As dificuldades por trás de um projeto social
Eram seis e meia da tarde. O sol já desaparecia no horizonte, quando um comboio de sete caminhonetes carregadas de pessoas e equipamentos iniciou a trajetória rumo à Agrovila das Palmeiras, distrito de Santo Antônio de Leverger (130km de Cuiabá). O carro guia resolvera seguir um atalho entre as fazendas, já que era preciso chegar ao destino ainda durante a noite. De repente, uma chuva torrencial tomou conta do céu estrelado e poças e mais poças de lama começam a se formar pelo caminho estreito. Somente após seis horas de viagem, finalizou-se a contenda. Afinal, logo, pela manhã centenas de pessoas estariam ansiosas à espera da equipe do projeto Ribeirinho Cidadão. Esse foi apenas um dos sem número de desafios enfrentados pelos profissionais do Ribeirinho Cidadão para realizar a oitava edição do projeto. Conforme explicou o juiz e coordenador da iniciativa, José Antônio Bezerra Filho, cerca de oito meses antes da data de início, a direção já começa a pensar na logística que dará sustentação ao projeto. “Como nosso objetivo é levar cidadania às comunidades mais isoladas, temos que pensar com bastante antecedência nos locais que serão visitados. Por isso, procuramos ter pelo menos uma pessoa de contato em cada lugar para colher informações sobre os trajetos, locais de atendimento e número de pessoas”, explica.
Ele conta ainda que é nessa fase que se começam a buscar os parceiros e recursos que serão necessários para viabilizar a ida dos 72 profissionais até as comunidades. “Enfrentamos duas realidades distintas, uma vez que o projeto se divide em parte fluvial e terrestre. É preciso pensar desde como será o deslocamento, acomodação e alimentação dos profissionais, até de que forma serão realizados os atendimentos aos ribeirinhos”, esclarece o juiz. Na primeira noite da parte terrestre, por exemplo, a equipe precisou passar a noite em uma Escola Municipal, no município de São Lourenço de Fátima (206 km de Cuiabá), pois a demanda de atendimentos prosseguiu pela manhã. Nos outros dias, os profissionais foram acomodados em uma fazenda cedida por um parceiro. “Como os lugares são muito afastados, às vezes é difícil achar pousadas ou restaurantes. Mas, sempre tem alguém disposto a ajudar com acomodação ou comida. Até mesmo a população ajuda a tocar o projeto, oferecendo uma cafezinho ou um pedaço de bolo, à equipe. É uma troca muito gostosa”, conta o defensor público e membro do projeto, Munir Arfox.
Em se tratando dos recursos, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) disponibilizou R$ 80 mil reais para pôr o projeto em andamento. A Defensoria Pública e o Sesc Pantanal também colaboraram com R$ 40 e 20 mil reais, respectivamente.
PARCERIAS – Outro fator determinante para o êxito do projeto é a colaboração dos parceiros. Este ano, também estiveram presentes na ação a Secretaria Estadual de Saúde, Tribunal Regional Eleitoral (TRE), Tribunal Regional do Trabalho (TRT), Prefeituras de Barão de Melgaço e Juscimeira, Secretaria de Estado de Trabalho e Assistência Social (Setas), Secretaria de Segurança Pública (Sesp) e médicos voluntários.
“Os parceiros são fundamentais nesse processo. O nosso objetivo é conseguir aumentá-los cada vez mais para que possamos não só dar prosseguimento ao trabalho, mas ampliá-lo”, afirmou o defensor público e também coordenador do Ribeirinho Cidadão, Air Praeiro.
Air fez questão de ressaltar outra parceria importante, mas que nem sempre é obtida. “Quando temos o apoio da prefeitura local tudo fica mais simples, pois já conhecem a região. As prefeituras de Barão de Melgaço e Juscimeira, por exemplo, foram fundamentais na organização do projeto nas localidades. Outras, no entanto, a despeito dos nossos pedidos, não nos auxiliam em nada. Pior, às vezes até nos atrapalharam ou tentam tomar os louros para si. Nos municípios de Santo Antônio e Poconé, por exemplo, fomos completamente ignorados. Mas, com ou sem apoio das prefeituras, nosso trabalho continua”, adverte o defensor.
Quem também auxilia na execução do projeto são os próprios assistidos. É o caso de da dona de casa Mirlei Dias de Moraes. Além da família, levou os vizinhos e conhecidos para receber a assistência do projeto. Foi ela quem avisou à equipe médica que o vizinho de 61 anos precisava muito de atendimento e não tinha condições de sair de casa.
Mirlei também trouxe às pressas, de uma fazenda a 30 km, a pequena Franciele Gonçalves, de 12 anos. A menina, que atualmente só possui 8% da visão, foi diagnosticada com uma doença degenerativa da córnea chamada retinose pigmentar. E, infelizmente, deverá perder a visão em breve. “Tenho pouco, quase nada. Mas, sempre que posso procuro ajudar meus vizinhos e amigos. É muito difícil chegar uma ajuda qualquer aqui pra gente. Somos uma gente esquecida. Por isso, acho maravilhoso quando um projeto como esse vem até aqui”, desabafa Mirlei.
“Como esse projeto visa oferecer serviços essenciais às comunidades mais distantes e de difícil acesso, sempre encontraremos grandes desafios. Especialmente, no que se refere ao deslocamento. Entretanto, não canso de dizer que apenas uma ação em cada comunidade já dignifica a existência do projeto”, conclui o juiz.
Para permanecerem 15 dias levando cidadania e serviços médicos, jurídicos e sociais aos ribeirinhos do Pantanal mato-grossense, o projeto contou com o apoio de sete caminhonetes, duas chalanas, quatro barcos de apoio, mais de 100 pessoas envolvidas direta ou indiretamente – entre voluntários e profissionais.
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
(65) 3617 3394/3409











