Presidente é homenageado por Barão e Leverger
Uma das formas de reconhecer o bom trabalho que o servidor público presta à população é oferecer-lhe uma condecoração. Foi dessa forma que os municípios de Santo Antônio de Leverger (34 km ao sul de Cuiabá) e Barão de Melgaço (113 km ao sul) agraciaram o presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, desembargador Paulo da Cunha, com o título de cidadão santoantoniense e melgacense. A entrega foi realizada na Presidência da Instituição, na manhã de sábado (10 de dezembro).
“Este é um momento significativo em minha vida. A passos largos para a finalização do mandato como presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, recebo esta condecoração com a certeza de que nesses 23 meses tive meu trabalho assentado na dignidade. Por isso, hoje, sinto-me em festa. O tempo é um tecido invisível em que podemos bordar tudo e o trabalho desenvolvido pelo Ribeirinho Cidadão foi estampado com as cores vivas da solidariedade aos cidadãos”, ressaltou o magistrado.
“Reconhecemos todas as dificuldades logísticas e financeiras de levar esse projeto adiante. Mas sabemos também que além de cidadania, o projeto leva esperança ao nosso povo. Nosso município, terra de Rondon, fica feliz por ter o senhor como cidadão a partir de hoje. Por isso, quero que faça de nossa cidade uma extensão de sua casa”, confirmou o prefeito de Santo Antônio de Leverger, Valdir Castro Filho.
Juntamente com o presidente, foram homenageados o juiz José Antonio Bezerra Filho e o defensor público Air Praeiro, responsáveis pelo Projeto; o defensor público-geral, Djalma Sabo Mendes; e o contra-almirante Petrônio Augusto Siqueira de Aguiar. Praeiro já possuía título de cidadão melgacense e santoantoniense. |
DISCURSO DO PRESIDENTE DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE MATO GROSSO, DESEMBARGADOR PAULO DA CUNHA, AO RECEBER OS TÍTULOS DE CIDADÃO DE BARÃO DE MELGAÇO E DE SANTO ANTÔNIO DE LEVERGER
No exercício da vida pública, certas homenagens existem que, mais do que nos envaidecer, têm o poder de nos sensibilizar. Sim, elas nos falam sobretudo ao coração. Já caminho, a passos largos, para o término de meu mandato à frente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso. Nesta altura, quase cerrando as portas, sou agraciado pela Câmara de Barão de Melgaço, com o título de Cidadão Melgaciano. Bem assim pela Câmara de Santo Antônio de Leverger, que me oferta a comenda de Cidadão Santo-Antoniense. Sabedor de que não sou rico de predicados, a distinção se deve, creio eu, a uma única condecoração. Esta, faço questão de ostentar: meu trabalho assentado na dignidade. Lição que aprendi em casa, obra de meus pais. Só me cabe agradecer a Deus este privilégio. A bem dizer, sinto-me convidado a uma festa. Num mesmo dia, sou abraçado pelo povo de Santo Antônio e de Barão! Isso nos fraterniza. As coisas não ocorrem por acaso. Há uma força no universo que a tudo preside. Curioso assinalar que esses dois municípios exibem o mesmo patrono. É como se disséssemos: corre neles o mesmo sangue. Vocês já se deram conta disso, mas vale reforçá--lo. O benemérito, seja de um município seja do outro, é Augusto João Manoel Leverger. Todos o conhecemos: o nome que mais corre é Barão de Melgaço. Enquanto Santo Antônio carrega seu sobrenome – Leverger –, a cidade de Barão traz, como assinatura, o título com que foi qualificado: Barão de Melgaço. Que significativo! Exceto Augusto Leverger, nosso Barão de Melgaço, ninguém mais teve seu nome emprestado para batizar dois municípios deste Estado. Cá entre nós: deve haver alguma razão muito especial para tanto! Fruto do acaso é que não foi. Sim, o merecedor de tal honra foi um gigante. Intelectual de mão cheia. Mais de 35 produções – de pequena ou grande monta – são atribuídas a ele. Vivia em meio aos livros e mapas. A casa que a ele pertencia continua apadrinhando a maior instituição cultural do Estado: a Academia Mato-Grossense de Letras. A um só tempo, Leverger foi eminente historiador, geógrafo de raros dotes. Mais do que ele, ninguém conhecia os rios que serpenteiam nosso solo, a queda de suas cataratas, a extensão de suas planícies. Vasculhou – com a lupa de seu conhecimento – as riquezas naturais de Mato Grosso, Estado que amava como se fora um pedaço da França, país de sua origem. Sim, ele era bretão. Nasceu na Província de Bretanha. No entanto, foi por ocasião da Guerra do Paraguai que ele se notabilizou. Em Melgaço – primeiro nome da atual Barão de Melgaço –, ergueu trincheiras para impedir o avanço das tropas invasoras. Essas fortificações ainda estão lá, a testemunharem sua ousadia. Não bastasse isso, ajudado por sua destemida tropa, Leverger fez o estreitamento do Rio Cuiabá, estendendo, de uma margem à outra, uma grossa corrente. Seu intento era salvaguardar Cuiabá, uma vez que a população toda estava em pânico. A invasão, contudo, teve seu intento malogrado. Depois de 100 demorados dias, o Barão retornou à Capital. Imaginem se não foi recebido como herói! Por três vezes, Augusto Leverger foi Presidente da Província – título que corresponde ao de Governador de Estado. Em duas outras ocasiões, foi Vice-Presidente, sempre nomeado pelo Imperador Dom Pedro II. Impossível ignorar a identificação deste francês da Bretanha com o povo a que emprestou sua cultura, seu talento, sua bravura, sobretudo o vigor de seu trabalho. Virgílio Corrêa Filho, um de nossos maiores historiadores, dedicou a ele um livro que estampa este título: Leverger – o bretão cuiabanizado. Disse tudo! Poderíamos nos deter por aqui. A história de Augusto João Manoel Leverger deve servir de motivação a todos os que habitam estas cidades, cujos nomes o homenageiam. Com 22 anos foi integrado à Marinha, tendo alçado ao posto de Almirante. Até hoje, esta Instituição o reverencia. Em Cuiabá chegou ainda moço, dono de seus 28 janeiros. Mal despontava o ano de 1830. Aqui viveu por quase 50 anos. Em atenção à verdade dos fatos, é de registrar que a primeira casa por ele alugada se localizava na antiga Rua do Campo, hoje crismada com seu nome: Barão de Melgaço. Idealista, consagrou sua vida às causas de Mato Grosso. Enxergava longe. Sem medo de errar, podemos dizer: um homem muito além do seu tempo. Ocorre-me, para finalizar, uma historieta que guardo comigo. Eu a ouvi quando cursava o ginásio. Quero dividi-la com vocês. Fruto da imaginação popular, diz uma lenda que certo camponês encontrou, em suas andanças, um ovo de águia. De pronto, foi despertado para esta ideia: colocá-lo no ninho de uma de suas galinhas para que fosse chocado. Em síntese: a aguiazinha que iria nascer poderia, se quisesse, passar a vida na pequenez de um galinheiro. Ou, indo ao encontro de seu passado, haveria de ganhar espaços azuis. O que isso importa para nossa vida? Dentro de cada um de nós, um enredo vai sendo tecido. De um lado, poderá ser de dependência e de medo, cumprindo o papel de meros coadjuvantes. Seres sem luz própria. Conformados com sua realidade, com seu ambiente. Por outro lado, poderemos escrever uma narrativa que navegue pelo mar da ousadia, enfrentando as ondas turbulentas, sempre sabedores do que queremos. A exemplo da águia, desfilaremos pelas alturas, analisando a tudo com visão abrangente, capaz de eleger o que convém a nós e aos que conosco convivem. Este o caminho escolhido por Leverger. Desde cedo, insatisfeito, sentiu que poderia alargar o horizonte de seus sonhos. Abandonou sua terra natal para explorar a vastidão deste Estado, que encanta o Brasil todo. Fala-se tanto em passar o país a limpo. Que o façamos de maneira mais simples: comecemos a passar a limpo o município em que vivemos. Saibamos cuidar da coisa pública como se deve: se é pública, pertence a todos. Chega de administrá-la como se fosse própria, beneficiando tão somente nosso umbigo, privilegiando interesses que não os da comunidade. Mato Grosso, sobretudo Mato Grosso, deve muito a Leverger. Que sua memória, palpitante, continue na alma do povo que ele tanto amou. Povo que quis perpetuar-lhe o nome, inscrevendo-o para sempre nestas queridas e acolhedoras cidades. A elas, de hoje por diante, me associo. Somos irmãos! Antecipo-lhes, tomado de carinho, meus votos de Boas-Festas. Para tanto, tomo emprestadas as palavras do Papa Francisco: Você é o anjo do Natal quando consegue entoar e cantar a mensagem de paz, de justiça e de amor que esta data encerra. Feliz Natal a cada um de vocês, estendendo meus cumprimentos a todos os cidadãos de Santo Antônio de Leverger e de Barão de Melgaço. Obrigado a todos! |











