Adoção e entrega voluntária: orientação do Judiciário rompe tabus e protege infâncias
Nos pontos mais remotos do interior mato-grossense, onde o
acesso à informação ainda é limitado e temas sensíveis circulam de forma
fragmentada, o Poder Judiciário de Mato Grosso tem levado orientação técnica e
acolhimento sobre um dos assuntos mais cercados de tabus: adoção e entrega
voluntária de crianças.
Durante a 7ª Expedição Araguaia-Xingu, na Agrovila de Jacaré
Valente em Confresa (1.027km de Cuiabá), em rodas de conversa conduzidas pela
Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja), vinculada à Corregedoria-Geral
da Justiça (CGJ), moradores e profissionais da rede de proteção recebem
explicações sobre como funciona a adoção legal e quais direitos cercam a mulher
que opta pela entrega voluntária do bebê. A iniciativa integra o projeto
“Adotar é Legal”, que atua com foco em prevenção e informação.
A psicóloga da Ceja, Aretusa Vanessa de Deus, apontou que o
primeiro desafio é desconstruir preconceitos. “Em comunidades afastadas, a
informação nem sempre chega. E quando a informação não chega, o julgamento
ocupa esse espaço”, afirmou. “Entrega voluntária não é abandono. É um direito
previsto em lei, com acolhimento e acompanhamento profissional”, completou.
A abordagem leva à população orientações sobre o caminho
legal para a adoção, destacando que a entrega do filho à Justiça, quando feita
de forma consciente, não configura crime. Pelo contrário, protege a mãe e
garante que a criança seja encaminhada para uma família habilitada, evitando
adoções informais.
Proteção de direitos
– Em muitos municípios de menor porte, situações como “passar a criança
para criar”, sem apoio jurídico ou registro formal, ainda são comuns. Embora
motivadas por boa intenção, essas práticas podem gerar consequências graves
como a ausência de registro civil, dificuldade de acesso a serviços públicos e
quebra de vínculos legais.
Segundo Aretusa, o papel do Judiciário é orientar antes que
o problema se torne um processo. “Quando falamos em adoção legal, não estamos
atendendo o desejo de um adulto em adotar. Estamos garantindo o direito da
criança a viver em uma família preparada”, explicou.
O papel dos conselheiros
tutelares – Os encontros também fortalecem a atuação de conselheiros tutelares,
que são os profissionais que atendem as demandas da comunidade uma vez que
lidam diariamente com situações de suspeita de abandono, pedidos de guarda e
dúvidas sobre adoção. A orientação técnica oferecida pela Ceja transforma a
atuação dessas equipes na ponta.
A conselheira tutelar Ruthimar Lopes de Carvalho Dantas,
formada em Geografia e atualmente em seu primeiro mandato no Conselho Tutelar
de Confresa, avaliou positivamente a iniciativa. “As famílias nos procuram com
dúvidas como: ‘posso adotar o filho de uma amiga?’ ou ‘se eu ajudei durante a
gravidez, posso ficar com a criança?’. Agora conseguimos orientar com base na
lei, e não em achismos”.
Já a conselheira tutelar Ângela Martins Borba, assistente
social com 15 anos de atuação no Conselho Tutelar de Confresa, enalteceu que a
capacitação muda a atuação na ponta. “Foi muito produtivo. As pessoas têm
conhecimento, mas não sabem expressar. Aqui pudemos tirar dúvidas com segurança
e sem medo”.
Para o Judiciário de Mato Grosso, levar esse conteúdo até as comunidades mais distantes significa impedir que mães sejam julgadas, que crianças desapareçam em arranjos informais e que famílias ajam sem respaldo legal por falta de conhecimento. “O Judiciário não está esperando o problema chegar ao processo. Está chegando antes, com diálogo e orientação”, resumiu Aretusa.
Talita Ormond / Foto: Alair Ribeiro
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
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