Mutirão PopRuaJud de Rondonópolis transforma vidas e reafirma compromisso com a dignidade humana
Um espaço de
esperança, acolhimento e recomeços. Mais de 1,2 mil atendimentos foram
realizados no 1º Mutirão PopRuaJud/MT de Rondonópolis (212 km de Cuiabá), ação
coordenada pelo Poder Judiciário de Mato Grosso em parceria com a Defensoria
Pública e dezenas de instituições públicas e privadas. A iniciativa, realizada
nesta quinta-feira (15 de maio), no Ganha Tempo, região central da cidade,
marcou profundamente não apenas as pessoas em situação de rua e vulnerabilidade
atendidas, mas também os operadores do Direito, servidores, parceiros e
voluntários envolvidos, que vivenciaram um novo sentido para o que é promover
Justiça.
Para o
desembargador Mário Roberto Kono de Oliveira, que atua como presidente do
Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos (Nupemec),
coordenador do Comitê Multinível, Multissetorial e Interinstitucional para a
Promoção de Políticas Públicas de Atenção às Pessoas em Situação de Rua
(CMMIRua-PJMT) e membro do Comitê Nacional PopRuaJud, a ação foi um divisor de
águas. “Isso prova que não atuamos isoladamente na forma de fazermos Justiça.
Somos parte de um Sistema de Justiça, que deve servir e ser social. A dignidade
não pode mais ser negada a ninguém. Hoje, vimos a transformação de verdade
acontecer diante dos nossos olhos”, afirmou. “Foi uma iniciativa fundamentada
no que preceitua a Constituição. Justiça social se faz com presença, com
escuta, com humanidade. E todos deram seu melhor e eu sou muito grato por
isso”, complementou.
Dentre os
atendimentos, quase 500 foram voltados à saúde, um número expressivo que
evidencia o quanto essa população precisa de atenção integral. “Nós
diagnosticamos três pessoas com câncer. Pessoas que não sabiam da doença, que
talvez não tivessem a chance de descobrir a tempo se não fosse o mutirão”,
contou a defensora pública da Comarca de Rondonópolis, Jacqueline Gevizier
Rodrigues, uma das responsáveis pela mobilização. “Isso mostra que não é apenas
sobre prestar serviços. É sobre salvar vidas”.
Além dos
atendimentos jurídicos e de saúde, foram realizados serviços como emissão de
documentos, vacinação, odontologia, corte de cabelo, doações de roupas,
massagem, banho solidário, oficinas culturais e inclusão em programas sociais.
Tudo construído por meio da dedicação coletiva, como relatou a superintendente
de Gestão do Ganha Tempo, Talita Peske. “A gente viu o resultado nos olhos das
pessoas. Saíram felizes, acolhidas, valorizadas. Foi emocionante”.
E vidas
foram, de fato, impactadas. Como a de Jozi Caroline Dorileo, de 32 anos, mulher
trans que vive nas ruas há quase um ano. “Perdi tudo depois que pedi demissão e
não recebi meus direitos. Mas hoje me deram a certeza de que vão me ajudar.
Tomei banho, recebi roupas, documentos, orientação jurídica. Foi muito mais do
que esperava. Agora quero voltar a trabalhar e sair dessa situação”, revelou.
Nascida José Henrique, o documento com o nome social, inclusive, foi retirado
durante essa edição, mudança solicitada há cinco anos que ela nem mesmo sabia
que já estava disponível.
Dona Gerusa
Bezerra de Moraes, de 61 anos, também enxergou a possibilidade de recomeçar
após buscar abrigo nas ruas em razão de perder todos pertencentes ao ter sua
casa incendiada pelo ex-marido. “Meu sonho é ter uma casinha para morar e ir
para igreja. Estou separada, quero tirar meus documentos e trabalhar. Tenho fé
que vai dar certo”, disse.
Enquanto
isso, Seo Osvaldo Rodrigues Rocha, de 67 anos, com um histórico de trabalho na
zona rural e enfrentando atualmente problemas de saúde, buscou no mutirão
atendimento médico, oftalmológico e auxílio para regularizar sua documentação.
“Eu tenho problema na vista, no ouvido e nos joelhos, e hoje vim buscar
atendimento porque está tudo muito ruim. Também estou com a unha soltando do
dedo, é difícil lidar com isso sozinho” relatou. Embora atualmente more em uma
quitinete, Osvaldo é assistido pelo Centro Pop e, por isso, ainda é considerado
em situação de vulnerabilidade social. Sem condições de cozinhar ou se manter
plenamente de forma independente, ele depende de doações e da solidariedade de
entidades filantrópicas. “Gostei muito do atendimento hoje. Vim cedo, fui
acolhido. Estou sendo muito bem tratado”.
As ações
também ecoaram a quem atua no Judiciário. “Eu me sinto transformada. Isso me
faz ser uma juíza melhor. Vi defensores buscando as pessoas, vi audiências
acontecendo ali mesmo, ao lado de atendimentos médicos. Isso rompe distâncias.
Isso nos humaniza”, revelou a diretora do Fórum de Rondonópolis, juíza Aline
Luciana Ribeiro Viana Quinto Bissoni.
Para o
coordenador do Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejusc)
de Rondonópolis, juiz Wanderlei José dos Reis, o mutirão é a comprovação de que
o Judiciário não é mais um poder distante e hermético. “Durante muito tempo, o
Judiciário foi acusado de ser fechado, enclausurado. Mas o que vimos hoje é a
prova de que esse tempo está ficando para trás. Nós saímos dos nossos
gabinetes, interagimos com a sociedade, fizemos a diferença. Esse é o novo
papel do Judiciário. É isso que se espera de nós. A sensação hoje é de dever cumprido”.
Já o juiz
federal José Joaquim de Oliveira Ramos destacou o valor simbólico da
mobilização, fazendo relação da atuação das instituições ao gesto bíblico dos
reis magos, que seguiram uma estrela para oferecer presentes ao menino Jesus,
num estábulo. “Seguimos a estrela levando o que tínhamos e saímos mais
enriquecidos que chegamos, fortalecidos para seguir nossa missão de promover
cidadania e resgatar dignidades esquecidas”.
Célia,
Antônio, Mizael, José, Gerusa, Jozi. Nomes, histórias, rostos. Pessoas.
Invisibilizadas pela sociedade, mas que foram protagonistas nesta quinta (15).
Além de números, o mutirão revelou histórias. Histórias de resgate, de
humanidade e de um Judiciário que atua próximo das pessoas. O desembargador
Mário Roberto Kono de Oliveira, que é membro do Comitê Nacional PopRuaJud,
anunciou ainda que os resultados da edição serão levados à instância nacional.
“Levaremos essa experiência à Comissão Nacional do PopRuaJud, no Conselho
Nacional de Justiça. Acredito que, em termos de organização, alcance e impacto,
o que realizamos aqui ainda não havia sido alcançado em nenhuma outra edição no
país”, afirmou. “O que vimos hoje foi um exemplo concreto de transformação
social e precisa ser compartilhado para inspirar outras regiões”.
Serviços oferecidos
– O Mutirão PopRuaJud ofereceu uma ampla rede de serviços voltados para
garantir cidadania e dignidade à população em situação de rua. Durante a ação,
foram realizados atendimentos jurídicos nas esferas estadual e federal, emissão
e segunda via de documentos, consulta a benefícios sociais como FGTS, além de
atendimentos médicos vinculados ao INSS e serviços gerais de saúde. Também
foram oferecidos cadastro no cartão SUS, atendimento ao migrante, inscrição no
CAD Único, alistamento e regularização do serviço militar, bem como perícia
médica, avaliação odontológica e oftalmológica, atendimento psicológico e
social, testes rápidos, imunização e vacinação. Além disso, a iniciativa
proporcionou ações de cuidado e bem-estar, como corte de cabelo, banho solidário,
distribuição de kits odontológicos e de higiene, de refeições e doação de
roupas. Tudo em um só local, com acolhimento humanizado e foco na reintegração
social.
Parceiros -
O Mutirão PopRuaJud de Rondonópolis contou com o apoio de mais de 30 instituições
e entidades. Estiveram com o Poder Judiciário de Mato Grosso instituições como
a Defensoria Pública do Estado, Justiça Federal, Ministério Público Estadual,
Ministério Público Federal, Governo do Estado de Mato Grosso, Prefeitura de
Rondonópolis, Polícia Militar, Exército Brasileiro, Tribunal Regional
Eleitoral, Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), Ordem dos Advogados do
Brasil (OAB-MT), universidades públicas e privadas, instituições religiosas,
empresas da iniciativa privada, organizações da sociedade civil, profissionais
da saúde, assistência social, direitos humanos, além de voluntários(as).
CNJ - A ação
é uma iniciativa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e está fundamentada na
Resolução nº 425 de 2021, que institui a Política Nacional Judicial de Atenção
a Pessoas em Situação de Rua e suas Interseccionalidades. Essa política
estabelece diretrizes para que o Poder Judiciário atue de forma integrada e
humanizada, promovendo o acesso à Justiça e aos direitos fundamentais de uma
população historicamente invisibilizada.
Documentação
e dignidade – Entre as atividades promovidas no 1º Mutirão PopRuaJudMT de
Rondonópolis, também foi realizada, no mesmo local, a 3ª Semana Nacional do
Registro Civil – “Registre-se!”, promovida pela Corregedoria-Geral da Justiça
de Mato Grosso (CGJ-MT). A ação tem como principal objetivo combater o
sub-registro civil e assegurar que todas as pessoas, especialmente as mais
vulneráveis, tenham acesso gratuito à documentação para o exercício pleno da
cidadania. Somente nessa quinta (15), foram 82 atendimentos foram realizados,
entre eles a dezenas de idosos de lares
da cidade. “Fiquei impressionada com a estrutura, o atendimento, a presteza de
todos. Foi uma edição emocionante”, disse a juíza auxiliar da Corregedoria,
Myrian Pavan Schenkel.
Em Mato Grosso, a campanha acontece até hoje (16 de maio), oferecendo serviços gratuitos como emissão de certidão de nascimento, carteira de identidade (RG e CIN), CPF, título de eleitor e regularização de registros civis. O público inclui pessoas em situação de rua, população trans, indígenas, egressos do sistema prisional e qualquer cidadão que necessite desses documentos para garantir seus direitos civis e acessar políticas públicas.
Confira aqui as imagens: https://www.flickr.com/photos/tjmtoficial_/albums/72177720326173908/
Talita Ormond / Foto: Josi Dias
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
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