Círculo de Paz fortalece vínculos e aproxima Judiciário da comunidade escolar em Jacaré Valente
A sala de aula da Escola Municipal Jacaré Valente, em Confresa (1.027km
de Cuiabá), transformou-se em um espaço de diálogo e acolhimento durante a
segunda etapa da 7ª Expedição Araguaia-Xingu. Como parte das ações da Justiça
Restaurativa, o Poder Judiciário de Mato Grosso realizou o Círculo de
Construção de Paz, metodologia que incentiva a escuta ativa, o respeito e a
corresponsabilidade na resolução de conflitos.
A atividade faz parte de uma ação do Judiciário, que tem o objetivo de
se aproximar da comunidade e prevenir conflitos antes que eles cheguem aos
processos judiciais.
Autocuidado
e escuta - O primeiro círculo foi destinado aos professores,
técnicos e servidores da Escola Municipal Jacaré Valente. O facilitador Áquila
Júnior Lopes Machado, do Núcleo de Justiça Restaurativa, explicou que o foco
não foi falar sobre a vida alheia, mas olhar para si. “O círculo de hoje foi
voltado para o autocuidado. Ali é um espaço de análise pessoal: ‘o que eu estou
fazendo para cuidar de mim?’ Percebemos que muitas vezes fazemos mais pelo
outro do que por nós mesmos. Aqui, a gente para e entende que também precisa
desse cuidado”.
Para Áquila, o objetivo é capacitar a própria comunidade escolar para
aplicar círculos dentro das salas de aula. “Quando os profissionais vivenciam a
roda, entendem que ela pode evitar conflitos futuros. É um trabalho silencioso,
não mensurável em números, mas transformador”.
Durante o encontro, os participantes foram convidados a lembrar que
ouvir é tão importante quanto falar. “A gente mais escuta do que fala. Às vezes
queremos interromper a história do outro para dizer ‘eu também sinto isso’, mas
aprendemos a respeitar a fala e o tempo de cada um. Só isso já é aprendizado de
convivência”.
A coordenadora da escola, Jaqueline Rodrigues Bernardo, conta que se
surpreendeu com a dinâmica. “Eu pensei que seria mais uma palestra em que
alguém fala sobre emoção e nós só ouvimos. Mas nesse círculo nós construímos o
espaço juntos. Saí leve. Nunca imaginei o Judiciário promovendo esse tipo de
ação”.
Fortalecimento
emocional - A técnica de desenvolvimento infantil Maria Célia
Ferreira de Souza Reis, 40 anos, atua com uma criança atípica na escola. Para
ela, a oportunidade de olhar para as próprias emoções foi fundamental. “A gente
costuma analisar muito o outro e pouco a nós mesmos. No círculo, entendi que
preciso estar bem para enxergar o outro. Percebi áreas da minha vida em que
ainda preciso mudar e melhorar”.
Ela destaca que o trabalho com crianças exige preparo emocional. “É
desafiador. Estou aprendendo todos os dias. Quando reconhecemos que não sabemos
tudo, abrimos espaço para crescer”.
Judiciário
que acolhe –
Além dos profissionais, crianças e
adolescentes também foram contemplados com essa ação. Durante os círculos, elas
falam sobre sentimentos e sobre como convivem com os colegas. Para elas, as
brincadeiras e a possibilidade de se expressar tornam o momento especial. Segundo,
os adolescentes do 9º ano da Escola Estadual Antônio Alves Dias, foi um espaço
de desabafo e reconhecimento. “O círculo ajuda a gente a conversar e desabafar.
Às vezes a gente só precisa ser ouvida”, disse Eduarda Santana Cardoso, 15
anos. “É um momento para falar sem medo de julgamento”, completou Helen
Caroline Gonçalves da Silva, também de 15 anos.
Os pequenos também participaram. Laisla Cristina Pinheiro Evaristo, 10
anos, resumiu. “A gente falou da nossa vida e de como estava se sentindo.
Depois brincamos e dançamos. Foi muito legal”. A irmã mais nova, Laís, de 6
anos, participou com desenvoltura. “Brinquei e pintei. Gostei de tudo”.
Mãe das meninas, a moradora Carla Cristina Pereira Evaristo, avaliou a
experiência. “Quando se fala em Judiciário, as pessoas pensam em briga e fórum.
Aqui foi diferente. Eles sentam com a gente, conversam, escutam. Isso
aproxima”. Carla vive em uma fazenda a 48 km de Confresa e aproveitou a
expedição para resolver pendências. “Hoje fiz identidade, passei no dentista,
fiz exame de vista, arrumei meu título e biometria. Foi serviço completo para
mim e para as meninas”.
Justiça
Restaurativa - O Círculo de Construção de Paz é um dos produtos
permanentes da política de Justiça Restaurativa do Judiciário mato-grossense.
Na Expedição Araguaia-Xingu, ele integra um pacote de serviços que incluem
emissão de documentos, atendimentos de saúde, orientação previdenciária e ações
sociais realizadas com dezenas de instituições parceiras.
A presença do círculo em uma comunidade rural reforça o propósito da Expedição que é levar cidadania e dignidade até onde o acesso é limitado. Ao final, fica a percepção de um Judiciário mais humano, presente e transformador. A utilização dos Círculos de Construção de Paz é uma política permanente do Judiciário e tem sido expandida para escolas, unidades socioeducativas e comunidades rurais. “O círculo transforma o ambiente porque nos ensina a ouvir. Quando aprendemos a escutar, evitamos conflitos”, finalizou.
Talita Ormond / Foto: Alair Ribeiro
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
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