Poder Judiciário participa de debate sobre população em situação de rua
A
necessidade de união entre os poderes públicos, instituições e sociedade civil
para enfrentar o crescimento da população em situação de rua em Cuiabá foi um
dos principais pontos defendidos pelo Poder Judiciário durante audiência
pública realizada na manhã desta quarta-feira (03), na Câmara Municipal de
Cuiabá.
Representando
o Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), o juiz Marcos Faleiros da Silva,
titular da 4ª Vara Criminal da Capital e integrante do programa PopRuaJud, do
Conselho Nacional de Justiça (CNJ), destacou que o problema exige soluções
construídas de forma coletiva e permanente.
“Foi
a primeira vez que fui procurado por uma gestão municipal para discutir essa
problemática e também a primeira vez que fui convidado para debater esse tema
na Câmara de Vereadores. O problema está aí há muitos anos e precisa ser
enfrentado por todos os atores envolvidos. O Estado não pode abandonar uma
pessoa porque ela é dependente química, desempregada ou enfrenta problemas
familiares. Precisamos construir caminhos para que essas pessoas possam
reconstruir suas vidas”, afirmou o magistrado.
Durante
sua participação, Marcos Faleiros apresentou o trabalho desenvolvido pela
Política Nacional Judicial de Atenção às Pessoas em Situação de Rua
(PopRuaJud), iniciativa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que visa
facilitar o acesso à justiça e garantir os direitos básicos dessa população de
forma simplificada, priorizada e sem burocracia. O programa funciona através de
ações conjuntas, os chamados mutirões de cidadania, que reúnem diversos órgãos
do sistema de justiça e assistência social em um único local.
Segundo
o magistrado, uma das preocupações do grupo é aprimorar os critérios de
levantamento e monitoramento dessa população para subsidiar a formulação de
políticas públicas mais eficazes.
A
audiência pública foi proposta pelo vereador Dilemário Alencar e reuniu
representantes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além da
Defensoria Pública, OAB, entidades assistenciais, comerciantes, movimentos
sociais e integrantes da sociedade civil organizada.
Moradia
como prioridade
Representando
o Movimento Nacional da População em Situação de Rua, Rúbia Cristina de Jesus
trouxe à audiência a perspectiva de quem viveu durante 23 anos nas ruas. Para
ela, a principal solução para o problema passa pelo acesso à moradia.
“Não
existe solução para a população em situação de rua sem habitação. Com moradia,
a pessoa tem dignidade, consegue cuidar da saúde, buscar emprego e reconstruir
sua vida. Ninguém está em situação de rua porque quer. Precisamos ser ouvidos e
participar da construção das políticas públicas destinadas a nós”, afirmou. Ela
defendeu ainda a criação de programas habitacionais específicos para essa
população, como aluguel social e moradias assistidas.
Outro
participante da audiência foi o coordenador do Comitê Intersetorial de
Acompanhamento e Monitoramento da Política Nacional para População em Situação
de Rua (CIAMP-Rua) em Mato Grosso, Rodrigo da Silva Martins. Ele defendeu que o
debate avance para além da oferta de serviços e passe a avaliar os resultados
efetivamente alcançados.
“Precisamos
nos autoavaliar. Quantas pessoas saíram da rua? Quantas conseguiram emprego?
Quantas receberam moradia? Quais políticas realmente estão funcionando?
Precisamos focar nos resultados e ouvir a própria população em situação de rua,
porque são essas pessoas que podem dizer o que funciona e o que precisa
melhorar”, destacou.
Rodrigo
também ressaltou a importância da integração entre assistência social, saúde,
segurança pública, habitação e demais setores envolvidos no atendimento dessa
população.
Próximos
passos
Durante
a audiência pública, foram apresentados dados do Cadastro Único que apontam
cerca de 1.800 pessoas em situação de rua cadastradas em Cuiabá. Os
participantes destacaram que a situação é resultado de múltiplos fatores, entre
eles dependência química, transtornos mentais, desemprego, rompimento de
vínculos familiares, insegurança alimentar e déficit habitacional.
Ao final da audiência, os participantes defenderam a ampliação das políticas de habitação, saúde mental, tratamento da dependência química e reinserção social, além do fortalecimento da articulação entre os órgãos públicos. As propostas apresentadas serão consolidadas em um documento que será encaminhado às autoridades competentes.
Fotos: Donatto Aquino
Ana Assumpção
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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