Viva a vida, o lema por trás de um projeto social
“Viva a vida!”. Bradou o grupo de pessoas por três vezes a todo pulmão. Quem pudesse ver e ouvir a alegria e a motivação no rosto de cada um não poderia imaginar que era apenas cinco horas da manhã e que todos já estavam há 10 dias trabalhando diuturnamente em pleno Pantanal mato-grossense.

Essas pessoas formaram o projeto Ribeirinho Cidadão, ação social do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, Defensoria Pública e parceiros, realizada de 19 de fevereiro a 6 de março, que teve por objetivo levar um pouco de cidadania às comunidades ribeirinhas do Pantanal. O lema, quem criou e emplacou, foi um dos coordenadores do projeto, o juiz e amigos de todos José Antônio Bezerra Filho, mais conhecido como doutor Toni.
Sobre a origem do grito de guerra, o magistrado conta que é um mantra pessoal. “Uso essa frase há anos para mim e para a minha família. Me desperta esperança e alegria de viver. E acredito que repeti-la ao longo do projeto, a todo momento, ajuda a engajar e a dar energia aos participantes”, explica o juiz.
E quando o Dr. Toni diz a todo momento é a todo momento mesmo. Nos instantes mais difíceis da trajetória, que durou 15 dias e contou com a travessia em rios e poças de lama, o mantra sempre esteve por lá. “Reunir 72 pessoas que nunca se viram e mantê-las motivadas e em harmonia por tanto tempo não é fácil. Por isso, gosto de usar esse mantra. Acima de tudo, acredito que essas pessoas que estão aqui tem um perfil único e uma vontade constante de fazer o bem”, afirma o juiz.


Para a assessora de imprensa da Defensoria Pública e membro do projeto, Gabriela Galvão, a Gabi, o mantra tem várias classificações diferentes. “Ao acordar, anima e espanta o mau humor matinal, já ao chegar numa nova comunidade ou finalizar um atendimento, emociona e dá a sensação de dever cumprido”, garante Gabi.
Quem também aderiu ao ‘viva a vida’, como um estilo de vida, foi o Tita. Adejanir Viera de Almeida é perito papiloscopista da Perícia Oficial de Identificação Técnica (Politec) e está no projeto há quatro anos. No alto dos 62 anos, tem a disposição e alegria de um menino. Quando não estava fazendo as carteiras de identidades dos ribeirinhos estava dançando ou fazendo alguém rir com as traquinagens. Poucos sabem, mas Tita já poderia ter se aposentado há três anos. “Nem tem como parar. A carência que a gente vê é que nos dá força. Vir a esse projeto ano após ano me traz paz e me dá uma felicidade fora de sério”, assegura Tita.
Histórias - Pela sétima vez no projeto, o defensor público Munir Arfox, de 61 anos, concorda que a carência é a força motivadora que o faz deixar a família e o conforto de casa por duas semanas para fazer parte do projeto. “Essas comunidades são relegadas ao último lugar. Há um esquecimento total. O Ribeirinho preenche parcialmente a realidade dessas famílias e, com isso, melhora a qualidade de vida delas. A única coisa que me entristece é a falta de apoio de alguns municípios, como Santo Antônio (de Leverger) e Poconé. Se tivéssemos mais apoio, conseguiríamos atingir muito mais pessoas”.
Mas, no final, o que ficam são as histórias. Carla Chalina Lorena Souza, de 30 anos, é escrevente cartorária e participante do projeto desde 2010. Ela conta que já ouviu muitas histórias tristes e felizes no projeto. “Em Juscimeira, por exemplo, fiz uma certidão de casamento de um casal que já estava junto há trinta anos e nunca teve condições financeiras de se casar. Foi muito emocionante ver o brilho nos olhos deles depois de tantos anos. Acho muito gratificante chegar numa comunidade sem acesso a nada e poder fazer algo por eles”, reflete Carla.
A escrevente narra ainda um episódio em Agrovila das Palmeiras (134 km de Cuiabá) em que convenceu um casal a não trocar o nome da esposa após o casamento. “Eles estavam juntos há muitos anos e já tinham filhos e netos. Expliquei que se o nome da esposa fosse alterado, todos os filhos e netos também teriam que fazer a mudança e isso traria um grande transtorno a família. Acabaram aceitando”, recorda Carla.
Já para a defensora pública Corina Pissato, a história que mais a tocou aconteceu na comunidade ribeirinha de Arara Azul. “Em razão de uma enchente, uma família passou a morar dentro da escola pública. A família estava totalmente desamparada pelo Poder Público e as crianças não tinham nem registro de nascimento. Além disso, os alunos da escola não eram separados por idade nas aulas”, lembra Corina.
Para tentar solucionar a situação, a defensora entrou com uma ação civil pública exigindo que a Prefeitura de Barão de Melgaço tomasse providências. “Quem participa do Ribeirinho Cidadão não volta da mesma forma. É um grande aprendizado. Espero que o projeto continue por muitos e muitos anos, pois precisam”, conclui a defensora.
Voltando pra casa – Surpreendendo as expectativas, a despedida do projeto foi intensa. No último dia, no Distrito de Mimoso, a programação que estava marcada para finalizar às 12h se arrastou até às 17h. Mais de mil pessoas de toda a região apareceram em busca de atendimento. E apesar do cansaço, a equipe se desdobrou mais uma vez.
“Particularmente nem sinto cansaço, mesmo após 15 dias de atendimento. Fico mais cansada em casa do que no mutirão, pois esse trabalho me deixa feliz. A vontade de atender a todos supera o desgaste físico”, afirma a técnica de desenvolvimento econômico e social do Sistema Nacional de Emprego da Secretaria de Estado de Trabalho e Assistência Social (Sine/Setas), Berenice Martins, de 60 anos, responsável pelas certeiras de trabalho.
De acordo com o sargento da Policia Militar e membro do projeto, Ângelo Camargo, de 42 anos, é uma satisfação ver a gratidão no rosto das pessoas. “Quando chego em casa até estranho. Parece que minha casa é aqui no projeto, pois me sinto muito a vontade no meio desse povo”, conta satisfeito.
“O Ribeirinho Cidadão superou todas as expectativas das outras edições e os números evidenciam isso. Graças ao desempenho dessa equipe maravilhosa alcançamos mais de cinco mil pessoas atendidas. Depois de todos esses anos, o que me motiva primeiro é a satisfação íntima em poder auxiliar, e segundo é a convicção que não podemos falar que vivemos num estado democrático de direito enquanto houver um irmão nosso numa condição de mediocridade”, diz o defensor público e coordenador do projeto, Air Praero.
Ele espera que os bons resultados obtidos possam, de alguma forma, sensibilizar as autoridades constituídas e a sociedade organizada a fomentar a parceria com a Defensoria Pública e o Poder Judiciário para ampliar o projeto.
Os depoimentos dos participantes evidenciam que mais do que um projeto social, o Ribeirinho Cidadão é um projeto transformador. Ele não muda para melhor apenas a vida dos ribeirinhos assistidos, mas, principalmente, a vida de quem assiste.
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