciário,
Executivo e sociedade civil. “O Semear aproxima Tribunal de Justiça,
administração penitenciária e sociedade civil visando a ressocialização da
pessoa privada de liberdade”, explicou.
O magistrado
também ressaltou que a troca de experiências entre os estados fortalece o
aperfeiçoamento das políticas públicas voltadas à execução penal. “Nós
aprendemos muito com os outros estados. Não existe exclusividade nisso. O
importante é compartilhar experiências para alcançar melhores resultados”,
concluiu.
O Encontro Técnico “Inteligência na Execução Penal e a Importância da Ressocialização” começou na quinta-feira (28) e encerrou nesta sexta-feira (29), consolidando-se como uma iniciativa inédita em Mato Grosso voltada ao aperfeiçoamento técnico e à qualificação do debate sobre segurança pública, execução penal e reinserção social.
Flávia Borges / Foto: Josi Dias
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
Notícias Relacionadas
12/02/2025 18:57
Poder Judiciário de Mato Grosso participa do lançamento do Plano Pena Justa, no STF
27/03/2025 14:11
Judiciário intermedeia parcerias para levar qualificação profissional às unidades prisionais
12/08/2025 18:04
Comitê de Políticas Penais de Mato Grosso aprova Plano Estadual “Pena Justa”











