Atividades com crianças refletem superação e proximidade com o público no projeto Justiça em Ação
Em
um mundo globalizado, onde a tecnologia ultrapassa fronteiras e invade cada
experiência na vida das pessoas, conexão virou sinônimo de internet e o contato
passou a ser intermediado por telas. Mas as crianças de Salto da Alegria (200km
de Paranatinga), onde ocorre o mutirão Justiça em Ação, realizado pela Justiça
Comunitária e parceiros, provaram que elas não precisam de muito para serem
felizes. Faltava energia elétrica na comunidade desde as 22h30 da noite de
quarta-feira (6). O início das atividades do projeto Justiça em Ação teve que
ser atrasado em duas horas e meia nesta quinta-feira (7), na Escola Municipal
do Campo Euzébio de Queiroz.
Enquanto
os pais aguardavam sentados do lado de fora, a criançada ocupou os espaços onde
havia qualquer possibilidade de diversão, a saber: Círculo de Construção de Paz,
oferecido pelo Núcleo Gestor da Justiça Restaurativa (NugJur) do Poder
Judiciário de Mato Grosso; atividades de educação para o trânsito, do
Departamento Estadual de Trânsito (Detran-MT); oficinas de leitura e desenho da
Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel), exposição de animais
taxidermizados da Polícia Militar Ambiental e experiências educativas do Corpo
de Bombeiros Militar.
Leia mais: Justiça em Ação leva serviços dos bombeiros e das forças policiais à população de Salto da Alegria
“Isso é pra gente mostrar que o livro hoje é importante, porque a gente
ouve que o livro está deixando de ser utilizado por causa da tecnologia e da
internet, mas não. Aqui a gente viu o quanto é importante um livro porque
estamos sem energia, mas o livro físico está aqui pra que a gente possa
incentivar a leitura, fazer um desenho. É a imaginação sendo aflorada. Você lê
um livro e vai fazer um desenho daquilo que você leu. Essa é a nossa intenção:
que eles soltem a criatividade pra arte, pra leitura, pra cultura em si”, afirma
Helena Maria da Costa, da Gerência de Livro e Leitura da Secel.
Além das oficinas criativas - que, temporariamente, foram realizadas sob
a luz do sol que entrava pelas janelas -, a equipe da Secretaria de Cultura
trouxe para a população de Salto da Alegria livros para doação, tanto para o
público adulto, quanto infanto-juvenil. As obras são de autores
mato-grossenses, contemplados pelos editais de fomento à Literatura da
Secel. Além disso, um exemplar de cada
título também foi deixado para o acervo da escola que recebe o mutirão.
“Estamos atingindo realmente quem não tem acesso à cultura. Nosso papel é fazer
com que eles conheçam a biblioteca e que tem um acervo disponível. Por isso,
essa parceria com a Justiça Comunitária é muito importante para nós”, avalia
Helena Maria.
As
alunas da Escola Euzébio de Queiroz, Raiane Miranda Verne, 8, e Jady Honório de
Vargas, 7, foram algumas das crianças que brincaram de desenho, ganharam livros
e ainda tomaram vacina contra a gripe no mutirão. “Foi muito legal!”, disse
Jady.
Na sala onde ocorriam as oficinas lúdicas do Detran, os primos Luís
Arthur e Anita Laura se divertiam. A mãe do menino, a enfermeira do Município
de Paranatinga Kaline dos Santos Sales, que também trabalhou no mutirão,
aprovou o cuidado com os pequenos. “É uma coisa positiva pra gente. Salto está
sendo visto porque vocês estão aqui prestando esse serviço, esse apoio pra
comunidade. Com isso a gente está se sentindo querida”, disse.
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A pedagoga e analista do serviço de
trânsito, Zoraide Barbosa Almeida Ursino defende que a ludicidade é a
tecnologia utilizada em suas atividades com as crianças para levar educação
sobre o trânsito. “O que vale é o acolhimento. Quando você acolhe e trabalha na
ludicidade, a criança se agrada com um pirulito, com os desenhos, com a
simulação da via”, diz.
Zoraide destaca que, neste mutirão a campanha de conscientização Maio
Amarelo está sendo reforçada junto ao público e pontua a importância da
parceria com a Justiça Comunitária para atingir pessoas dos lugares mais
distantes. “Já fazem quase 10 anos que estou nessas caravanas do Tribunal de
Justiça e é um imenso prazer fazer esse trabalho em lugares onde o Detran não
iria. Mas o Detran mais cidadão, chegando nessas comunidades, significa salvar
vidas”.
Durante
a edição do Justiça em Ação em Salto da Alegria, as crianças também tiveram
momentos de tranquilidade e reflexão nos Círculos de Construção de Paz,
conduzidos pela facilitadora e instrutora da metodologia, Sandra Felix.
Ela explica que o método traz em si a ancestralidade da conversa em roda
e promove a escuta ativa e a empatia. “O Círculo é uma metodologia que pode ser
feita em qualquer espaço, desde haja o ser humano. Ele não precisa de
tecnologia porque a gente fala sobre as nossas emoções, a gente fala de si, é
um espaço onde o material físico que a gente precisa é somente uma cadeira e os
objetos de centro para que se demarque o espaço seguro e a gente consiga
desenvolver a metodologia circular”, detalha.
Desafios superados e vivência da realidade
– A falta de energia experimentada pelos parceiros do projeto Justiça em Ação é
um dos desafios superados para levar atendimento digno de justiça e cidadania
para moradores de lugares remotos de Mato Grosso. O primeiro dia de
atendimento, na quarta-feira (6), também foi atrasado em cerca de meia hora por
conta do mesmo problema, que foi resolvido pela concessionária de energia
elétrica.
Após
um dia intenso de trabalho no mutirão Justiça em Ação, a energia elétrica
passou por oscilações e caiu novamente, por volta das 22h30, sendo restabelecida
somente às 10h30 desta quinta-feira (7). Diante da situação, que é recorrente
na localidade, o coordenador estadual da Justiça Comunitária, juiz José Antonio
Bezerra Filho acionou tanto a empresa responsável para resolução pontual do
problema, quanto a Promotoria de Justiça de Paranatinga.
Em resposta, a promotora de justiça Caroline de Assis e Silva Holmes Lins confirmou que já existem procedimentos abertos em relação ao problema na zona rural do município, e que tomará todas as medidas cabíveis para assegurar o direito da comunidade de Salto da Alegria ao serviço essencial.
Leia mais:
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Celly Silva / Foto: Josi Dias
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
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