“Eu renasci”: servidora do TJMT rompe ciclo de violência com apoio do Núcleo Thays Machado
"É
mais fácil apanhar e dormir, do que ter forças para enfrentar outro dia. Mas
hoje eu virei a página. Hoje eu sou uma nova mulher". Com a voz firme, mas
o olhar emocionado, Carla (nome fictício de uma servidora do Tribunal de
Justiça de Mato Grosso (TJMT), conta como sobreviveu à violência doméstica e,
mais que isso, como reconstruiu sua vida com o apoio do Núcleo de Atendimento
Thays Machado, espaço de acolhimento e proteção criado pelo Judiciário estadual
para mulheres do próprio sistema de Justiça.
Violência
invisível: quando o medo cala e isola
Em
apenas seis meses de 2025, 28 mulheres foram vítimas de feminicídio em Mato
Grosso, conforme o Observatório Caliandra, do Ministério Público Estadual. A
maioria dessas vítimas não havia sequer registrado um boletim de ocorrência.
Algumas jamais buscaram ajuda. Outras, como Carla, até tentaram — mas não
encontraram, de imediato, as portas certas.
"Eu
fui até a delegacia depois da agressão, mas não me informaram sobre nenhum
apoio psicológico, nem sobre o botão do pânico. Eu não sabia nem por onde
começar. Foi meu departamento que falou do Espaço Thays Machado, e foi ali que
tudo começou a mudar".
Acolhimento
que salva vidas
Carla
chegou ao Núcleo em abril do ano passado, depois de meses de perseguição,
humilhações públicas e agressões físicas e emocionais por parte do
ex-companheiro. Apesar de ter registrado boletim de ocorrência, ele continuava
aparecendo no trabalho, na faculdade, nos caminhos que ela percorria todos os
dias.
"Eu
morava com ele. Foram oito meses de relacionamento, mas parecia uma prisão. Ele
me difamava, me batia, me seguia. Quando terminei, ele não aceitou. E quando eu
comecei a melhorar, ele voltava com mais força. Aqui no Núcleo eu fui ouvida,
orientada, protegida. Me ensinaram a usar o botão do pânico, me deram o número
da patrulha [Maria da Penha]. Toda vez que ele aparecia, eu acionava. Hoje ele
está preso", disse.
"Eu
estava apavorada. Ele sabia onde eu estudava, onde eu trabalhava, os horários.
Aqui no Núcleo me orientaram a mudar minha rotina, e, principalmente, me
acolheram como ninguém tinha feito antes. Foi aqui que comecei a fazer terapia,
e até hoje sigo acompanhada pela equipe", completou.
O
Núcleo Thays Machado
O
Núcleo de Atendimento – Espaço Thays Machado, vinculado à Coordenadoria
Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do Poder
Judiciário de Mato Grosso (Cemulher-MT), foi criado em 2023. O espaço leva o
nome de Thays Machado, servidora do TJMT assassinada pelo ex-companheiro em um
caso de feminicídio que comoveu o Estado e escancarou a vulnerabilidade de
mulheres, mesmo dentro das instituições de Justiça.
O
Núcleo oferece atendimento psicológico, jurídico e, se necessário, psiquiátrico
e institucional, com total sigilo, por uma equipe composta apenas por mulheres.
O acolhimento pode ser feito presencialmente ou por videoconferência,
possibilitando que servidoras de qualquer parte do Estado tenham acesso à
ajuda.
Reconstruindo
a própria identidade
Além
da proteção emergencial, o Núcleo também trabalha na educação sobre os ciclos e
tipos de violência previstos na Lei Maria da Penha — física, psicológica,
patrimonial, moral e sexual — e auxilia mulheres a identificarem sinais muitas
vezes naturalizados nas relações.
"A
gente cria uma dependência emocional tão grande, que chega a acreditar que não
vai mais conseguir viver sem aquela pessoa. Eu achei que não ia mais querer me
relacionar com ninguém. Que não ia mais existir. Mas me enganei. Eu virei a
página. Eu comecei uma nova vida".
Carla
relata que, no novo relacionamento, passou a enxergar os sinais de alerta que
antes ignorava. "O Núcleo me ensinou a identificar as bandeiras vermelhas.
Se alguém começa a te controlar, te impedir de sair ou escolher sua roupa...
isso já é um sinal. Hoje eu reconheço isso. E me afasto".
Força
que vem do acolhimento
A
trajetória de Carla é marcada não só pela dor, mas pela superação.
"Ele
me dizia que eu era um lixo, que ninguém me queria. E eu comecei a acreditar.
Mas aqui no Núcleo eu escutei que eu era bonita, que eu era forte. Voltei a me
olhar no espelho, a me arrumar. Hoje estou aqui, maquiada, com o cabelo bonito.
Parece simples, mas pra quem já foi anulado, é um ato de resistência".
Romper
com um relacionamento abusivo não é apenas uma decisão. É um processo difícil,
cheio de medo, dor, julgamentos e obstáculos. “É mais fácil ficar, apanhar e
dormir, do que encarar tudo que vem depois. Mas quando você tem apoio, você
encontra forças. O julgamento é cruel, mas o acolhimento salva".
Carla reconhece a importância do Núcleo, que hoje é sinônimo de apoio e proteção para as mulheres do Judiciário estadual.
"Sem
o Espaço Thays Machado, eu ainda estaria presa naquele relacionamento. Eu não
teria forças para sair. Hoje, eu sou outra pessoa. Eu quero casar, formar uma
família. Algo que eu nunca imaginei que poderia querer de novo. Eu
renasci".
Quem
foi Thays Machado
Thays
Machado foi servidora do TJMT, querida por colegas e admirada pela dedicação ao
trabalho. Em 2022, sua vida foi tragicamente interrompida por um feminicídio
cometido pelo ex-companheiro. Sua morte se tornou símbolo da urgência em
acolher e proteger mulheres em situação de violência, inclusive dentro do
próprio sistema de Justiça. O Núcleo é uma rede
de apoio para servidoras e colaboradoras do TJMT em todo Estado.
Flávia Borges
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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