Curso reúne especialistas para discutir avanço das demandas ambientais no Judiciário
As mudanças climáticas, os conflitos fundiários, os impactos sobre os biomas
e a crescente judicialização das questões ambientais exigem do Poder Judiciário
uma atuação cada vez mais técnica e multidisciplinar. Foi nesse contexto que
magistrados e servidores participaram, nesta quinta-feira (7), do primeiro dia
do curso “Introdução ao Direito Ambiental – no Limiar de um Novo Paradigma
Jurídico Ecocêntrico no Antropoceno”, promovido pelo Centro de Estudos
Integrados em Meio Ambiente (Cesima) e pela Escola Superior da Magistratura de
Mato Grosso (Esmagis-MT).
A capacitação, voltada prioritariamente a magistrados com competência
ambiental, reúne os juristas Ingo Wolfgang Sarlet e Tiago Fensterseifer, dois
dos principais estudiosos brasileiros na área dos direitos fundamentais e da
proteção ambiental. A proposta é oferecer uma formação que parte dos
fundamentos filosóficos e históricos do Direito Ambiental até os reflexos práticos
nas decisões judiciais diante de conflitos cada vez mais complexos.
Na abertura do curso, o coordenador da iniciativa, desembargador Rodrigo
Curvo, destacou que o Direito Ambiental deixou de ocupar um espaço periférico
dentro do sistema jurídico e passou a dialogar diretamente com temas centrais
da sociedade contemporânea, como saúde, economia, dignidade humana e segurança
jurídica. Segundo ele, a necessidade de capacitação da magistratura acompanha a
transformação dos próprios conflitos levados ao Judiciário.
“O direito ambiental dialoga diretamente com a vida, com a saúde, com a
dignidade humana, com a economia, com a segurança jurídica e com o próprio
futuro das cidades, das comunidades, das próximas gerações”, afirmou o
desembargador. Rodrigo Curvo ressaltou ainda que preparar magistrados para
lidar com essas demandas significa fortalecer a prestação jurisdicional,
especialmente diante de questões que ultrapassam os limites de interesses
individuais e exigem análise dos impactos sociais e ecológicos das decisões.
Ele também enfatizou a relevância acadêmica da presença dos professores Ingo
Sarlet e Tiago Fensterseifer, reconhecidos nacional e internacionalmente pela
produção jurídica voltada à proteção ambiental e climática. Para o magistrado,
o curso nasce como um espaço de reflexão qualificada e aprofundamento técnico
sobre uma área que tende a ocupar cada vez mais espaço no cotidiano judicial.
Uma das responsáveis pela organização da capacitação, a juíza Henriqueta
Fernanda Chaves de Alencar Ferreira Lima destacou que a proposta do curso surge
em um momento em que os impactos ambientais deixaram de ser uma preocupação
apenas teórica e passaram a influenciar diretamente a realidade social,
econômica e jurídica.
Segundo a magistrada, Mato Grosso possui características que tornam esse
debate ainda mais urgente. O estado abriga três importantes biomas, realidade
que intensifica os desafios relacionados à preservação ambiental, ao
desenvolvimento econômico e à solução de conflitos complexos.
Henriqueta observou que a pauta ambiental exige hoje um olhar
multidisciplinar e sensível por parte da magistratura. “O mundo mudou e os
tipos de conflitos também mudaram. Muitos desses conflitos estão justamente
relacionados com questões ambientais”, afirmou. Para ela, a intenção do curso é
justamente ampliar a compreensão dos magistrados sobre essas transformações e
contribuir para respostas judiciais mais adequadas diante da complexidade dos
casos.
Ao longo da programação, os participantes discutiram o avanço do Direito
Ambiental e, especialmente, do Direito Climático, ramo que ganhou maior
protagonismo nos últimos anos diante da intensificação dos eventos climáticos
extremos e das decisões judiciais relacionadas à proteção do meio ambiente.
Um dos professores do curso, Tiago Fensterseifer, chamou atenção para o
crescimento da atuação do Poder Judiciário em demandas envolvendo mudanças
climáticas, proteção da biodiversidade e políticas públicas ambientais. Ele
citou julgamentos recentes do Supremo Tribunal Federal relacionados ao Fundo
Clima e ao Fundo Amazônia como exemplos do reconhecimento de deveres estatais
de proteção climática.
O jurista destacou ainda que o debate ambiental passou a incorporar também a
jurisprudência internacional, especialmente decisões da Corte Interamericana de
Direitos Humanos. Segundo ele, no ano passado a Corte reconheceu o direito
humano ao clima saudável, ampliando a compreensão tradicional do direito ao
meio ambiente equilibrado.
Para Tiago Fensterseifer, a emergência climática já faz parte da realidade
brasileira e atinge diretamente a vida das pessoas. Ele lembrou episódios
recentes, como enchentes no Sul do país, secas severas e incêndios florestais
em diferentes regiões do Brasil. “Hoje você não tem como assegurar a proteção
de direitos fundamentais sem um olhar muito sensível para a questão ambiental,
climática e da poluição”, afirmou.
O professor também elogiou a iniciativa da Esmagis-MT de investir na
formação continuada dos magistrados. Para ele, a atualização técnica é
indispensável diante das constantes mudanças legislativas e jurisprudenciais na
área ambiental e climática, especialmente porque os juízes estão na linha de
frente das respostas institucionais aos conflitos decorrentes da crise
ambiental.
Também professor do curso, Ingo Wolfgang Sarlet ressaltou que discutir
Direito Ambiental deixou de ser uma conveniência acadêmica para se tornar uma
necessidade estratégica das carreiras jurídicas. Segundo ele, o crescimento das
demandas ambientais e os efeitos da crise climática tornam indispensável a
formação contínua dos integrantes do sistema de Justiça.
Sarlet observou que o Judiciário brasileiro tem assumido papel de destaque
na proteção ambiental, inclusive em comparação com tribunais de outros países,
com decisões consideradas inovadoras e de forte impacto social. Para o
professor, muitas dessas demandas envolvem não apenas empresas e particulares,
mas também omissões e falhas do próprio poder público.
Ele ressaltou ainda que os conflitos ambientais exigem diálogo com outras
áreas do conhecimento, especialmente a ciência, além do enfrentamento à
desinformação e ao negacionismo climático. “Qualquer pessoa com mínimo de bom
senso vai ter que pensar no ambiente”, afirmou o jurista, ao defender a
consolidação de uma cultura de cuidado e responsabilidade ambiental aliada ao
desenvolvimento econômico.
Participante da capacitação, o juiz Maurício Alexandre Ribeiro, da Comarca
de Lucas do Rio Verde, destacou a importância da atualização permanente da
magistratura, especialmente em Mato Grosso, onde os conflitos ambientais fazem
parte da realidade cotidiana do Judiciário. Segundo ele, a presença dos três
biomas no Estado torna as demandas ainda mais específicas e complexas.
O magistrado ressaltou que o curso representa uma oportunidade de aperfeiçoamento
técnico diante das constantes alterações legislativas e normativas relacionadas
ao tema ambiental. “A carreira jurídica é uma atualização constante”, afirmou,
ao elogiar a iniciativa da Esmagis-MT e do desembargador Rodrigo Curvo em
promover a formação voltada aos desafios contemporâneos do Direito Ambiental.
O curso segue nesta sexta-feira (8) e integra o eixo temático “Meio
Ambiente” da Esmagis-MT. A certificação para magistrados será emitida pela
Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados Ministro Sálvio de
Figueiredo Teixeira (Enfam), para fins de vitaliciamento e promoção na
carreira.
Flávia Borges / Foto: Alair Ribeiro
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
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