Capacitação do TJMT aposta na Justiça Restaurativa para fortalecer respostas jurisdicionais
Com o objetivo de integrar os princípios e práticas
da Justiça Restaurativa à rotina das unidades judiciárias, o Tribunal de
Justiça de Mato Grosso (TJMT) iniciou nesta segunda-feira (07 de julho) o curso
“Práticas Restaurativas à Jurisdição: ferramentas de gestão e resposta
qualificada”. A capacitação é voltada para magistradas e magistrados da Justiça
estadual e ocorre até o dia 09, na Escola Superior da Magistratura de Mato
Grosso (Esmagis-MT), em Cuiabá.
O juiz Decildo
Ferreira Lopes, responsável pela condução do curso, destacou a
importância da formação para ampliar o repertório dos magistrados na resolução
de conflitos, sem substituir o modelo tradicional, mas complementando-o com uma
abordagem mais sensível e colaborativa.
“O curso é de extrema importância para que os
magistrados, que lidam diariamente com conflitos e têm como função entregar uma
resposta jurisdicional que vá ao encontro das necessidades dos jurisdicionados,
possam agregar novas e melhores ferramentas à sua atuação. Não se trata de
substituir métodos anteriores, mas de somar competências que permitam um olhar
mais amplo e humanizado sobre os conflitos. A Justiça Restaurativa cria
possibilidades para que a situação seja resolvida de forma colaborativa,
ouvindo quem sofreu o dano e compreendendo o impacto real do conflito. Isso
permite decisões mais sensíveis e, ainda que o Judiciário não tenha competência
direta sobre certas necessidades, pode promover encaminhamentos adequados,
fortalecendo uma rede de cuidado ao cidadão”.
Na sequência, o magistrado compartilhou sua
percepção sobre os limites das decisões judiciais convencionais e a capacidade
da Justiça Restaurativa de acessar dimensões subjetivas do conflito, promovendo
soluções mais efetivas e humanas.
“Muitas vezes, vemos decisões judiciais bem
construídas e fundamentadas, que solucionam parte do problema jurídico, mas o
conflito social entre as partes persiste. A Justiça Restaurativa abre espaço
para um entendimento mais profundo do que foi vivido, incluindo traumas e
repercussões familiares. Mesmo que não possamos atender diretamente a todas as
necessidades, podemos identificá-las e fazer os encaminhamentos certos. O mais
importante é que o magistrado passe a enxergar o que o jurisdicionado realmente
precisa e, a partir disso, se esforce para entregar algo que vá além do
processo: uma resposta que tenha significado para quem sofreu o impacto do
conflito”.
A juíza Débora
Caldas, da Comarca de Sinop, destacou a abrangência da Justiça
Restaurativa para além da esfera penal.
“Minha avaliação é muito positiva com essas
iniciativas do Tribunal de Justiça, que trazem uma nova perspectiva de entrega
da prestação jurisdicional. Na área penal, podemos repensar o processo com foco
nas vítimas, compreendendo suas necessidades para a superação do trauma. Na
esfera cível, a Justiça Restaurativa pode ser aplicada a casos como o
superendividamento. Já no campo institucional, pode auxiliar na escuta e
valorização de servidores que se sintam excluídos ou invisibilizados. É uma
justiça mais humanizada, que atende de fato às demandas atuais da sociedade”,
afirmou.
O juiz Tiago
Abreu, titular da 1ª Vara Especializada da Infância e Juventude de
Várzea Grande, também participa da capacitação e relatou uma experiência
prática com círculos restaurativos no contexto da entrega legal de bebês.
“A Vara da Infância e Juventude exige forte atuação
em rede. Recentemente, realizamos um círculo com profissionais da saúde para
capacitá-los no acolhimento de mães que desejam fazer a entrega legal. Foi uma
experiência inovadora e muito gratificante. As profissionais saíram motivadas e
conscientes do impacto que essa abordagem pode trazer para o dia a dia. O curso
que participamos agora é muito prático, com trocas de experiências reais entre
magistrados, e me proporciona ferramentas que já estou projetando utilizar na
minha atuação”, disse.
Já o juiz Anderson
Gomes Junqueira, da Comarca de Água Boa, enfatizou o valor da Justiça
Restaurativa como complemento ao modelo jurisdicional tradicional.
“Toda capacitação que apresenta novas
possibilidades de enfrentamento das demandas é muito bem-vinda. O modelo
tradicional tem se mostrado, em muitos casos, insuficiente para dar conta do
volume e da complexidade dos conflitos. A Justiça Restaurativa nos convida a
repensar o conceito de responsabilidade ativa, e mesmo atuando em uma
jurisdição cível, vejo sim a possibilidade de aplicar essas ferramentas, com
foco na pacificação social real. É uma mudança de olhar e de abordagem que pode
nos levar a respostas mais definitivas e eficazes”, observou.
O gestor de Cadastro de Facilitadores do NugJur, Rauny José da Silva Viana, reforçou o
compromisso da atual gestão com a capacitação continuada e especializada dos
magistrados.
“A proposta dessa formação, sob a coordenação da
desembargadora Clarice Claudino à frente do NugJur, foi justamente oferecer
mais uma especialização aos magistrados que atuam em unidades judiciárias com
práticas restaurativas, especialmente no Cejusc. O TJMT é reconhecido
nacionalmente por estar na vanguarda da Justiça Restaurativa, e agora avança
ainda mais ao fornecer novas ferramentas aos juízes que estão na ponta, para
que possam vislumbrar a transformação do processo judicial tradicional em uma
abordagem restaurativa e mais humanizada”, explicou Rauny.
A formação tem carga horária total de 20 horas-aula
e é coordenada pela desembargadora Clarice
Claudino da Silva, presidente do Núcleo Gestor da Justiça Restaurativa
(NugJur-TJMT), e pelo juiz Túlio
Duailibi Alves Souza, também coordenador do núcleo. A atividade é
promovida pela Esmagis-MT, em
parceria com a Escola Nacional de
Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados (Enfam) e o próprio NugJur.
Credenciado pela Enfam por meio da Portaria nº
180/2025, o curso busca promover uma formação crítica e aplicada, centrada na
efetividade social da jurisdição. A capacitação reconhece a Justiça
Restaurativa não apenas como inovação procedimental, mas como uma alternativa
legítima para o enfrentamento das falhas do modelo penal tradicional. A
proposta é contribuir para um sistema de justiça mais sensível às necessidades
de vítimas, ofensores e comunidades, ampliando os instrumentos disponíveis para
a resolução de conflitos.
A programação inclui conteúdos teóricos e práticos,
com abordagem sobre os fundamentos, princípios e instrumentos da Justiça
Restaurativa, aplicação de métodos como círculos de construção de paz e
estratégias de articulação institucional. O encerramento contará com oficinas
voltadas à elaboração de propostas individuais de ação restaurativa, alinhadas
à realidade de cada unidade judicial.
A capacitação reforça a atuação do TJMT na difusão
da Justiça Restaurativa como política pública, conforme previsto na Resolução
nº 225/2016 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e na Resolução nº 13/2017 do
próprio Tribunal, que criou o NugJur estadual. A iniciativa está alinhada às
diretrizes do Plano Estratégico do Poder Judiciário de Mato Grosso para os anos
de 2025-2026, com foco na pacificação social e na eficiência da prestação
jurisdicional.
Flávia Borges / Foto: Alair Ribeiro
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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