Sala de Reintegração Social completa 2 anos com 1500 atendimentos e histórias de recomeço
“Quando progredi de regime e saí do presídio, estava perdido, sem rumo”. Com essa frase, Sandro*, de 33 anos, resume o sentimento que marcou sua libertação após quase uma década no regime fechado em Cuiabá.
Em maio deste ano, ele teve a chance de recomeçar graças à Sala de Reintegração Social de Cuiabá, criada justamente para acolher pessoas egressas do sistema penitenciário. Agora, vai terminar de cumprir a pena fora da unidade prisional, monitorado por tornozeleira eletrônica.

Hoje, Sandro trabalha como auxiliar administrativo na Fundação Nova Chance (Funac) e também cursa faculdade de Gestão do Agronegócio. “Aqui eu recebi o apoio que preciso para seguir uma nova vida. A gente sai do presídio com a autoestima baixa, com medo de voltar ao convívio social. Esse acolhimento foi determinante”, relata.

Outra história que retrata o impacto da iniciativa é a de Célia*, de 21 anos. Após um ano e três meses no regime fechado, ela cumpre pena no semiaberto. A jovem, que veio do interior e é mãe de uma criança pequena, também foi acolhida na Sala e contratada para trabalhar como auxiliar de serviços gerais.
“Se não fosse o acolhimento que eu recebi aqui, nem saberia por onde recomeçar. Quero buscar minha filha e seguir a minha vida. Aqui, encontrei uma nova chance de verdade”, afirma emocionada.
Criada em 24 de julho de 2023, a Sala de Reintegração Social completa dois anos como um dos principais marcos na política de atenção a egressos do sistema prisional em Cuiabá. Com 1.500 atendimentos realizados, o espaço tem sido fundamental para qualificar a chamada “porta de saída” do cárcere, oferecendo acolhimento humanizado, orientação jurídica obrigatória e acesso imediato a serviços essenciais.
Localizada na Fundação Nova Chance, em Cuiabá, a sala é fruto de uma gestão compartilhada entre o Poder Judiciário, a Funac, o Escritório Social e o Governo do Estado. O juiz da Vara de Execução Penal de Cuiabá, Geraldo Fidelis, destaca o papel estratégico da iniciativa: “É um equipamento social que acolhe as pessoas no momento mais crítico da vida. Psicólogos e assistentes sociais realizam esse primeiro atendimento, que é fundamental para romper com o ciclo do crime e oferecer dignidade”.
A coordenadora do Escritório Social, Beatriz Dziobat, reforça que o acolhimento não se resume à liberação formal. “Aqui a pessoa não sai do presídio direto para a rua. Só sai depois de ter suas necessidades mínimas atendidas: documentação civil, encaminhamento para trabalho, acompanhamento médico, orientação jurídica. Trabalhamos com quatro pilares: família, religião, trabalho e educação”, afirma.
Além de atender casos gerais, a Sala possui fluxos específicos para mulheres e população LGBTQIA+, oferecendo kits de higiene e vestuário de acordo com a identidade de gênero, além de articulação com entidades de acolhimento.
O perfil dos 1500 atendidos revela os desafios estruturais da política criminal brasileira: 79% são pessoas negras; 92% são homens; a maioria tem entre 25 e 59 anos; apenas 36 possuíam documentação civil completa no momento da saída.
Cada número representa uma história marcada por vulnerabilidades acumuladas e reforça a importância de políticas públicas intersetoriais e contínuas. Como bem destaca Beatriz Dziobat: “Nosso propósito é reintegrar essas pessoas para que possam continuar suas vidas conosco, na sociedade, que é o lugar delas”.
Com o apoio do Poder Judiciário, da Fundação Nova Chance, da Secretaria Adjunta de Administração Penitenciária e da sociedade civil, a Sala de Reintegração Social segue reafirmando que dignidade não se negocia e que cada saída pode ser, sim, o começo de um novo caminho.
*Sandro e Célia são nomes fictícios para preservar a identificação dos egressos.
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