Projeto leva saúde aos ribeirinhos do Pantanal
Ele tentou uma, duas, oito vezes até conseguir passar na prova para tirar a carteira de habilitação. “A prova era muito rápida e eu não conseguia ler direito o que estava escrito. Até que na oitava vez eu peguei um óculos emprestado de um amigo e consegui passar”, contou Valdivino Mendes de Souza, de 54 anos, que percorreu um trajeto de uma hora de estrada de terra, do distrito de Águas Claras até Agrovila das Palmeiras (ambas distrito de Santo Antônio do Leverger), para consultar o oculista do Projeto Ribeirinho Cidadão.
O lavrador disse ainda que há oito anos dividia um óculos com a esposa, embora o grau não atendesse mais às suas necessidades. “Agora eu ‘tô’ beleza. Ganhei um óculos novinho com o meu grau certo. Além disso, vou usar um colírio que o médico me deu para tirar uma ‘carninha’ que está crescendo no meu olho. Eu ‘tô’ muito contente! Posso dizer que foi o primeiro exame de vista bem feito que fiz na vida”, exaltou Valdivino. Se não fosse a vinda do projeto até o distrito de Agrovila das Palmeiras, ele e a esposa teriam que viajar mais 130km até Cuiabá. O que, segundo ele, seria muito caro e difícil. As consultas com o oftalmologista e o optometrista são os atendimentos mais procurados pelos assistidos do projeto, que tem por objetivo oferecer às comunidades ribeirinhas do pantanal mato-grossense uma gama de serviços que estão fora de seu alcance, devido ao isolamento do local aonde vivem. São realizadas também outras modalidades de atendimento médico, assim como serviços de competência da Justiça, cartórios, Defensoria Pública, INSS, Politec, entre outros.
Paulo Sassaki, de 59 anos, o Paulinho, é o técnico em ótica do projeto. Há oito anos ele deixa o comando da ótica da qual é dono na Capital para se dedicar voluntariamente ao projeto. E em cada comunidade ele e uma equipe montam e desmontam toda a aparelhagem, realizam exames de vista e distribuem óculos aos pacientes. E o que não dá pra ser resolvido na hora é encaminhado para um laboratório em Cuiabá. Depois de pronto, os óculos são enviados de volta para os ribeirinhos.
“Apesar das inúmeras dificuldades de acesso, participar deste projeto me deixa leve e em paz. Os casos aqui costumam ser mais básicos, como vista cansada, hipermetropia e miopia, mas também aparecem coisas mais graves. Em Agrovila de Palmeiras, por exemplo, já tínhamos encerrado o atendimento quando apareceu um senhor com uma doença rara chamada ceratocone. Ele usava um óculos com lentes de 1 e 0.85 graus para longe, quando na verdade precisava usar lentes de 6,5 e 8 graus”, destaca.
Para auxiliar no trabalho do Paulinho, o Juizado Volante Ambiental (Juvam), vinculado ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), doou 700 armações e pares de lente de óculos de grau para serem distribuídos.
Clínica Geral - Quem também participa voluntariamente do Ribeirinho Cidadão é o médico Luiz Miguel Garcia da Costa Marques. Pela primeira vez no projeto, o clínico-geral disse estar surpreso com a carência de atendimento médico das comunidades. “Falta remédio e atendimento para resolver doenças simples, como dor de cabeça, alergia e hipertensão, que é o que mais tenho encontrado por aqui”, assinala o médico.
Para o enfermeiro Erick Sandro Rosa Arinos, que trabalha no SAMU de Cuiabá, fazer parte de um projeto como o Ribeirinho Cidadão é maravilhoso. Segundo ele, um dos momentos mais especiais foi o atendimento de Jovenilo Silva, de 61 anos, morador de São Lourenço de Fátima, distrito de Juscimeira (a 245km de Cuiabá).
Seo Nilo, como é conhecido, mora sozinho numa casa de taipa de um cômodo, construída com a ajuda de vizinhos. Em frente ao casebre corre um esgoto a céu aberto, que traz um odor fétido ao local, tornando a habitação do local quase impossível. No quarto, o idoso divide espaço com uma cama, um balde com água suja para seu consumo e um fogão velho. Além de receber cuidados na ferida inflamada que tinha na perna por conta de uma doença de pele chamada erisipela, ele ainda recebeu medicamentos para pressão e infecção.
Muito emocionado ao ver a situação de Seo Nilo, o enfermeiro contou que mesmo depois de 15 anos de profissão ainda consegue se chocar. “Esse senhor vive num ambiente extremamente precário, quase subumano. E isso me faz refletir que, se cada pessoa fizesse sua parte, a situação dele e de muitas outras pessoas seria diferente”, lamenta.
O Ribeirinho Cidadão, que ocorreu de 19 de fevereiro a 6 de março, é um projeto do Tribunal de Justiça de Mato Grosso e da Defensoria Pública do Estado em parceira com o Ministério Público, Secretaria Estadual de Saúde, Sesc Pantanal, Tribunal Regional Eleitoral, Tribunal Regional do Trabalho, Prefeituras de Barão de Melgaço e Juscimeira, Secretaria de Estado de Trabalho e Assistência Social e Secretaria de Segurança Pública.
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