Programa “Servidores da Paz” conclui formação de novos facilitadores
Sentir-se tão à vontade para falar, que nem mesmo o
fato de estar entre pessoas desconhecidas impede o início de um processo de
cura. Foi com esse sentimento de liberdade e segurança, que o Poder Judiciário
de Mato Grosso, por meio do Núcleo Gestor da Justiça Restaurativa (NUGJUR),
concluiu na sexta-feira (17) a formação de duas novas turmas de facilitadores
em Justiça Restaurativa e Círculos de Construção de Paz. O curso foi realizado
entre os dias 14 e 17 de outubro, na sede do Complexo dos Juizados Especiais de
Cuiabá.
A partir de agora, os novos facilitadores terão a missão
de atuar como agentes de pacificação vinculados ao Programa “Servidores da Paz”.
Implantado em 2023, o programa tem se dedicado a promover ambientes de trabalho
mais humanos e inspirar a cultura da paz em todas as unidades do Poder
Judiciário.
Além de promover o desenvolvimento humano dos
servidores, a formação propicia um espaço de escuta, empatia e reflexão sobre
as próprias vivências e relações de trabalho, dando o tom de como será a
caminhada de um facilitador. Mais do que um curso, a formação se revela uma
experiência transformadora, que convida cada participante a reconhecer em si o
potencial de promover diálogos restaurativos, fortalecer vínculos e cultivar
ambientes mais colaborativos e respeitosos.
Para a psicóloga Ana Paula Carvalho Rocha
Ferrari, que atua há quatro anos como técnica judiciária no Centro de
Atendimento às Vítimas de Crimes e Atos Infracionais (Ceav), no Fórum de Várzea
Grande, vivenciar a formação foi como um processo de desconstrução e
aprendizado.
“Posso dizer que literalmente venho de um processo
de desconstrução. Desde o início do curso estou desconstruindo muitas coisas
que trazia como bagagem. Na psicologia, muitas vezes o condutor fala mais do
que quem participa. Aqui, no Círculo, a gente vive a horizontalidade, é o
espaço onde eu também posso me expor, falar de mim e me conectar com o outro. É
uma ferramenta que me abriu os olhos para o que posso fazer em projetos
futuros. O Círculo permite olhar para a dor, mas de um jeito leve. Ele
reconstrói, ressignifica. A gente fala daquilo que precisa ser dito, e, mesmo
que haja choro, o resultado é um alívio, uma sensação de cura que vem pela fala
e pela escuta”.
A técnica judiciária Elisa Cristina Cândido
Rodrigues, psicóloga e servidora há 12 anos no Poder Judiciário, participou da
formação com um olhar atento às possibilidades de aplicar as práticas
restaurativas em seu ambiente de trabalho, mesmo atuando na área de exatas,
como é o trabalho na Contadoria do Fórum da Cuiabá. Para ela, a vivência como
facilitadora transforma primeiro quem conduz o processo.
“O facilitador é o primeiro a ser tocado, porque
ele se coloca no lugar do outro, sente as dores que também já viveu e aprende a
olhar o outro com empatia. Essa prática deveria ser constante no ambiente de
trabalho, pois ajuda a enxergar não só o colega, mas também o jurisdicionado
como um ser humano que traz suas dores e sofrimentos. Talvez por estar na
contadoria, pense que não tenha nada a ver com os círculos, mas tem tudo a ver.
Quero voltar ao meu local de trabalho e desmistificar essa prática, mostrando
que o Círculo de Paz é, na verdade, um olhar para nós mesmos. Muitas vezes, é o
momento em que posso olhar para minha ferida e dizer: está tudo bem. Todo mundo
tem as suas. E aqui, no Círculo, elas podem começar a ser curadas”, afirma
Elisa Cristina.
Mas, afinal, que atmosfera é essa produzida
pelos Círculos de Paz que faz as pessoas se conectarem e se sentirem seguras a
ponto de abrirem suas dores diante de outras pessoas?
Para Rauny Viana, instrutor do NUGJUR e responsável
pela formação de uma das turmas, o que acontece dentro do Círculo vai muito
além de uma metodologia, é um espaço de reconexão da humanidade que existe em
mim com a humanidade que habita o outro.
“As pessoas costumam brincar, perguntando que magia
é essa que envolve os círculos e desperta em nós a coragem de nos abrir ao
outro. Não há magia, há humanidade! Quando as pessoas se sentem seguras para
compartilhar, em igualdade, suas dores e necessidades, sem julgamentos, o Círculo
cria naturalmente uma psicosfera de confiança. É como se cada pensamento,
emoção e palavra dita ali formassem uma energia capaz de acolher o que o outro
traz. Quando há sinceridade na escuta e na fala, essa atmosfera coletiva se
aproxima de um efeito terapêutico. O silêncio deixa de ser distância e passa a
ser presença. Não se trata apenas de técnica ou condução, mas de um encontro
entre pessoas dispostas a escutar e a se deixar tocar. O Círculo é, antes de
tudo, um espaço de conexão, um lugar onde a cura começa a acontecer, mesmo
quando as palavras ainda estão sendo elaboradas”.
“Servidores da Paz” – Como parte da acolhida ao novo grupo de
facilitadores, o gestor de Projetos do NUGJUR, Wellington Corrêa, destacou a
importância de reconhecer o propósito individual dentro do Poder Judiciário e
de compreender que o cargo é apenas um meio, e não o fim, da missão de cada
servidor. O gestor provocou os participantes a refletirem sobre o legado que
desejam deixar e sobre a história que estão construindo diariamente em suas
trajetórias pessoais e profissionais.
Wellington também abordou o papel do Programa
“Servidores da Paz” como um espaço de humanização das relações de trabalho,
onde o diálogo, o respeito e a empatia devem ser cultivados para fortalecer o
ambiente institucional. Ele destacou que ser um servidor da paz é ir além da
função técnica, é exercitar a escuta ativa, o cuidado com o outro e o
comprometimento consigo mesmo, buscando o equilíbrio entre vida pessoal e
profissional.
“A Justiça Restaurativa convida cada pessoa a
restaurar não apenas o que está ao redor, mas principalmente o que existe
dentro de si. Nós não somos apenas cargos ou funções. Somos histórias em
construção. O que fazemos aqui precisa ter propósito, precisa deixar marcas de
respeito, empatia e colaboração. Ser um servidor da paz é olhar para além da
função e se comprometer com a humanidade que existe em nós e no outro. Cada
etapa da nossa vida é uma oportunidade que temos de narrar uma nova história.
Nós recebemos a história dos nossos antepassados, aquela que estamos escrevendo
agora e a que será contada sobre nós no futuro. Qual história será contada
sobre nós no futuro?”, provocou Wellington.
Durante a palestra, o gestor também destacou que a
ética no ambiente de trabalho começa nas pequenas atitudes: na forma como
ouvimos, falamos e nos relacionamos com os colegas. Reforçou que ser ético é
manter a neutralidade, respeitar o espaço do outro e agir com empatia, sem
julgamentos. Falou também sobre a importância da humildade para reconhecer que
todos estamos em processo de aprendizado e que o respeito mútuo deve estar
presente em cada gesto e palavra. Segundo ele, o compromisso ético vai além das
regras institucionais, envolve chegar no horário, cumprir responsabilidades,
cuidar das relações e ter consciência de que cada atitude influencia o clima ao
nosso redor.
Núcleo Gestor da Justiça Restaurativa – NugJur
imprensa@tjmt.jus.br











