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Poder Judiciário de Mato Grosso

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06.09.2019 15:14

Recuperandos apostam em trabalho e educação para recomeçar a vida fora da prisão
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Ele tem 41 anos, é casado e pai de quatro filhos. Condenado por um crime considerado imperdoável para muitos, ele utiliza praticamente todas as horas do dia para exercer um ofício que, além de ajudar o tempo passar mais rápido, contribui com a sociedade de Pontes e Lacerda (448km a oeste de Cuiabá), cidade onde nasceu, cresceu e hoje cumpre pena no Centro de Detenção Provisória. O nome dele é Edio Hermenegildo de Souza, um dos 262 recuperandos que estão presos no local. Ali, o autônomo que fazia frete de caminhão fez de uma antiga ocupação uma atividade que lhe dá motivação diária para um novo recomeço.
 
Edio está recolhido no centro de detenção desde dezembro de 2017. Depois de dois meses na unidade, ele já começou a trabalhar na marcenaria. “Surgiu a oportunidade e eu já encarei. É uma forma de ocupar a mente. A gente se envolve mais no serviço e o tempo passa mais rápido. Ocupo meu tempo aproveitando essa oportunidade. O trabalho ajuda. Acabamos tendo como profissão e pegamos gosto pela atividade. Essa iniciativa é muito boa, a turma fica com a mente muito desocupada quando não trabalha. Trabalhando, eles vão ocupar a mente e não vão conversar fiado”, destacou o chefe da marcenaria.
 
No local, são reformadas carteiras utilizadas pela rede escolar, produzidos bancos, mesas e produtos diversos, que são aproveitados por diversas instituições, como creches e prefeitura. “Outras coisas que eles pedem a mais a gente faz também. Assim vamos contribuindo para a sociedade. Para mim, é um hobby, que além de eu estar trabalhando para reduzir a minha pena, estou trabalhando para desenvolver o meu potencial físico, a minha mente. Se ficar parando, a gente vai enferrujando, que nem um parafuso velho. Se estiver todo dia mexendo, está sempre em bom estado de conservação. Trabalhando e ocupando a mente”, discorreu o marceneiro.
 
Nessa quinta-feira (6 de setembro), quem também estava caprichando na finalização de uma nova peça na marcenaria do centro de detenção era o recuperando Danúbio Viana Machado, de 30 anos. Preso desde junho de 2017, ele conta que começou a trabalhar apenas um ano e oito meses depois, e que a rotina mudou depois disso. “Ficou bem melhor. Aqui a gente tem oportunidade de aprender. Antes não fazia nada, era bem mais difícil. Ficava ocioso, parado, muita gente num lugar fechado. Vai rolando um estresse. Aqui é muito melhor”, contou ele, cuja primeira profissão na vida havia sido de marceneiro. “Aqui estou aprendendo coisas novas e aproveito para remir a pena. Também vou ensinando o que sei, porque quando eu sair, outros vão ficar”, observou.
 
Sobre a visita do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (GMF/TJMT) à unidade, que visa ampliação da oferta de trabalho aos recuperandos, Danúbio diz ver a iniciativa com bons olhos. “Se o Estado não der oportunidade para a pessoa sair daqui diferente, corre o risco muito grande dela sair e voltar ao mundo do crime. É o que acontece muito. O trabalho ajuda a gente a pensar no que fez e a não reincidir. Tenho mulher e filho, e penso no meu futuro com eles”, complementou o rapaz, ao passar mais uma mão de verniz na peça que finalizava.
 
Sentado numa máquina de costuras, seu Noé Estevão da Silva, de 64 anos, maneja com facilidade o equipamento instalado na pequena oficina da unidade prisional. Nas suas mãos, tecidos se transformam em novos uniformes e também em outras peças, como aventais coloridos. O sapateiro conta que, para ele, o trabalho, principalmente nesse lugar e em qualquer unidade do sistema penitenciário, é a melhor forma de o preso voltar à sociedade.
 
"Não tem outra forma, porque, no momento em que estamos aqui, com a mente ocupada, estamos desenvolvendo um trabalho e passando uma imagem melhor de nós mesmos, até para as pessoas que vem para cá depois da gente. Então, isso é muito gratificante. E nós estamos retribuindo tudo isso para mostrar para a sociedade que nem tudo está perdido. Quando sairmos daqui, já estaremos qualificados, né? Estamos passando por esse momento, que tem um começo, um meio e um fim. Então, sair daqui vai ser um recomeço. Se possível, quero sair daqui com um emprego, para mostrar que tudo tem jeito. Se cada um tiver o interesse de ajudar, de apoiar, de uma forma ou de outra, para tudo tem jeito”, ressaltou.
 
Cáceres – Nesta sexta-feira (6 de setembro), a equipe do GMF visitou o Centro de Ressocialização (onde ficam recolhidos os homens) e a cadeia pública feminina de Cáceres, município a 222km a oeste da Capital. Ali, algumas frentes são desenvolvidas – intra e extramuros – com o intuito de ressocializar aqueles que cometeram crimes e que, no futuro, voltarão ao convívio em sociedade.
 
Um dos recuperandos que está aproveitando a oportunidade para desenvolver uma atividade fora das celas é o pedreiro Evandro Santos Souza, de 30 anos. Na unidade, ele utiliza seus dias para desenvolver atividades de artesanato. Os produtos, como tapetes, são vendidos por familiares. "Isso é muito bom, porque fazer artesanato distrai a mente da gente e a gente se ocupa mais. A gente faz os materiais e manda para as nossas famílias, o que elas vendem ajuda a gente aqui dentro”, explicou. Na prisão, ele também aproveita a oportunidade para estudar. “É ótimo, porque o que perdemos no passado na escola, podemos recuperar aqui dentro”, complementou.
 
Na cadeia feminina, 20 mulheres também aproveitam a chance de estudar, entre elas a jovem Narrara Santos, de 27 anos. “Para mim, é importante porque é um modo de passar o tempo. Lá fora, no dia a dia, é corrido, e aqui dentro temos momentos em que podemos refletir sobre o que a gente quer para o nosso futuro e a escola é importante por isso, pra gente ver até onde a gente quer chegar, o que a gente quer daqui para frente na nossa vida. Quando sair daqui pretendo dar continuidade a um projeto, um aplicativo de mobilidade urbana que eu criei”, planeja.
 
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Lígia Saito (texto e fotos)
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
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