Círculo de Construção de Paz sobre Idadismo cria ambiente de escuta e acolhimento de pessoas idosas
“Sinto que, pela primeira
vez, fui ouvida.” O desabafo foi repetido por quase todos os 15 participantes
do ‘Círculo de Construção de Paz - Idadismo’ realizado na Academia da Saúde, em
Chapada dos Guimarães, nesta quinta-feira (17 de julho). O momento de escuta
permitiu que a população 60+ compartilhasse as dificuldades enfrentadas no dia
a dia, como a falta de respeito, de acolhimento e paciência. Ao mesmo tempo, o
encontro permitiu a integração de agentes da saúde e operadores do Direito.
A roda de conversa e escuta
foi promovida pelo Poder Judiciário de Mato Grosso (PJMT), por meio do Centro
Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejuscs) de Chapada dos
Guimarães. O encontro foi conduzido pelo juiz diretor do Foro, Leonisio Salles
de Abreu Junior, com a aplicação da metodologia da Justiça Restaurativa, que
promove a cultura de paz a partir do diálogo.
“A Justiça Restaurativa
cumpriu seu papel de agregar diálogo, escuta e pertencimento às pessoas
presentes. Nesta oportunidade, tivemos a chance de ouvir diretamente as
deficiências existentes no município, como nas áreas de comércio, saúde,
agências bancárias e outros serviços. Isso me possibilita, como juiz, dialogar
com o prefeito, com o terceiro setor e com a sociedade civil para buscar
melhorias e transformações reais para a população idosa”, destacou o magistrado
que atuou como facilitador do grupo.
Buscar soluções para a
inclusão concreta da população idosa no país é uma preocupação social,
respaldada por números estatísticos. Hoje, os idosos representam 15,8% da
população total, conforme o Censo 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE). Em 2050, a previsão é que essa população represente um
terço do total de brasileiros.
“Estamos vivendo o século do
envelhecimento. Em 2030, a população idosa vai se igualar à de crianças, e em
2050, a previsão é que uma em cada três pessoas no Brasil seja idosa. Por isso,
é urgente trabalhar com educação e informação, para que as pessoas conheçam
seus direitos e saibam como denunciá-los quando forem violados”, alertou
Leonisio Salles.
O envelhecimento iminente
acende o alerta para a elaboração de políticas públicas e cumprimento das já
existentes, como observou a advogada Natália Magalhães, representante da Ordem
dos Advogados do Brasil (OAB) em Chapada dos Guimarães.
“A partir dessa vivência,
surgiu a proposta de dar um pontapé inicial para que a subseção da OAB na
comarca crie uma comissão ou núcleo voltado especificamente à população idosa.
A ideia é que essa ação se consolide a partir de estudos, planejamento e
articulação com a sociedade civil, envolvendo também outras áreas como criança e
adolescente, mas com foco prioritário, neste momento, na pessoa idosa”,
destacou a advogada.
Escuta ativa
Ter um espaço para
acolhimento e escuta ativa permitiu que a aposentada Verionice Rosa dos Santos
compartilhasse uma de suas dores, sendo elas a falta de paciência e respeito.
“O que mais me tocou foi que consegui falar e, ao mesmo tempo, fui ouvida. Isso
é algo que nem sempre acontece na nossa vida, principalmente quando a gente é
mais velha. Foi importante demais poder expressar minhas palavras e saber que
tinha gente ali me escutando de verdade”, disse Verionice.
A também aposentada Eva
Faborete Borele Scalco agradeceu o espaço de escuta e reforçou a necessidade da
luta pela garantia dos direitos dos idosos. “Participar do Círculo foi muito
gratificante. Precisamos relatar aquilo que vivemos no nosso dia a dia, como a
sociedade nos trata, como somos vistos”, garantiu Eva, que hoje realiza
trabalhos com oficinas para idosos.
“Muitas vezes somos tratados
com desdém ou como se fôssemos invisíveis. O encontro de hoje foi importante
para fortalecer o nosso conhecimento, a nossa autoestima e a nossa consciência
de direitos. Acredito que o Estatuto do Idoso nos ampara e nós, enquanto
idosos, temos que lutar pelo nosso direito. Mas nem todos sabem como fazer
isso, ou sequer sabem que têm direitos garantidos por lei. Aqui, neste Círculo,
aprendemos mais sobre como nos defender e como buscar respeito e dignidade”,
defendeu.
Frequentador assíduo de
Círculos de Construção de Paz, Valdeir José de Oliveira, mais conhecido como
professor Brasil, contribui para a melhora da saúde e qualidade de vida de
crianças, adultos e idosos. Valdeir é arteterapeuta na Academia da Saúde. Sua
vivência no Círculo reforçou seu compromisso, pessoal e profissional, de
promover transformações por meio da arte.
“Além de ser facilitador,
participei também como alguém que se permitiu ser cuidado. Como também sou
idoso, me identifico com os desafios enfrentados por esse público. Participar
dessa roda foi um fortalecimento emocional para mim. Saio daqui fortalecido,
tanto para continuar doando quanto para me permitir receber”, reforça o
professor.
Compromisso
O Círculo de Construção de
Paz - Idadismo ocorreu no espaço dedicado ao cuidado e qualidade de vida da
população de Chapada dos Guimarães. O local oferece Práticas Integrativas e
Complementares (PICS), como auriculoterapia, reiki, massagem e educação física.
“O público idoso é muito
presente em todas as ações que promovemos. Além das atividades físicas e
terapêuticas, temos um trabalho voltado para aumentar a sociabilidade e a
autoestima, valorizando esse público”, explica a enfermeira Tamara Stephanie
Melo Malta, coordenadora geral da Atenção Básica de Chapada dos Guimarães.
O encontro também reforçou a
necessidade de fiscalização de estabelecimentos públicos e privados, para
verificar se há o cumprimento do Estatuto do Idoso. “Assumimos hoje o
compromisso de verificar, em estabelecimentos comerciais e públicos, se há
visibilidade adequada das informações sobre os direitos da pessoa idosa. É
fundamental que o Estatuto do Idoso esteja afixado nos locais de fácil acesso,
com clareza, para o idoso poder exercer seus direitos, especialmente no que diz
respeito à prioridade no atendimento e à acessibilidade”, garantiu a
representante da OAB, Natália Magalhães.
Justiça Restaurativa
Leonísio Salles destacou as
possibilidades criadas pela Justiça Restaurativa nos encontros. “Em vez de
julgar, ela acolhe; em vez de silenciar, ela escuta. E os Círculos de Paz são
instrumentos potentes para transformar relações, porque abrem espaço para o
reconhecimento mútuo e para a corresponsabilidade entre gerações. Quando uma
sociedade valoriza o tempo vivido, ela protege seu próprio futuro.”
O magistrado finaliza com um
alerta para todas as gerações. “Combater o idadismo exige mudança de atitude individual
e ação coletiva. Precisamos de mais escuta, mais inclusão e mais respeito. Cabe
a todos nós, famílias, instituições e poder público, garantir que o
envelhecimento seja uma etapa plena, digna e respeitada. Porque o modo como
tratamos nossos idosos revela o grau de humanidade que cultivamos.”
Priscilla Silva / Foto: Alair Ribeiro
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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