Rondonópolis recebe campanha “Eu Digo Basta!” com palestra, escuta ativa e acolhimento
Dezenas de pessoas participaram,
nesta quarta-feira (18 de junho), da palestra da campanha “Eu Digo Basta! –
Poder Judiciário contra a Violência Doméstica e Familiar” no auditório do
Tribunal do Júri do Fórum Desembargador Willian Drosghic, em Rondonópolis (212
km de Cuiabá). A ação faz parte do processo de interiorização do Núcleo de
Atendimento – Espaço Thays Machado voltado ao acolhimento de magistradas,
servidoras, colaboradoras, credenciadas, terceirizadas, estagiárias e
aposentadas que atuam no Judiciário mato-grossense e são vítimas de violência
doméstica e familiar.
A campanha integra o Plano de
Gestão 2025-2026 e é promovida pela Coordenadoria Estadual da Mulher em
Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cemulher-MT), sob coordenação da
desembargadora Maria Erotides Kneip, e pelo Núcleo, sob condução da juíza
colaboradora Tatyana Lopes de Araújo Borges, da 2ª Vara de Violência Doméstica
de Cuiabá.
A magistrada destacou a
importância da presença física da equipe do Núcleo nas comarcas do interior.
“Tanto na vinda a Rondonópolis quanto nas visitas à Jaciara e Juscimeira, vimos
o quanto foi importante esse contato pessoal. Muitos não sabiam da existência
do Núcleo, mesmo com e-mails e comunicados. Olhar nos olhos, explicar, ouvir,
isso gera segurança. Alguns relataram: ‘Eu não sabia que isso era uma
violência’. E a partir disso, passaram a reconhecer e buscar ajuda. E vamos
seguir trilhando esse caminho de formar multiplicadores”, relatou.
A programação teve início com uma
roda de conversa, aberta pela juíza Maria Mazarelo Farias Pinto, titular da
Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar da Comarca de
Rondonópolis, representando a CeMulher-MT. Ela reforçou o papel transformador
da campanha. “Antes de cuidarmos do outro, precisamos cuidar de nós. Esse olhar
interno é fundamental. Temos que cuidar da mulher magistrada, da servidora, da
colaboradora. É preciso romper o silêncio dentro de casa para, então, cuidar do
lado de fora. A presença da equipe e a roda de conversa ajudam a quebrar
estigmas. Mas sabemos que ainda há barreiras, principalmente pela cultura de
silêncio nos ambientes institucionais”.
A magistrada também relembrou a
trajetória da servidora Thays Machado, que dá nome ao Núcleo, e foi vítima de
feminicídio em 2021. “É simbólico que o nome da Thays, que teve sua vida
brutalmente interrompida, hoje represente um espaço de acolhimento e vida para
tantas outras mulheres. Ela é a continuidade da luta. Não vamos mais
silenciar”.
Já o promotor de Justiça Marcelo
Domingos Mansour, representando o Ministério Púbico Estadual (MPE),
compartilhou sua experiência. “Durante os anos em que atuei aqui no Tribunal do
Júri, realizamos dezenas de júris de feminicídios. Em cada processo, uma vida
ceifada. E isso sem contar os casos que não chegam às autoridades, a chamada
cifra oculta. A estrutura do Estado precisa avançar, mas também precisamos
punir com rigor. A impunidade incentiva o agressor. Quem agride mulher só
respeita uma coisa: a perda da liberdade”, apontou.
Ele também defendeu medidas mais
rigorosas contra os agressores. “Quem agride mulher não teme sermão, só teme
perder a liberdade. Precisamos ser firmes. A impunidade fortalece o agressor e
enfraquece a vítima”.
A defensora pública Jaqueline
Gevizier Rodrigues Ciscato, coordenadora do Núcleo Cível da Comarca de
Rondonópolis, ressaltou a importância da atuação humanizada do sistema de
Justiça e parabenizou o Judiciário pela proposta da campanha. “Tenho percebido
uma mudança significativa na postura do Poder Judiciário que está deixando de
ser apenas emissor de decisões para se tornar agente ativo na transformação
social. A campanha ‘Eu Digo Basta!’ é um exemplo concreto dessa virada de
chave. Não basta apenas sentenciar, é preciso ouvir, acolher, atuar com
empatia”, afirmou.
Ela também trouxe um olhar
sensível sobre a complexidade da violência de gênero, destacando que o problema
é estrutural e exige ações conjuntas. “Como mulher e mãe de um jovem de 21
anos, sei que a transformação começa em casa. Mas há uma carga cultural tão
arraigada que desafia até a melhor educação. Por isso, parcerias como essa,
entre Judiciário, Defensoria e Ministério Público, são fundamentais para
quebrarmos o ciclo de normalização da violência contra a mulher,
independentemente da classe social ou da função ocupada”, concluiu.
Também durante a roda, a juíza
diretora do Fórum de Rondonópolis, Aline Luciane Ribeiro Viana Quinto Bissoni,
reforçou que “a violência doméstica não escolhe classe, função ou lugar. Está
em toda parte. As campanhas e ações institucionais como essa não apenas
informam, mas criam multiplicadores e conscientizam para que o ciclo da
violência seja rompido com seriedade”.
Ela ainda enalteceu a importância
de levar ações de conscientização e enfrentamento à violência doméstica para
além da capital. “A interiorização dessa campanha é muito relevante. Ao sair de
Cuiabá e chegar às comarcas do interior, o Poder Judiciário reforça seu papel
social e cria oportunidades para que denúncias sejam feitas, para que os
agressores sejam responsabilizados e, principalmente, para que se quebre esse
ciclo histórico de violência”, afirmou.
O simbolismo e a sensibilidade do
Poder Judiciário ao criar um espaço exclusivo para acolher magistradas e
servidoras foram evidenciados. “Quando visitei o TJMT e vi a sala que leva o
nome da Thays Machado, me emocionei. Institucionalizar esse tipo de serviço é
reconhecer que a violência doméstica, infelizmente, também pode atingir quem
está dentro da Justiça. E é justamente por isso que o acolhimento precisa
começar por dentro. Essa campanha planta sementes em cada comarca”.
Palestra – Além da roda de
conversa, a programação em Rondonópolis contou com uma palestra conduzida pela
juíza colaboradora do Núcleo. Na oportunidade, a magistrada falou sobre a Lei
Maria da Penha, explicando seu surgimento, os cinco tipos de violência
previstos (física, psicológica, sexual, moral e patrimonial), a importância das
medidas protetivas e os impactos do Pacote Antifeminicídio. Também chamou
atenção para dados alarmantes. “O Brasil ocupa o quinto lugar no ranking
mundial de feminicídios. Mato Grosso, infelizmente, figura entre os Estados com
maiores índices. Precisamos, mais do que nunca, dar visibilidade e amparo a
quem sofre calada”.
A juíza apresentou ainda os
canais de atendimento do Núcleo e exibiu um vídeo institucional, produzido pela
Coordenadoria de Comunicação, que apresenta a estrutura física do espaço Thays
Machado, os atendimentos realizados e a rede de apoio disponível às mulheres do
Judiciário.
Para além da teoria, a escuta e o
contato direto com as servidoras tornaram o momento ainda mais simbólico.
“Durante as visitas às comarcas de Jaciara e Juscimeira, vimos que muitas
pessoas sequer sabiam que estavam em situação de violência. Ao explicarmos os
tipos previstos na lei, vimos olhos marejados, acenos silenciosos, gestos que
indicavam que aquele conteúdo tocava diretamente suas realidades. Esse ‘olho no
olho’ é essencial. Traz confiança, acolhimento e orientação”, relatou Tatyana.
Entre as autoridades presentes
estiveram os juízes de Direito Wagner Plaza e Wanderlei José dos Reis.
Vozes que ecoam - A campanha “Eu
Digo Basta!”, além de promover informação e acolhimento à Comarca de
Rondonópolis, também gerou reflexões entre os(as) participantes da palestra e
roda de conversa. As falas revelam o quanto o contato direto com o tema e a
presença da equipe do Núcleo Thays Machado proporcionaram conscientização,
empatia e mobilização. A aposentada Rosilda Batista dos Santos, auxiliar judiciária
aposentada, expressou o valor da ação. “Achei maravilhoso. Aprendi muita coisa.
Foi muito bom pra gente ficar atenta, não só pra gente mesma, mas também para
colegas que, de repente, estão passando por alguma coisa. A gente pode ajudar
ou orientar. Isso não tem preço”.
A contadora Niellen Moreira
Dourados afirmou ter saído tocada pela palestra. “Eu amei. Foi muito
esclarecedora. A gente vive numa bolha, achando que está tudo bem, mas não
percebe o que acontece ao redor. O que eu vi aqui me despertou para observar
mais as pessoas próximas e tentar ajudar. Informação como essa tem o poder de
transformar”.
Para o servidor Milton Pereira, o
evento mostrou-se uma ferramenta de prevenção. “É uma campanha muito válida,
especialmente no sentido de conscientizar os homens sobre o tratamento com as
mulheres. Ações assim ajudam a evitar situações de agressão. Isso tem que ser
amplamente discutido dentro das instituições”.
Já a estagiária Ana Carolina
Benvenuto ressaltou o papel da educação continuada e do diálogo para combater a
naturalização da violência. “Mesmo sendo um tema muito falado, ainda tem gente
que não tem acesso a esse tipo de conhecimento. Por isso é tão importante que
campanhas como essa aconteçam. Informação nunca é demais. E ouvir tudo isso
dentro do próprio Judiciário fortalece ainda mais a mensagem”, disse. “Não é só
a legislação que promove a pacificação social. Vai além dos gabinetes.
Precisamos tratar da violência velada, como a psicológica, que atinge tantas
mulheres. E o Judiciário vir até aqui, com sua equipe técnica, aproxima,
humaniza e conscientiza. Isso precisa continuar e se multiplicar”, completou a
técnica judiciária e instrutora de Círculos de Construção de Paz, Maria Eterna
Pereira Melo.
Sobre o Núcleo Thays Machado - O
Núcleo presta atendimento psicológico, jurídico e institucional, sempre com
sigilo e acolhimento, a magistradas, servidoras efetivas e comissionadas,
estagiárias, terceirizadas, credenciadas e aposentadas que estejam enfrentando
situações de violência doméstica e familiar.
📞 Canais de atendimento
do Núcleo Thays Machado – TJMT
Telefone: (65) 3617-3038
WhatsApp: (65) 99267-6382
E-mail:
nucleo.atendimento@tjmt.jus.br
Presencial: TJMT – sede em Cuiabá, das 8h às 12h
Leia também:
“Eu Digo Basta!” chega a Juscimeira com diálogo aberto sobre violência e rede de apoio institucional
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Assista ao vídeo sobre a ação nas comarcas de Jaciara, Juscimeira e Rondonópolis
Talita Ormond / Foto: Alair Ribeiro
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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