Lei amplia prazo para denúncia de crimes de violência doméstica e fortalece direitos das vítimas
“Eu fui fazendo uma etapa, depois a outra. Não consegui fazer tudo de uma vez. Se o prazo é curto, às vezes ele acaba passando e depois a mulher entende tudo o que aconteceu, mas já não consegue mais agir. Esse prazo é importante para que ela tenha coragem e consciência do que está vivendo”. O relato da dona de casa C.S.A.C., assistida pelo Centro Especializado de Atendimento às Vítimas de Crimes e Atos Infracionais (CEAV), resume a realidade enfrentada por muitas mulheres vítimas de violência doméstica. Entre o medo, a dependência financeira, os vínculos afetivos e o impacto emocional causado pelas agressões, nem sempre denunciar é uma decisão imediata.
Pensando
nessa realidade, uma nova legislação ampliou de seis para 12 meses o prazo para
o exercício do direito de queixa ou de representação nos casos de crimes
praticados no contexto de violência doméstica e familiar contra a mulher. A
mudança fortalece os mecanismos de proteção previstos na Lei Maria da Penha e
busca garantir que mais vítimas tenham condições de acessar a Justiça no
momento em que estiverem preparadas para denunciar.
Para
a juíza Tatyana Lopes de Araújo Borges, da 2ª Vara Especializada de Violência
Doméstica e Familiar Contra a Mulher de Cuiabá, a ampliação do prazo contempla
uma necessidade observada diariamente nos atendimentos às vítimas.
"Primeiramente, muitas vítimas demoram para compreender que estão numa
situação de violência. Muitas demoram para entender que estão dentro de um
ciclo de violência e, depois disso, ainda precisam de tempo para romper esse
ciclo. Esse aumento de prazo para 12 meses facilita porque, muitas vezes, a
mulher só consegue refletir melhor sobre a situação quando já não está tão
pressionada emocionalmente dentro daquele relacionamento", explica.
Tempo para compreender e buscar ajuda

Segundo
Tatyana, o prazo maior pode contribuir diretamente para ampliar o acesso das
mulheres à Justiça. "Aumentando esse prazo, ela tem mais condições de
refletir e apresentar a representação entre seis meses e um ano. Muitas vezes,
a vítima precisa de apoio psicológico e de uma rede de acolhimento para
compreender o que está acontecendo antes de conseguir formalizar a
denúncia", afirma.
A
própria experiência de C.S.A.C. demonstra como esse tempo pode ser decisivo.
Ela levou meses para compreender a gravidade da violência que vivia e acredita
que o prazo anterior poderia impedir muitas mulheres de exercerem seus
direitos. "Acho que foi muito importante esse aumento (de prazo). Tem
muitas coisas que influenciam para que a mulher não procure ajuda de imediato.
Precisa de tempo para entender o que está acontecendo, para aceitar o que
aconteceu e para ter coragem. O medo atrapalha demais", relata.

Rede de proteção faz a diferença
Além
da ampliação do prazo, especialistas reforçam a importância do acolhimento
psicológico e do apoio familiar para que as vítimas consigam romper o ciclo da
violência.
A
juíza Tatyana orienta que mulheres em situação de violência procurem
familiares, amigos ou qualquer integrante da rede de proteção disponível.
"É importante buscar ajuda. Muitas vezes, a vítima está tão pressionada
emocionalmente que não consegue enxergar todas as possibilidades. Aqui em
Cuiabá existe uma rede de enfrentamento à violência preparada para acolher,
orientar e encaminhar essas mulheres aos serviços necessários", destaca.
A
mensagem, segundo ela, é clara: nenhuma mulher precisa enfrentar a violência
sozinha. Com mais tempo para denunciar e uma rede de apoio estruturada, as
chances de romper o ciclo da violência, buscar proteção e garantir o acesso à
Justiça tornam-se ainda maiores.
Roberta Penha / Foto: Josi Dias e Rodrigo Moura
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
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