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Poder Judiciário de Mato Grosso

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14.03.2019 13:24

Violência contra a mulher: quando o “príncipe” vira sapo
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Tudo começa como um sonho. Você conhece um rapaz atraente, bondoso, prestativo, próximo da família, que busca adivinhar seus pensamentos e te agradar de todas as formas. Aos poucos, você percebe alguns comportamentos estranhos. Ele passa a controlar tudo na sua vida e você desconfia que aquele zelo – travestido de preocupação e cuidado – vai tomando forma de possessão.
 
As discussões se tornam rotina, algumas com maior intensidade e acontece o primeiro empurrão. Logo, em seguida, você descobre que está grávida. Toda vez que você se opõe às vontades dele, isso é motivo de brigas, ofensas e agressões físicas. Você passa a se submeter a todos os caprichos, porque quando não o faz, apanha. Sem ter forças para denunciar e se separar, as agressões se tornam mais graves e frequentes, o medo toma conta, a morte se torna um risco real e a figura amorosa de outrora se transforma em um monstro pavoroso, que representa o pior que pode existir em um ser humano. Como fui cair nessa?
 
É com essa reflexão que a advogada criminalista Olívia Figueiredo* ainda tenta recompor a própria vida, depois de sair devastada de um casamento de nove anos cujo fim quase se deu com a morte dela. Vítima de violência doméstica, conta o drama que viveu com o ex-marido durante todos esses anos, sem conseguir romper com as amarras que a prendiam ao relacionamento abusivo, até o momento em que se viu como uma possível vítima de feminicídio.
 
“Um dia ele chegou e falou que tinha um presentinho para mim. Pegou um rolo de massa e introduziu em mim. Não tinha para quem gritar, fui aguentando, aguentando porque se brigasse iria me matar. Depois de três dias, com hemorragia, bem machucada, tomei uma decisão e decidi ir embora, porque se ficasse iria morrer”, relata, ao se lembrar do pior dia da vida.
 
A família morava em uma chácara em Várzea Grande, sem vizinhos por perto e com dificuldades de comunicação via telefone e internet. Olívia aproveitou um momento de descuido do ex-marido e o trancou dentro do banheiro, fugindo com o filho somente com a roupa do corpo e as dores físicas e psíquicas de quem teve o rosto e cinco costelas fraturadas, deslocamento de retina, e as dolorosas marcas da violência sexual, que, para ela, são as mais difíceis de apagar.
 
“Tomou uma proporção que para mim ele virou um monstro, já não era mais aquela pessoa, aquele príncipe que tinha conhecido, o amor da minha vida que jurava ficar velhinha ao lado dele. Já via nele que não tinha mais arrependimento naquilo que fazia, e olhava para ele e já não o via mais, via outra pessoa. Nunca imaginei que pudesse passar por isso”, lamenta.
 
Mesmo com o horror vivido, o ex-marido ainda tentou reatar o casamento, dizendo que foi um momento de descontrole, que a amava e que poderiam ser uma família feliz novamente. Dessa vez, a advogada soube se desvencilhar do conto do vigário e tomou a decisão definitiva que era necessária para encerrar de vez a história que jamais teria um final feliz.
 
“Eu não tinha mais amor nem por mim mesma, porque me submetia a fazer todos os caprichos dele. Ou fazia, ou apanhava. Tinha que tomar uma decisão, tinha que ser uma decisão definitiva e sabia que seria difícil”, relembra, quando se encorajou a enfrentar o monstro.
 
Habituada ao sistema de Justiça, dado o próprio ofício, Olívia relata que, ainda assim, foi muito difícil alcançar a condenação pelos crimes que o ex-marido havia cometido. Só foi detido porque tentou ameaçá-la e agredi-la dentro do fórum onde estava trabalhando, e precisou ser contido por policiais.
 
Após o episódio, o agressor se mudou para outro Estado, onde também foi preso ao fazer mais uma vítima e ser preso por violência doméstica. Atualmente, cumpre pena de 16 anos de reclusão em regime inicialmente fechado e tenta recorrer da decisão no Tribunal de Justiça.
 
No ano passado, tramitaram em Mato Grosso 5.569 processos de violência contra a mulher, sendo 1.230 em Cuiabá e 406 em Várzea Grande. Mais de 7 mil medidas protetivas foram concedidas no estado, sendo 2.475 em Cuiabá e 910 em Várzea Grande.
 
Na hora que ele sair, ele vai me matar – Olívia conta que convive com o medo e acredita que será assim pelo resto da vida. Nunca fica sozinha em lugar nenhum, possui câmeras de segurança em casa, mantém um rastreador junto ao corpo e ao veículo e o filho sempre sai de casa com um segurança particular.
 
“Na hora que sair de lá, nunca vai aceitar que coloquei ele na cadeia. Tenho certeza que vai vir atrás de mim. Não vai assumir o que fez, que errou e tem que pagar. No interrogatório, ele não falou: eu bati nela, eu fiz isso, tudo a culpada sou eu”, analisa receosa.
 
A irmã de Olívia a acompanhou na entrevista e chora ao falar da possibilidade de ver o ex-cunhado livre novamente. “Se esse homem se ver solto, vai acabar com a vida dela. Ele mata ela. Se sair, vai vir para acabar com todo mundo, quem estiver na frente. Estamos lutando para não acontecer o pior. Você não dorme direito, você não come, minha mãe é de idade, chora, é muito difícil”, relata a irmã, aos prantos.
 
Pode acontecer com qualquer mulher – Olívia usa a própria história para alertar outras mulheres que podem evitar o risco de serem vítimas de violência doméstica. Ela garante que esse crime pode acontecer com qualquer mulher, não apenas com o perfil que muitas vezes se imagina, de dependência financeira e com mulheres vulneráveis socialmente. Ela tinha 37 anos quando conheceu o ex-marido, possuía uma carreira sólida, tinha boas condições financeiras e vinha de uma família estruturada.
 
“Não existe a pessoa perfeita, e sempre vai ter algumas falhas. Quando a pessoa é muito perfeita, você não vê defeitos nela, observe. Ele não vai conseguir ser perfeito sempre, uma hora vai aparecer. A máscara cai. Às vezes é em uma conversa, um tom de voz que altera e você percebe que a pessoa fica furiosa, mas se segura para você não descobrir. Tome cuidado, porque o que passei não desejo para ninguém”, aconselha.
 
*Nome fictício para preservar a identidade da vítima.
 
Clique AQUI e veja o vídeo da matéria.
 
Confira abaixo o início da série "Violência contra a mulher: uma tragédia anunciada":
 
Mulher rompe ciclo da violência após 14 anos sendo espancada pelo marido
 
Mylena Petrucelli
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
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