Magistrada do TJMT reforça necessidade de mudança cultural no combate à violência contra a mulher
A violência doméstica no Brasil
não pode ser vista como caso isolado, mas como resultado de uma cultura
histórica de desigualdade. Essa foi a principal mensagem da juíza Tatyana Lopes
de Araújo Borges, da 2ª Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar
contra a Mulher de Cuiabá, durante palestra no “III Encontro Anual do Núcleo de
Atendimento a Magistradas e Servidoras Vítimas de Violência Doméstica e
Familiar – Espaço Thays Machado”, realizado nesta sexta-feira (19), na capital.
Promovido pelo Tribunal de
Justiça de Mato Grosso (TJMT), por meio da Coordenadoria Estadual da Mulher em
situação de Violência Doméstica e Familiar (Cemulher-MT), o evento reuniu
magistrados(as) e servidores(as) que atuam nas Redes de Enfrentamento e Grupo
Reflexivo de Homens, para ampliar o debate sobre a violência doméstica,
divulgar canais de denúncia e fortalecer a rede de proteção às vítimas.
Durante a palestra, a magistrada
destacou que o conhecimento jurídico não é suficiente para proteger mulheres da
violência, inclusive dentro do próprio sistema de Justiça. “Ninguém está imune.
É fundamental garantir espaços de escuta qualificada, acolhimento e proteção
também dentro do Judiciário”, afirmou.
Violência como construção
histórica
Ao abordar a evolução dos
direitos das mulheres, a juíza ressaltou que a violência está enraizada em uma
cultura que, por séculos, tratou a mulher como propriedade do homem. “Não são
casos isolados. Viemos de uma cultura que autorizava a violência contra as
mulheres. Apenas o aumento das penas não muda uma realidade construída ao longo
de séculos”, pontuou.
Ela relembrou marcos históricos,
como o direito ao voto em 1932, a capacidade civil plena em 1962 e a
Constituição de 1988, que estabeleceu igualdade formal ainda não plenamente
efetivada.
Ciclo silencioso de violência
A magistrada enfatizou que o
feminicídio representa o estágio mais extremo de um ciclo de violência que, na
maioria das vezes, começa de forma silenciosa, por meio de comportamentos
controladores, humilhações e isolamento. “A violência não começa com agressões
físicas. Muito antes disso surgem sinais nas palavras, nas atitudes e na
convivência. O controle excessivo, o ciúme e as ameaças são alertas”, disse.
De acordo com ela, muitas
mulheres permanecem em relacionamentos abusivos por acreditarem em promessas de
mudança ou por desejarem preservar a família. No entanto, essa permanência pode
agravar o risco. “É preciso reconhecer os sinais e interromper esse ciclo antes
que algo mais grave aconteça”, alertou.
A juíza exemplificou com relatos
reais de vítimas, de audiências que presidiu, e destacou situações em que
mulheres sofreram agressões severas mesmo após tentativas de reconciliação.
Lei Maria da Penha e formas de
violência
A juíza destacou a Lei Maria da
Penha como marco no combate à violência ao afirmar que a lei deu visibilidade a
uma violência que era invisível e criou mecanismos de proteção.
Ela explicou as cinco formas de
violência: física, psicológica, moral, sexual e patrimonial, ressaltando que a
psicológica costuma ser a primeira e mais difícil de identificar. “A violência
psicológica destrói a autoestima da vítima. Quando ela passa a acreditar que
não tem valor, romper o relacionamento se torna ainda mais difícil”, explicou.
Dados preocupantes
Apesar dos avanços, os índices de
feminicídio seguem elevados. A maioria dos casos ocorre no ambiente doméstico e
é praticada por companheiros ou ex-companheiros. “Enquanto a mulher for vista
como posse, o problema vai continuar”, destacou.
A magistrada também apontou que
muitas vítimas não chegam a pedir ajuda antes da violência extrema.
Educação como caminho
Ao longo da palestra, a juíza
reforçou que o enfrentamento à violência contra a mulher exige mais do que
punição criminal, depende de transformação cultural profunda, baseada em
educação e igualdade. “O combate ao feminicídio exige mudança de mentalidade. É
preciso construir uma cultura de respeito, dignidade e igualdade entre homens e
mulheres”, afirmou.
Programação integrada
O evento integrou uma agenda mais
ampla promovida pelo TJMT. Entre os dias 17 e 19 de junho, servidores da
Justiça Estadual e das comarcas participaram da capacitação “Reflexão e
Sensibilização para Autores de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher”,
realizada pela Escola dos Servidores.
A iniciativa envolveu
profissionais das Redes de Enfrentamento e dos Grupos Reflexivos para Homens,
ampliando o debate sobre prevenção e responsabilização.
Compromisso institucional
Ao final do encontro, ficou
evidenciada a mensagem comum de que combater a violência contra a mulher exige
atuação contínua das instituições, fortalecimento das redes de proteção e
investimento em educação.
Mais do que leis, o desafio está
em transformar a sociedade. “Só vamos avançar quando deixarmos de naturalizar
comportamentos abusivos e passarmos a promover relações baseadas no respeito”,
concluiu a magistrada.
Participantes
O integrante da equipe
multidisciplinar da Cemulher-MT, Cristian Pereira Oliveira, destacou que a
prevenção da violência passa pela mudança de padrões culturais, com foco no
trabalho junto aos homens.
Cristian também chamou atenção
para um ponto sensível no debate sobre a prevenção da violência. O papel das
mulheres na condução de diálogos com homens autores de violência. Para ele,
embora ainda haja resistência, a participação feminina nesses espaços é
fundamental. “Nos grupos reflexivos, há um acordo inicial de respeito. Cada um
tem o seu tempo de fala e precisa ouvir o outro. Se o homem não consegue lidar
com uma mulher conduzindo esse diálogo, já há um problema desde o início”,
explicou.
Ele também pontuou que o
depoimento da órfã de feminicídio apresentado durante o encontro reforçou a
importância do diálogo entre os próprios homens, especialmente em relações de
amizade. “Muitas vezes falta um colega, um amigo, alguém próximo para dar um
toque, orientar, chamar a atenção. Se esse diálogo acontecesse mais entre os
homens, muitas histórias poderiam ser diferentes”, disse.
O policial civil da Delegacia da
Mulher de Cuiabá, Armando Arce, afirmou que o depoimento da órfã de feminicídio
foi profundamente impactante e trouxe uma nova perspectiva para sua atuação.
“Foi um testemunho de fortes emoções, uma realidade que eu nunca tinha
imaginado. A gente costuma focar no agressor, mas muitas vezes esquece dos
órfãos, que também são vítimas dessa violência”, destacou.
Com 11 anos de atuação na área,
Armando reforçou que o acolhimento humanizado é essencial no atendimento às
vítimas. “Nosso trabalho é acolher sem julgamento, mostrar que ela não está
sozinha e que existe uma rede pronta para ajudar. Como ela disse, calar dói
mais. É preciso falar para se libertar”, afirmou.
Ele também ressaltou a
importância da capacitação promovida pelo Judiciário para fortalecer a rede de
enfrentamento à violência doméstica. “Essa é uma porta aberta, uma oportunidade
gigantesca. Quanto mais preparados estivermos, melhor será o acolhimento às
vítimas”, concluiu.
Marcia Marafon / Foto: Lucas Figueiredo
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
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