Audiência pública reúne centenas de pessoas para discutir lei de combate ao crime organizado
A audiência pública “A Lei do Combate ao Crime Organizado no
Brasil e os impactos no sistema de justiça criminal: desafios e oportunidades”
atraiu mais de 200 pessoas, na tarde desta sexta-feira (12), no auditório do
Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), com mais de 500 pessoas participando on-line, para debater a Lei nº 15.358/2026 e
seus reflexos no sistema de justiça criminal. A nova lei, que desde 24 de março
instituiu o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado no Brasil, tipifica os
crimes de domínio social estruturado e de favorecimento ao domínio social
estruturado, altera o Código Penal e o Código de Processo Penal brasileiros,
bem como legislações correlatas.
O evento foi promovido pelo Poder Judiciário de Mato Grosso,
por meio da Corregedoria-Geral da Justiça (CGJ), em parceria com o Ministério
Público do Estado (MPE), a Polícia Judiciária Civil (PJC) e a Ordem dos
Advogados do Brasil – Seccional Mato Grosso (OAB-MT). Houve transmissão ao vivo
por meio do canal TJMT Eventos no YouTube.
A abertura da audiência contou com pronunciamento do
presidente do TJMT, desembargador José Zuquim Nogueira, que apontou a
sensibilidade e atualidade do tema. “O crime organizado mudou sua forma de
agir. Alcança diferentes áreas da vida social e econômica e exige do Estado
respostas firmes, preparadas e responsáveis”, destacou.
Ele ressaltou ainda a importância de refletir sobre
investigações, responsabilização, garantias processuais e atuação integrada de
todos os órgãos públicos, de forma equilibrada, séria e cuidadosa, por exemplo,
com a qualidade da prova, com o uso correto dos instrumentos legais e, acima de
tudo, com a preservação da confiança da sociedade na justiça. “O Poder
Judiciário recebe esse debate com espírito de escuta e cooperação. A
contribuição do Ministério Público, da polícia, da advocacia, da academia, da
Defensoria e dos demais participantes é essencial para que possamos aprimorar
práticas e construir respostas mais seguras”, declarou.
O corregedor-geral da Justiça, desembargador José Luiz Leite
Lindote, responsável pela audiência pública, ressaltou que a CGJ-MT decidiu
promover o evento por compreender que o enfrentamento ao crime organizado exige
diálogo permanente entre as instituições que integram o sistema de justiça
criminal.
“A recente Lei nº 15.358, conhecida como Marco Legal de Combate ao
Crime Organizado, trouxe novos instrumentos, novos conceitos e novos desafios
para a investigação, o processamento e o julgamento de crimes. Diante dessas
mudanças, é fundamental debater seus impactos e refletir sobre sua aplicação
prática”.
Segundo Lindote, a audiência pública é exemplo de uma
atuação conjunta entre o Poder Judiciário, Ministério Público, Polícia
Judiciária Civil e a OAB-MT. “Essa integração institucional tem produzido
resultados em Mato Grosso, a exemplo da articulação que possibilitou a
realização do primeiro leilão de sucatas vinculadas à jurisdição criminal, que
resultou na arrecadação de cerca de R$ 675 mil para os cofres públicos”,
enfatizou, informando que o resultado foi fruto de evento anterior, o Recupera
MT, no qual foi assinada a Resolução Conjunta nº 01/2025 com o Estado.
Representando a Secretaria de Estado de Segurança Pública, o
delegado de polícia Valter de Melo Fonseca Júnior afirmou que a audiência
pública é o momento oportuno para pensar no atual cenário nacional.
“A
sociedade tem exigido respostas do Estado e nós acreditamos, enquanto Segurança
Pública, que a resposta se faz através da integração. Os desafios são grandes,
a legislação nova. Tem vários conceitos que precisam ser interpretados, como o
conceito de domínio social. São novas tipificações, novos processos e são temas
que temos que enfrentar em conjunto”, disse, enaltecendo a iniciativa do Poder
Judiciário.
O promotor de justiça Renee do Ó Souza pontuou que, em todo
o país, o crime organizado está estabelecido e notabilizado pelo incremento do
lucro e regido pela prática extremamente violenta, características que são o
foco da nova lei, também conhecida como Pacote Anti-facção.
“Este evento marca
o pontapé do Poder Judiciário, do Ministério Público, da Defensoria e da
Advocacia, da Polícia Civil e de toda a população brasileira que se destina e
que quer enfrentar adequadamente o crime organizado”, disse.
Vice-presidente da OAB-MT, Giovane Santin classificou o
debate como de grande importância não só para o Estado de Mato Grosso, mas para
todo o país.
“Um momento em que precisamos entender e enfrentar de fato todas
as consequências geradas por esse fenômeno que conhecemos e chamamos
vulgarmente de facções criminosas”, disse. O advogado agradeceu ao Poder
Judiciário pela oportunidade de cada instituição envolvida expor seus
entendimentos sobre o tema.
O defensor público e diretor da Escola Superior da
Defensoria Pública de Mato Grosso (DPE-MT), Fernando Antunes Soubhia fez uma
crítica ao Pacote Anti-facção, afirmando que ele “repete a receita” que o
Brasil testa pelo menos desde 1988 e que “fracassa” desde então. “Aumenta a
pena, endurece regime, suprime o benefício. A gente fez isso em 90, como a lei
dos crimes hediondos. Isso só fez aumentar a população carcerária, aumentar o
contingente das facções, que agora se nacionalizaram e tornaram os seus métodos
cada vez mais elaborados”, disse.
Ao apontar que “o cárcere historicamente é o maior centro de
recrutamento das organizações criminosas”, Soubhia defendeu que este não seria
o melhor método para lidar com o problema. Apontou ainda que “o sistema penal é
seletivo e vai continuar sendo seletivo”, prendendo majoritariamente pessoas
pretas, pobres e periféricas. “Infelizmente, mais uma vez, a resposta que o
Estado dá à sua própria ausência nas comunidades vulnerabilizadas é o direito
penal”, criticou. Por fim, o defensor público insistiu que segurança pública se
constrói com o Estado presente no território, escola, saúde, trabalho e
urbanização. “O que essa lei oferece, mais uma vez, é o Estado chegando com o
fuzil e algema. Precisamos fazer melhor que isso”, asseverou.
Registro de presenças
Participaram da audiência pública o ouvidor-geral do Poder
Judiciário, desembargador Rodrigo Curvo; o supervisor do Grupo de Monitoramento
e Fiscalização do Sistema Carcerário e Socioeducativo (GMF-MT), desembargador
Orlando Perri; os desembargadores Jorge Luiz Tadeu Rodrigues e Wesley Sanchez
Lacerda; o juiz auxiliar da Presidência e secretário-geral do TJMT, Agamenon
Alcântara Moreno Júnior; os juízes auxiliares da CGJ-MT João Filho de Almeida
Portela, Jorge Alexandre Martins Ferreira e Myrian Pavan Schenkel; o delegado
Cláudio Álvarez Santana, representando a Polícia Judiciária Civil; o
coordenador da CGJ-MT, João Gualberto Neto, além de juízes e juízas, advogados
e advogadas, assessores, estudantes de Direito, servidores e servidoras do
Poder Judiciário, entre outros interessados no tema da audiência pública.
Celly Silva / Foto: Rodrigo Moura
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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