Mulheres da Cadeia Pública Feminina de Cáceres transformam vivências em versos
"Aqui,
escrever não é tarefa, é respiro, é desabafo que sangra em palavras." Os
versos são de uma mulher privada de liberdade na Cadeia Pública Feminina de
Cáceres e foram apresentados nesta quarta-feira (3) durante a capacitação
virtual Práticas de Leitura no Sistema Prisional e Remição da Pena, promovida
pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso, em parceria com a Secretaria de Estado
de Educação (Seduc-MT) e a Secretaria de Estado de Justiça (Sejus-MT).
A
professora Eliene Rocha Pereira apresentou as boas práticas do projeto “Remição
pela Leitura: eu, leitora de mundo dentro dos muros”, desenvolvido junto com a
professora Aline Aparecida Rocha. A iniciativa transforma os relatos de vida
das detentas em poesia e, segundo Eliene, surpreendeu até as próprias
participantes. "Esse trabalho mostrou que as meninas têm potencial para
fazer as coisas. Quando eu mostrei o resultado para elas, foi uma satisfação
muito grande ver que gostaram", contou a professora durante a
apresentação.
Inspiração
e metodologia
O
projeto nasceu inspirado na escritora Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto
de Despejo, que registrou em palavras a dureza de sua vida na favela. As
detentas se identificaram com a trajetória da escritora a ponto de manifestarem
interesse em ler o livro, desejo que ainda não foi possível atender.
O
trabalho seguiu cinco etapas: apresentação do projeto e diálogo sobre a
importância da escrita; leitura e reflexão sobre as obras de Carolina Maria de
Jesus; produção de relatos sobre experiências de vida dentro e fora da prisão;
transformação dos relatos em poesias com o apoio de inteligência artificial; e
socialização dos poemas em eventos e murais pedagógicos.
Eliene
explicou que organizou e corrigiu os textos produzidos pelas participantes,
preservando os pensamentos e a voz de cada uma. "Eu dei uma organizada no
texto, porque elas erravam muitas palavras, mas os pensamentos e a história
delas foram mantidos", disse.
A
voz que não se cala
Um
dos poemas apresentados, de autora identificada como E. S. Freitas, retrata com
força a convivência no sistema prisional, a desconfiança, a solidão, as
hierarquias invisíveis e, ao mesmo tempo, a resistência e o aprendizado. Em
seus versos, a autora escreve sobre conhecer sotaques e culturas de diferentes
estados, sobre não abaixar a cabeça e não perder a humanidade: "Essa é
minha voz ecoando entre muros que tentam calar, mas não consegue."
Para
Eliene, o significado do projeto vai além da escrita. "Esse projeto quer
mostrar que mesmo dentro dos muros da prisão existem histórias importantes que
precisam ser contadas e ouvidas", afirmou.
Sobre
a capacitação
A
capacitação Práticas de Leitura no Sistema Prisional e Remição da Pena é uma
realização conjunta do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema
Carcerário e Socioeducativo (GMF/TJMT), da Coordenadoria de Educação de Jovens
e Adultos (Coeja/Seduc-MT) e do Núcleo de Educação no Sistema Penitenciário
(NESP/Sejus-MT). A coordenação está a cargo do juiz auxiliar do GMF, Pierro de
Faria Mendes.
O
evento tem como objetivo capacitar professores, pedagogos e outros
profissionais para a implementação de práticas de leitura no sistema prisional,
em alinhamento com o Plano Nacional de Fomento à Leitura no Sistema Prisional e
com a Resolução CNJ nº 391/2021.
Roberta Penha / Foto: Alair Ribeiro
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
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