Tribunal de Justiça de MT sedia II Encontro das Redes de Enfrentamento à Violência Doméstica
O Tribunal de Justiça de Mato Grosso
(TJMT) realizou na manhã desta quarta-feira (10) a abertura do II Encontro das
Redes de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher, no
Plenário 1, Desembargador Wandyr Clait Duarte, no Palácio da Justiça, em
Cuiabá. O evento segue até amanhã (11) e reúne representantes de redes
municipais, órgãos do sistema de justiça, forças de segurança, gestores
públicos, educadores e entidades da sociedade civil, com foco no fortalecimento
de políticas integradas de proteção às mulheres.

A iniciativa é da Coordenadoria
Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cemulher-MT),
coordenada pela desembargadora Maria Erotides Kneip, e contou na programação
com a premiação do Concurso Cultural “A Escola Ensina, a Mulher Agradece.
Aprender a respeitar transforma a sociedade”, que envolveu estudantes das redes
estadual e municipal de ensino.
Em 2025, até o momento, já foram implantadas 96 redes. A previsão é que em breve alcance a marca histórica de 100 redes de enfrentamento implantadas em Mato Grosso, consolidando uma estrutura articulada de acolhimento, prevenção e enfrentamento à violência contra a mulher em todo o estado.

Na abertura, a desembargadora Maria
Erotides Kneip ressaltou que o avanço na instalação das redes municipais é
resultado de um esforço contínuo de articulação interinstitucional. “Nós
tentamos fazer os municípios entenderem a importância de se articularem em
rede. Quando as instituições responsáveis pela proteção dos direitos da mulher
trabalham juntas, em sintonia, nós alcançamos muito mais eficiência na
proteção”, afirmou.
A magistrada explicou que o encontro
tem o objetivo de reunir as redes já constituídas para reavaliar fluxos de
atendimento, acolhimento, prevenção, segurança das mulheres em risco, atenção
aos filhos das vítimas de violência e grupos reflexivos para agressores, buscando
padronizar e qualificar práticas.
“Precisamos reunir as redes para
garantir um padrão de qualidade no atendimento e, assim melhorar cada vez mais
a proteção dos direitos da mulher”, destacou, ao lembrar que a meta de chegar a
100 redes até o final do ano é parte de um legado institucional de Mato Grosso
no enfrentamento à violência de gênero.
O presidente do TJMT, desembargador
José Zuquim Nogueira, reforçou que o enfrentamento à violência doméstica passa,
necessariamente, por uma mudança cultural e pela atuação ativa do Poder
Judiciário junto à sociedade. “Pude compreender, ao longo da minha trajetória,
que o fator principal do que estamos discutindo hoje é um problema cultural, o
chamado machismo. Para mudar esse paradigma, precisamos dar as mãos. Toda a
sociedade precisa acreditar que é possível viver em paz e em harmonia,
valorizando a mulher, o homem e, principalmente as crianças, que serão nós
amanhã”, afirmou.
O presidente destacou ainda que o
Judiciário mato-grossense tem buscado ir além da atuação estritamente
processual, participando da formulação e da implementação de políticas
públicas. “Só com trabalho árduo, com uma nova postura institucional e com
ações sociais concretas conseguiremos responder às demandas da sociedade. Este
encontro é um exemplo de como o Poder Judiciário pode ser protagonista na
defesa da vida das mulheres”, concluiu.
O governador de Mato Grosso, Mauro
Mendes, sublinhou em seu discurso que o enfrentamento à violência contra a
mulher exige diagnóstico realista, coragem política e ações concretas e
integradas entre os poderes. Ele lembrou que o Brasil convive há décadas com
uma sensação de impunidade em relação a diversos tipos de crimes, o que
retroalimenta a violência, inclusive no âmbito doméstico.
“Ao longo de muitos anos, negligenciamos
o combate à violência. Criou-se na sociedade brasileira uma sensação de
impunidade, a ideia de que não haverá consequência. Isso é muito maléfico e
incentiva a prática de crimes, inclusive o feminicídio”, afirmou.
Ao citar os dados estaduais, o
governador ressaltou a importância de ampliar canais de denúncia e mecanismos
de proteção. “Só este ano, mais de 16 mil mulheres procuraram o sistema de
proteção em Mato Grosso. Tivemos 51 casos com desfecho fatal, mas a imensa
maioria das mulheres atendidas teve sua vida protegida. Estamos ampliando a
Patrulha Maria da Penha e fortalecendo as delegacias e toda a rede de proteção.
Não vamos esconder números. Se queremos resolver o problema, temos que falar
sobre ele e agir com seriedade”, disse.
Mauro Mendes reiterou que o Governo do
Estado está aberto a implementar todas as ideias razoáveis, factíveis e
eficientes que contribuam para reduzir a violência. “Faremos tudo o que for
necessário, inclusive o que pareça impossível, para proteger nossas mulheres e nossas
crianças. A parceria com o Tribunal de Justiça e com as redes municipais é
essencial para tirar Mato Grosso dessa realidade que nos envergonha”, comentou.
O secretário de Estado de Educação,
Alan Porto, ressaltou o papel da escola na formação de uma cultura de respeito
e não violência, fomentada pela parceria entre o Tribunal de Justiça,
Secretaria de Estado de Educação e municípios em ações que vão além de campanhas
específicas e pontuais.
“Enquanto educador, eu vejo que a
educação pode contribuir muito nessa pauta. Ensinar nossas crianças e nossos
jovens a identificar as diversas formas de violência e, mais do que isso, a
combatê-las, é fundamental. Não podemos tratar de violência doméstica apenas no
‘Agosto Lilás’. Nossa meta é que o tema esteja presente nos 200 dias letivos,
de forma interdisciplinar. A escola precisa ser um espaço permanente de
prevenção”, destacou.
Importância
estratégica das redes
Na programação do Encontro serão
debatidos temas importantes para a integração dos órgãos públicos, entidades
parceiras e sociedade civil com o objetivo de fortalecer políticas de proteção
e garantia de direitos das mulheres. Participam do evento os poderes Judiciário,
Executivo e Legislativo, e também o Ministério Público, Defensoria Pública,
forças de segurança, secretarias de Educação, de Assistência Social e sociedade
civil.
A juíza Ana Graziela Vaz de Campos
Alves Corrêa, titular da 1ª Vara Especializada de Violência Doméstica de
Cuiabá, destacou que o trabalho em rede é decisivo para salvar vidas. “Sozinhos
não conseguimos enfrentar a complexidade da violência doméstica. Quando
Justiça, segurança pública, assistência social, saúde e educação atuam de forma
integrada, o atendimento à mulher se torna mais rápido, mais humano e mais
eficiente. Começamos 2025 com 36 redes e fecharemos o ano com 100, o que
significa proteção estruturada em praticamente todo o estado”, ressaltou.
A magistrada reforçou ainda que a
prevenção deve caminhar junto com a repressão. “Precisamos trabalhar desde os
bancos escolares, ensinar respeito e divulgar amplamente os canais de denúncia.
Onde há rede forte, os índices de feminicídio caem. Nosso compromisso é
fortalecer essas estruturas para garantir que nenhuma mulher fique sem apoio”.
A ampliação de redes municipais
fortalece o atendimento integrado às mulheres em situação de violência, com
fluxos de acolhimento mais claros, articulação entre serviços, oferta de grupos
reflexivos para agressores, ações educativas nas escolas e campanhas de
divulgação da Lei Maria da Penha e dos canais de denúncia, como o 190
(emergência) e o 180 (denúncia anônima).
A abertura do II Encontro das Redes de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher contou ainda com a presença da desembargadora aposentada do TJMT, Maria Aparecida Ribeiro; a juíza auxiliar da Presidência do TJMT, Gabriela Knaul; a juíza auxiliar da CGJ-MT, Anna Paula Gomes de Freitas; o juiz auxiliar da Vice-Presidência, Gerardo Humebrto; do presidente da Associação Mato-grossense dos Municípios (AMM), Leonardo Tadeu Bortolin; do presidente da Assembleia Legislativa, deputado Max Russi; deputado estadual Carlos Avalone; vereadora de Cuiabá Michelly Alencar; presidente da Associação Mato-grossense de Magistrados, Eulice Jaqueline da Costa Silva Cherulli; promotora de justiça Regilaine Magali Bernard Crepaldi, representando o Ministério Público Estadual; coordenadora do Núcleo de Defesa da Mulher, defensora pública Rosana Leite Antunes de Barros; a secretária da Mulher de Cuiabá, coronel Hadassah Suzannah; magistrados e magistradas das varas de violência doméstica, representantes de redes municipais de enfrentamento de diversos municípios, gestores públicos, profissionais da educação, integrantes da rede de assistência social, forças de segurança e representantes de entidades da sociedade civil.
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Ana Assumpção / Foto: Lucas Figueiredo
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