Capacitação destaca leitura como ponte para a transformação social no cárcere
A
remição da pena por meio da leitura representa muito mais do que um benefício
legal. Trata-se de uma ferramenta de transformação social capaz de ampliar
horizontes, estimular o pensamento crítico e criar novas perspectivas para
pessoas privadas de liberdade.
A
avaliação foi feita pelo juiz auxiliar da Presidência do Tribunal de Justiça de
Mato Grosso (TJMT) e coordenador do Eixo Práticas Educativas do Grupo de
Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e Socioeducativo (GMF/TJMT),
Pierro de Faria Mendes, durante a abertura da III Capacitação "Práticas de
Leitura no Sistema Prisional e Remição da Pena", realizada nesta
terça-feira (2), em formato virtual. O
evento prossegue até o dia 03 de junho.
Promovida
pelo GMF/TJMT, pela Coordenadoria de Educação de Jovens e Adultos (COEJA) da
Secretaria de Estado de Educação e pelo Núcleo de Educação no Sistema
Penitenciário (NESP/SAAP/SEJUS-MT), a capacitação reuniu participantes de
diversas regiões do estado com o objetivo de qualificar profissionais que atuam
na execução das práticas de leitura nas unidades prisionais mato-grossenses.
Segundo
o magistrado, a remição pela leitura deve ser compreendida como um instrumento
de ressocialização que vai além da redução dos dias de pena.
"A
remição pela leitura é um direito de ver sua pena reduzida por meio das
práticas literárias. O objetivo é promover a ressocialização a partir da
construção de um pensamento crítico. Utilizamos a educação como uma ferramenta
de transformação social, de reabilitação cognitiva e de ampliação da visão de
mundo, permitindo que a pessoa privada de liberdade conheça novos referenciais
e outras possibilidades de vida", afirmou.
O
magistrado destacou ainda que o curso busca fortalecer e disseminar
metodologias bem-sucedidas já desenvolvidas nas unidades prisionais do estado,
além de promover a troca de experiências entre os profissionais envolvidos com
a política educacional no sistema prisional.
"Sabemos
que muitos profissionais realizam verdadeiros milagres dentro das unidades e
que diversas práticas locais produzem excelentes resultados. Esta capacitação
também serve para compartilhar essas experiências e fortalecer o trabalho
realizado em todo o estado. O GMF está à disposição para ouvir demandas,
esclarecer dúvidas e construir soluções de forma conjunta. Somos uma grande
equipe formada pelo Judiciário, pelas secretarias e pelos profissionais que
atuam em cada comarca, todos comprometidos com a ressocialização efetiva",
ressaltou.
A
importância da educação como instrumento de reconstrução de trajetórias
pessoais também foi destacada pela superintendente de Políticas Penitenciárias
da Secretaria de Estado de Justiça (Sejus), Gleidiane Assis, que apresentou
dados demonstrando a expansão da participação de reeducandos nas ações
educacionais desenvolvidas no sistema penitenciário mato-grossense.
"A
leitura transforma vidas, gera oportunidades e possibilita a reconstrução de
histórias. Em 2023, tivemos 1.497 participantes; em 2024, foram 2.117; em 2025,
alcançamos 2.770 participantes; e em 2026, já ultrapassamos a marca de 4 mil
participantes. Esses números demonstram a importância dessas ações e o
compromisso dos profissionais que atuam diariamente para promover mudanças
reais na vida dessas pessoas", destacou.
Representando
a Secretaria de Estado de Educação (Seduc-MT), a superintendente de Equidade e
Inclusão, Paula Cunha Souza ressaltou o papel desempenhado pelos professores e
pedagogos que atuam nas unidades prisionais.
"Nossos
professores e pedagogos conduzem um trabalho fundamental para a reconstrução e
transformação social dessas pessoas. A remição pela leitura é uma ação
profundamente inclusiva e demonstra que a educação vai muito além do ensino da
leitura e da escrita. É um trabalho que merece reconhecimento e constante
aperfeiçoamento", afirmou.
A
programação do primeiro dia contou ainda com palestra da assistente técnica
nacional do Núcleo de Cidadania do Programa Fazendo Justiça, Mariana Nicolau
Oliveira, que abordou as diretrizes da Resolução nº 391/2021 do Conselho
Nacional de Justiça (CNJ), norma que regulamenta a remição de pena por meio da
leitura.
Durante
a apresentação, ela destacou que os processos educativos não se limitam,
jamais, a um só ambiente e que o acesso aos livros deve ser compreendido como
um direito.
Mariana
Nicolau Oliveira destacou que a política de remição pela leitura está
diretamente alinhada às metas do Plano Pena Justa. Segundo ela, as ações de
leitura e educação prisional previstas atualmente têm como referência o Plano
Nacional do Livro e Leitura (PNLL).
"Trazer
as metas do Plano Pena Justa para o debate é uma grande vitória, porque permite
consolidar esforços coletivos em torno da garantia do direito à educação e à
leitura para as pessoas privadas de liberdade", afirmou.
Mariana
explicou que o plano trata a educação como um direito inalienável e prevê
medidas estruturantes para ampliar o acesso às atividades educacionais dentro
das unidades prisionais. A palestrante ressaltou que Mato Grosso já atende a
uma das diretrizes previstas, ao possuir um Plano Estadual de Educação
Prisional que contempla ações de educação, cultura e esporte.
Outro
ponto destacado foi a necessidade de integração entre práticas escolares e não
escolares. Conforme explicou, a remição de pena pode ser obtida por diferentes
atividades educativas, como participação em projetos culturais, cursos de
qualificação profissional e programas de leitura, ampliando as possibilidades
de desenvolvimento pessoal e ressocialização.
Mariana
também destacou duas metas específicas relacionadas à leitura. A primeira prevê
o aumento do número de pessoas privadas de liberdade participantes do processo
de remição pela leitura. A segunda busca ampliar e qualificar os acervos
bibliográficos das unidades prisionais brasileiras.
Dados
apresentados durante a palestra demonstram que unidades que contam com
bibliotecas estruturadas registram índices significativamente maiores de
participação em projetos de remição. O levantamento também aponta que espaços
destinados a atividades culturais, como salas de audiovisual e ambientes para
exibição de conteúdos educativos, potencializam outras práticas de aprendizagem
dentro do sistema prisional.
Durante
a palestra, Mariana Nicolau Oliveira também chamou atenção para o papel das
comissões de validação, responsáveis por analisar as atividades realizadas
pelas pessoas privadas de liberdade para fins de remição de pena. Segundo ela,
é necessário reconhecer a sobrecarga enfrentada por esses grupos e, ao mesmo
tempo ampliar as possibilidades de acesso à remição para públicos com
diferentes níveis de escolaridade e perfis socioculturais.
"Precisamos
compreender as possibilidades de ampliar a remição para pessoas com diferentes
graus de escolaridade. A Resolução nº 391 nos oferece mecanismos de inclusão,
permitindo que a validação da leitura ocorra por diferentes formas de
expressão, como desenhos, narrativas orais, apresentações e outras atividades
que demonstrem a realização da leitura", explicou.
A
palestrante ressaltou que a diversidade existente dentro do sistema prisional
exige abordagens mais inclusivas, especialmente para pessoas com baixa
escolaridade, dificuldades de leitura e escrita ou migrantes que não dominam a
língua portuguesa.
"A
comissão de validação é esse espaço capaz de garantir o direito à leitura para
todos. Precisamos considerar as diferentes realidades e assegurar que a remição
pela leitura seja acessível independentemente do nível de escolarização da
pessoa privada de liberdade", afirmou.
Mariana
enfatizou ainda que a remição pela leitura não precisa estar necessariamente
vinculada a um projeto específico, uma vez que o acesso à leitura constitui um
direito previsto na política nacional.
Ao
detalhar os critérios de avaliação, ela destacou que o objetivo das comissões
não é aferir desempenho escolar ou atribuir notas, mas apenas verificar se a
leitura foi efetivamente realizada.
"É
importante dizer que não se trata de uma prova ou de uma avaliação pedagógica.
A finalidade é identificar se a pessoa leu a obra e conseguiu estabelecer uma
relação com o conteúdo apresentado. Não estamos avaliando aproveitamento
escolar, nem criando níveis de pontuação. O que se considera é o tempo dedicado
à leitura e a comprovação de que essa experiência ocorreu", concluiu.
Ao
apresentar caminhos para ampliar o alcance da remição pela leitura, Mariana
Nicolau Oliveira defendeu o fortalecimento das comissões de validação e a
estruturação de projetos pedagógicos permanentes dentro das unidades
prisionais.
Segundo
ela, é fundamental que as ações de leitura estejam integradas aos planos
pedagógicos das unidades e dialoguem com as políticas. A proposta é que a
leitura seja incorporada a uma estratégia mais ampla de formação e
ressocialização.
"É
importante pensarmos em projetos estruturados e em como construir planos
pedagógicos dentro das unidades prisionais. A remição pela leitura pode ir
muito além da simples leitura individual, criando oportunidades de aprendizagem
coletiva e desenvolvimento de novas habilidades", afirmou.
Entre
as possibilidades apresentadas estão a criação de monitorias entre pares, em
que pessoas privadas de liberdade auxiliam colegas em processo de
alfabetização, além da realização de rodas de leitura, clubes do livro e outras
atividades coletivas voltadas ao incentivo à leitura.
A
palestrante explicou que projetos dessa natureza podem ser submetidos à
apreciação do juízo da execução penal para reconhecimento da carga horária e
eventual concessão de remição de pena.
"É
possível desenvolver diversas atividades vinculadas à leitura. Uma obra
teatral, uma produção musical, debates e projetos culturais podem estar
associados ao processo de leitura e contribuir para a remição de pena, desde
que sejam devidamente estruturados e reconhecidos pelo juízo competente",
destacou.
Mariana
também apontou as parcerias com universidades como uma alternativa para
fortalecer as ações educacionais e reduzir a sobrecarga das equipes técnicas
que atuam nas unidades prisionais.
"Uma
das metas nacionais é justamente ampliar as parcerias com instituições de
ensino superior. Existem experiências exitosas envolvendo projetos de extensão,
pesquisa e atividades culturais que podem contribuir significativamente para o
desenvolvimento das práticas de leitura no sistema prisional", observou.
Outro
aspecto destacado foi o papel estratégico dos pedagogos na capacitação das
comissões de validação.
"Em
um estado com a dimensão de Mato Grosso, é importante pensar no pedagogo como
uma referência para orientar e capacitar os demais integrantes das comissões de
validação”, recomendou.
Patrícia Neves
Coordenadoria de Comunicação Social do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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