Encontro de almas: diligência abriu as portas da paternidade para agente da Infância e Juventude

Uma bebê foi abandonada pela mãe
na casa da parteira, uma senhora muito pobre e sem condições de cuidar da
criança, em Barra do Bugres. Nomeado guardião legal da criança, Aparecido levou
a bebê com apenas quatro dias de nascida para casa. Ele e a então esposa
cuidaram da recém-nascida até que ela restabelecesse a saúde, ao longo de três
meses. O cuidado foi tamanho que o servidor, que também trabalhava como
professor no período noturno, deixou este emprego para se dedicar ao cuidado
com a menina.
Aparecido revela que não tinha
interesse em adotar, mas, após três meses de acolhimento daquela bebezinha,
decidiu que queria ficar com ela para sempre e pediu para entrar na fila da
adoção. O processo levou tempo, pois investigações foram feitas e a mãe
biológica foi identificada. Ela teve que registrar a criança, mas acabou
perdendo o pátrio poder e, então a menina pôde participar do processo de
adoção. “Ela veio como um presente de Deus”, afirma Aparecido.
Já estava escrito
“Eu acho que tudo já estava
escrito pra ser dessa forma. Ele já era meu pai, só foi me buscar”, afirma
Érica Taiane Buzato da Silva, 36 anos, filha mais velha de Aparecido, que sente
o mesmo. “Pra mim, já existia uma paternidade de verdade, o vínculo, o cuidado
e o amor vieram antes da ‘chegada’. Quando ela diz isso, eu sinto que a nossa
história confirmou o que a gente viveu todos os dias”, diz o servidor.
Érica conta que seus “pais do
coração” sempre foram transparentes em relação à sua origem e que, mesmo
passando anos questionando o porquê do abandono, o amor que recebeu da família
a levou a superar todas as dores.
“Eu sempre soube que eu era
adotada. Fui a primeira filha deles. Depois, eu tive mais dois irmãos e a gente
cresceu muito feliz. O meu pai é uma pessoa maravilhosa na minha vida! Não sei
nem como agradecer porque, se não fosse ele, eu não sei o que poderia ter
acontecido comigo. Sou muito grata ao meu pai e à minha mãe porque cuidaram de
mim com todo amor, sem nenhuma diferença de mim e os meus irmãos”, diz.
A gratidão relatada por Érica é
sentida também por parte do pai dela. “Me sinto profundamente grato e em paz.
Olhando pra trás, vejo que o acolhimento que demos à Érica foi mais do que
cuidados: foi amor que sustentou a ela e a mim”, afirma. Em relação à paternidade,
que começou com a chegada de Érica em sua vida, Aparecido conta que sempre viu
como algo muito simples a educação dada a ela e aos demais filhos, Evili e
Lucas. “Nunca vi a Érica diferente, mas sim como filha, igual aos outros”,
conta.
Legado construído com exemplo
Aparecido destaca que sempre
priorizou transmitir aos filhos valores como honestidade, caráter e
determinação para batalhar pelos objetivos. “Eu sempre busquei passar esses
valores no comportamento e nas escolhas do dia a dia, sendo honesto, firme e
batalhador, para que eles aprendessem com a nossa convivência, não só com
palavras”, pontua.
Para Érica, ficaram desses
ensinamentos a admiração e o desejo de seguir os mesmos passos do pai. “Meu pai
é uma pessoa de muito caráter, muito esforçado, inteligente, batalhador. Eu sei
que a vida dele também foi muito difícil. Eu não sou igual a ele, mas tento ser
e me espelho nele porque é uma pessoa maravilhosa. Ele me ensinou a ser uma
pessoa honesta e a lutar pelos meus objetivos, pela minha felicidade. Eu conto
tudo pra ele, então, a gente tem realmente uma ligação muito forte”, afirma
Érica.
Ela destaca que se considera
parecida até fisicamente com Aparecido. “É estranho, mas eu acho que a
convivência faz a gente ficar parecido. Dizem que pai é quem cria, mas, pra
mim, é mais do que isso: meu pai é meu porto seguro, minha referência”.
Por sua vez, Aparecido diz ser muito gratificante e emocionante ver os frutos do seu amor de pai. “Saber que a minha presença ajudou a formar o caráter dela e que hoje existe essa conexão me dá orgulho, e também me faz querer continuar fazendo o certo todos os dias”.
Apoio incondicional
Encontrar nos pais um porto
seguro fez com que Érica tivesse coragem para encarar de frente seu passado e,
depois de adulta, buscar suas origens. “Eu não perguntava por que achava que
era algo que machucava eles, de certa forma. Mas, quando eu perguntei, ele foi
atrás, conseguiu o contato de outro pai que também tinha adotado a minha outra
irmã. Meu pai me ajudou e eu conheci ela e outro irmão, filho dessa minha mãe
biológica. E foi muito legal conhecê-los porque faz parte da minha história, de
certa forma, porque têm o meu sangue”, relata Érica. Ao reencontrar os irmãos
biológicos, sua genitora havia falecido um ano antes.
Da parte de Aparecido, ele conta
que ajudar Érica nesse processo de resgatar o contato com a família biológica
foi um misto de carinho e responsabilidade. “Eu entendia o desejo dela de
conhecer as origens e apoiei esse caminho. Ao mesmo tempo, eu precisava
respeitar o tempo dela e garantir que essa busca não virasse dor ou culpa. Ver
que ela conseguiu se aproximar com segurança me deixa muito satisfeito”,
avalia.

Pai e apoiador, Aparecido confirma que a distância aperta o coração, mas que, ao mesmo tempo, sente orgulho ao ver que Érica está correndo atrás dos próprios objetivos com coragem. “A gente procura estar presente do jeito que dá, com diálogo, apoio e carinho. E isso ajuda a transformar a saudade em motivação”.
Adoção
Enquanto agente da Infância e
Juventude, Aparecido ressalta que a Justiça tem um papel fundamental em
garantir que toda criança tenha o direito de crescer em um ambiente seguro, com
afeto, dignidade e oportunidades. “A adoção não é apenas um ato jurídico; é a
construção de uma família baseada no amor e na responsabilidade”, avalia.
Ele lembra que, desde quando
adotou Érica até os dias atuais, a legislação evoluiu muito. “Hoje, o processo
de adoção é mais estruturado, transparente e voltado, acima de tudo, ao melhor
interesse da criança e do adolescente. Há uma preparação maior das famílias,
acompanhamento técnico e mecanismos que buscam reduzir o tempo de permanência
de crianças em acolhimento institucional, sempre preservando seus direitos”,
explica.
Aparecido aproveita este Dia dos
Pais para deixar uma mensagem a todos os pais: “Aos pais biológicos, que
valorizem o privilégio de acompanhar o crescimento dos seus filhos com amor,
presença e responsabilidade. E aos pais de coração, que nunca duvidem da força
do amor que escolheram oferecer. A verdadeira paternidade não é definida pelo
sangue, mas pela presença, pelo cuidado, pelo exemplo e pelo compromisso de
estar ao lado do filho em todos os momentos da vida. É esse amor que transforma
histórias, fortalece famílias e constrói seres humanos melhores”, declara.
Érica, por sua vez, afirma:
“Adoção não é sobre preencher um vazio, mas sobre transbordar o amor, porque é
isso que eu sinto”.
Celly Silva
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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