Capacitação encerra ciclo de formação sobre acolhimento familiar no Estado
A
quinta e última turma da capacitação virtual sobre o Serviço de Acolhimento em
Família Acolhedora (SFA) começou nesta terça-feira (9) e segue até quinta-feira
(11), reunindo cerca de 50 magistrados e servidores das Varas da Infância e
Juventude de Mato Grosso, na plataforma Microsoft Teams. A inciativa da
Corregedoria-Geral da Justiça de Mato Grosso (CGJ-MT), por meio da Comissão
Estadual Judiciária de Adoção (CEJA), já alcançou cerca de 250 profissionais de
todo Estado e busca fortalecer a implantação da política de acolhimento
familiar no Estado.
O
treinamento atende à Recomendação Conjunta nº 02/2024 do Conselho Nacional de
Justiça (CNJ), que dispõe sobre a integração de esforços para o fortalecimento
do Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora. A modalidade de acolhimento é
reconhecida como medida prioritária de proteção e de promoção da convivência
familiar e comunitária.
Nesta
última turma participam da capacitação 25 dos novos juízes substitutos do Poder
Judiciário estadual, empossados em janeiro deste ano, além de magistrados e
servidores da Comarcas de Alto Garças, Aripuanã, Brasnorte, Colniza,
Paranatinga, Porto Alegre do Norte, Pontes e Lacerda, Ribeirão Cascalheira, São
Felix do Araguaia, Tabaporã, Terra Nova do Norte, Vila Bela da Santíssima
Trindade e Vila Rica.
A
juíza auxiliar da Corregedoria, Anna Paula Gomes de Freitas, coordenadora da
capacitação, destacou que esse novo ciclo de treinamento integra os esforços
nacionais para fortalecer e expandir o Serviço de Acolhimento em Família
Acolhedora. Segundo ela, a meta estabelecida é que, até 2027, pelo menos 25%
das crianças e adolescentes acolhidos estejam inseridos nessa modalidade.
“Temos
um grande desafio pela frente. Enquanto a média nacional de acolhimento
familiar está em torno de 7%, Mato Grosso registra cerca de 5%. Por isso, é
fundamental que magistrados e servidores aproveitem esta capacitação para
compreender o funcionamento do serviço, esclarecer dúvidas e conhecer suas
vantagens. Embora seja uma política pública de responsabilidade dos municípios,
o Poder Judiciário tem papel essencial nesse processo, dialogando com
prefeitos, articulando a rede de proteção e incentivando a implantação dos
programas”, afirmou.
A
juíza auxiliar ressaltou ainda que a qualificação é essencial para que
magistrados e equipe técnica possam avaliar a situação de cada criança e
adolescente acolhido, assim como possam contribuir para a implantação do SFA na
comarca.
“Precisamos
estar preparados para participar dessa construção, principalmente os novos
juízes, que vão ter que lidar com os prefeitos para a criação da lei e a
implantação do serviço, treinar as equipes e principalmente tomar decisões cada
vez mais adequadas a realidade de cada criança ou adolescente. O ideal é que
toda criança e adolescente tenha a oportunidade de viver em um ambiente
familiar enquanto aguarda a reintegração familiar ou outra definição judicial”,
concluiu.
O
desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná (TJPR), Sérgio Luiz
Kreuz, referência no assunto no país, foi um dos palestrantes e destacou que o
acolhimento familiar atende melhor os interesses das crianças e adolescentes a
convivência familiar e comunitária.
“É
preciso lembrar que quando uma criança ou adolescente é afastado da
família de origem por conta de situações de violência ou violação de direitos,
essa medida é necessária para protegê-la. Contudo precisamos ter consciência de
que, ao ser encaminhada para uma instituição, ela continua privada de um
direito fundamental, que é crescer em um ambiente familiar. Nossa missão é
fazer todo o esforço possível para que ela retorne à família de origem e,
quando isso não for possível, tenha a oportunidade de viver em outro ambiente
familiar seguro e acolhedor”, afirmou.
O
desembargador ressaltou que diversos estudos científicos demonstram os impactos
negativos do acolhimento institucional prolongado, especialmente nos primeiros
anos de vida. Segundo ele, a ausência de vínculos afetivos estáveis pode
comprometer aspectos importantes do desenvolvimento emocional, cognitivo e
social de crianças e adolescentes.
“Atualmente
menos de 7% das crianças brasileiras acolhidas no Brasil estão em SFA. Nossa
tradição, desde a colonização, é o acolhimento institucional, mas sabemos que a
rotatividade de cuidadores e de acolhidos, por exemplo, dificulta a construção
de vínculos duradouros, tão necessários para o desenvolvimento saudável”,
observou.
Kreuz
destacou que o acolhimento familiar favorece a criação desses vínculos, além de
proporcionar um atendimento individualizado, a não ser quando é um grupo de
irmãos, maior privacidade e respeito à individualidade de cada criança e
adolescente. “É a possibilidade de eles terem seu próprio quarto, de escolher
sua roupa, de ter o seu brinquedo. De conviver e criar vínculos, seja com a
família acolhedora ou vizinhos, por exemplo. De sentir que é mais do que aquela
criança no acolhimento”, disse.
O
desembargador enfatizou também que a modalidade de acolhimento familiar não
traz só vantagens às crianças ou adolescentes, mas também aos municípios, já
que é um serviço mais barato. “Diferente ao acolhimento institucional ele não
requer a manutenção de um imóvel 24 horas por dia, não precisa de tantos
trabalhadores, tem uma gestão menos burocrática, já que não precisa licitar
itens que serão usados pelos acolhidos e poderão ser comprados com a
bolsa-auxílio. Mas mais do que o lado econômico ela deve ser adotada porque é o
melhor para as crianças ou adolescentes”, argumentou.
Sérgio
Kreuz ainda compartilhou uma experiência exitosa de Cascavel (PR), onde atuou
como magistrado por mais de duas décadas, na comunidade rural de Jangadinha.
“Foi
um exemplo de como cada município pode adaptar o programa à sua realidade
local. Começou com uma família recebendo um adolescente, a comunidade começou a
se engajar e cerca de 80% das 40 famílias que moravam na região passaram a
participar do SFA. Mesmo sendo famílias simples, que criavam peixes, tinham
hortas, eles conseguiam prover o principal que era o convívio familiar.
Mostrando que o importante é compreender que existem diferentes formas de
construir uma rede de proteção efetiva para essas crianças e adolescentes”,
afirmou.
Já a
mestre em Serviço Social e advogada Neusa Cerutti, referência nacional na área,
destacou a importância de ampliar o debate sobre os direitos das crianças e dos
adolescentes entre os profissionais do sistema de Justiça.
“Embora
a proteção integral de crianças e adolescentes seja uma prioridade prevista em
lei, ainda enfrentamos desafios para transformar essa prioridade em políticas
públicas efetivas e em garantia concreta de direitos. Por isso, é muito
importante ver o Tribunal de Justiça de Mato Grosso preocupado em promover esse
debate e qualificar magistrados e servidores para lidar com essa temática”,
afirmou.
Neusa
ressaltou que muitos profissionais têm pouco contato com o tema durante a
formação acadêmica e que a capacitação representa uma oportunidade para
aprofundar conhecimentos sobre o Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora e
sua aplicação prática.
“Sabemos
que essa demanda chega diariamente às Varas da Infância e Juventude. Nossa
expectativa é compartilhar experiências e contribuir para que os participantes
se sintam mais preparados para enfrentar os desafios do acolhimento e da
proteção de crianças e adolescentes. Agradeço a confiança depositada em nosso
trabalho e espero que possamos colaborar com a atuação de cada um de vocês”,
concluiu.
Larissa Klein
Assessoria de Comunicação da CGJ-TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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