Ir para o conteúdo principal
Selo de Transparência
Logo CNJ

 27/08/2015   16:32 

Compartilhe: 

Educação no cárcere é debatida em Fórum

O atual modelo de educação no cárcere está esgotado. Esta é a tese defendida pelo coordenador da Cátedra da Unesco em educação de jovens e adultos, Timothy Denis Ireland. Ele proferiu palestra sobre o assunto na manhã desta quinta-feira (28 de agosto) durante o Fórum Internacional Humanismo e Ressocialização: Sistema de Justiça à Consagração dos Direitos Humanos. O evento, que teve início dia 26, em Cuiabá, termina nesta sexta-feira (28 de agosto).
 
Para ele, a educação no cárcere não pode ser reduzida à escolarização de pessoas presas. O professor argumenta que é preciso ir além, envolver a todos, não apenas os detentos, mas sim os que atuam no sistema prisional, desde o diretor até a parte administrativa, incluindo neste processo os familiares dos presos e a própria comunidade.
 
O professor ressalta que a palavra reeducando não é correta, pois ninguém pode ser “reeducado”, já que a educação é um processo que acompanha as pessoas ao longo da vida. “Quando se pensa em educação, se pensa na escola. Ela é importante sim, mas aprendizagem é um processo muito mais amplo. Não é algo restrito à idade, a educação começa quando nascemos e continua até o final da nossa vida”.
 
O doutor em educação para jovens e adultos pela Universidade de Manchester afirma que a educação é necessária para que o ser humano possa, de fato, ser livre. “Temos que ver a educação como um processo das pessoas se tornarem mais humanas, mais cidadãs, mais completas. Somos seres incompletos que passam a vida toda buscando esta completude, buscando ser mais. Educação para mim é a busca de ser mais, ela não se restringe à alfabetização”.
 
Ele afirma que o modelo atual de educação, seja dentro dos presídios ou extramuros, não interessa mais para a maioria das pessoas. O modelo escolar essencialmente focado no conteúdo não é mais atrativo.
 
“A pessoa, especialmente jovens e adultos, quando toma a decisão de voltar a estudar é porque está procurando alguma coisa para a vida. Essa ‘coisa’ na sua vida é poder participar melhor da sociedade para ser mais produtivo, conseguir um emprego. Todos esses elementos a escola não contempla. A escola é muito distante da realidade da vida. O que a pessoa começa a querer é ver a relevância do que aprende na escola para a sua vida. O que isso vai acrescentar para mim? Este elemento se perdeu. Quem está encarcerado leva isso muito mais em consideração. Ele quer aprender algo que será fundamental para a sua vida”, salienta.
 
O professor defende que é preciso mudar a forma de ensino para que ele possa se tornar atrativo. Para ele, é preciso pensar a educação junto com a formação para o mundo do trabalho. Esse viés é de vital importância, principalmente para aqueles que cumprem pena e que ao final buscam uma nova chance para viver em sociedade.
 
“Dividir o conhecimento em compartimentos - história, geografia, português, matemática - para a pessoa conseguir articular esses elementos é muito difícil. A vida é uma realidade diferente da escola. A vida não é quebrada em pedacinhos como disciplinas escolares, é um conjunto, uma totalidade. As pessoas estão começando a não querer mais ir para a escola. Isso é um sinal muito forte de que esse modelo acabou, tem um valor limitado. Ele tem que ser repensado”.
 
Ele ressalta que não adianta achar que investindo apenas na educação dentro dos presídios haverá a reinserção dos detentos na sociedade. “Se não conseguirmos educar todos para entender esse processo, não haverá nunca uma aceitação por parte das pessoas não presas para com as presas. Sempre teremos cidadãos que sairão do presídio carimbados de ‘ex-prisioneiros’ e nunca como reingressados”.
 
O professor chama a atenção ainda para o fato de que a pessoa presa perde o direito de ir e vir, mas não os demais direitos, entre eles a educação.
 
“A educação não é um processo que para. Não tem educação em prisão e fora da prisão. Existe educação. Tem pessoas em processo de educação que são privadas de liberdade e tem aquelas em processo educativo que não estão privadas de liberdade. Isso é importante que as pessoas entendam. Enquanto existir essa separação haverá uma resistência da sociedade extramuros em aceitar a reinserção daqueles que já estiveram atrás das grades. Por isso, a educação não pode ficar fechada no cárcere, tem que ir além, envolver a todos”.
 
Leia outras matérias sobre o Fórum:
 
 
 
 
 
 
Fotos: André Romeu
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
(65) 3617-3394/3409