FestLab: TJMT compartilha experiência da LexIA e fortalece colaboração tecnológica entre tribunais
A experiência do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) no desenvolvimento e uso responsável da inteligência artificial está avançando para uma nova etapa: a LexIA, plataforma de IA generativa criada pelo Judiciário mato-grossense, está em processo de nacionalização para ser disponibilizada aos tribunais de Justiça de todo o Brasil. A trajetória da ferramenta, desde a concepção até a integração aos sistemas judiciais, foi apresentada pelo presidente do Comitê de Governança de IA, desembargador Luiz Octávio Oliveira Saboia Ribeiro, na tarde desta quinta-feira (20), durante a 6ª edição do FestLab.Na palestra “LexIA – A plataforma de IA Generativa do TJMT”, o desembargador mostrou como a ferramenta foi desenvolvida para apoiar magistrados e servidores na análise de processos e na elaboração de minutas, com integração ao Processo Judicial Eletrônico (PJe). O objetivo é utilizar a tecnologia para tornar o trabalho mais ágil e eficiente, sem abrir mão da segurança, da governança dos dados e, principalmente, da supervisão humana.
Sempre com o profissional no comando das decisões, a LexIA utiliza inteligência artificial para analisar, fazer a triagem e estruturar informações diretamente dos processos. Com isso, atividades repetitivas podem ser reduzidas e magistrados e servidores passam a contar com mais apoio para a análise dos casos e a tomada de decisões.
Para o desembargador Saboia, a incorporação da inteligência artificial ao Judiciário precisa ser compreendida como uma decisão estratégica diante do crescimento das demandas e da necessidade de oferecer respostas cada vez mais eficientes à sociedade. Ele destacou que o país possui cerca de 80 milhões de processos em tramitação e que, apesar dos avanços tecnológicos das últimas décadas, o ingresso de novos casos continua representando um desafio.
“A inteligência artificial nos dá grandes poderes, grandes possibilidades. Mas, para isso, eu preciso ter também amplificada a minha responsabilidade. A responsabilidade de auditar, de verificar o resultado e de não consumir uma informação sem fazer a verificação dos dados”, ressaltou.
Justiça híbrida
A apresentação dialogou diretamente com o tema da 6ª edição do FestLab, “Justiça Híbrida: Humanos, Dados e Inteligência Artificial”, baseada na convivência e colaboração entre estes três pontos. Segundo o desembargador, o caminho escolhido pelo TJMT coloca a tecnologia como instrumento de apoio à capacidade humana, e não como substituta do profissional.
“Eu não tenho dúvida de que o futuro do Judiciário é um futuro híbrido”, afirmou. Para Saboia, a questão central é definir como será construída essa relação. “A opção que nós fizemos aqui é a opção do cérebro humano ser impulsionado pela máquina. Ou seja, a pessoa que é auxiliada pela máquina”, explicou.
O desenvolvimento da LexIA também partiu da compreensão de que a evolução tecnológica ocorre de forma contínua. Novos modelos de inteligência artificial, formas de interação e possibilidades de integração surgem constantemente. Por isso, a plataforma foi estruturada para evoluir e se conectar aos sistemas institucionais já utilizados pelo Judiciário.
A LexIA possui versões Web e Plugin. Na primeira, magistrados e servidores podem trabalhar com documentos processuais, criar agentes personalizados, selecionar diferentes modelos de linguagem e utilizar bases de conhecimento. Já o Plugin permite acessar as funcionalidades diretamente dentro do PJe, sem que o usuário precise sair do sistema judicial para utilizar a inteligência artificial.
Entre as funcionalidades apresentadas estão resumo e análise de processos e documentos, elaboração assistida de minutas, criação e compartilhamento de agentes personalizados e integração com documentos processuais. A plataforma também vem recebendo novos recursos, desenvolvidos e avaliados gradativamente antes da disponibilização aos usuários.
Segurança e governançaUm dos pilares apresentados durante a palestra foi a proteção das informações processuais. Desde sua concepção, o projeto buscou evitar o uso indiscriminado de ferramentas genéricas de IA com dados judiciais e criar um ambiente institucional controlado, com rastreabilidade, proteção de dados e mecanismos de governança.
A estrutura do Comitê de Governança conta com o Comitê de Gestão Estratégica de Inteligência Artificial (CGEIA), responsável pelas diretrizes, estratégias e alinhamento institucional, e o Comitê Técnico Operacional de Inteligência Artificial (CTOIA), voltado aos aspectos técnicos, metodológicos e de segurança das soluções.
Segundo Saboia, a implantação da inteligência artificial não se resume à entrega de uma ferramenta tecnológica. Ela envolve capacitação, definição de métodos, participação dos usuários no desenvolvimento e mecanismos de controle. No TJMT, a adoção de novas funcionalidades é precedida por avaliações técnicas e de usabilidade, enquanto a capacitação dos usuários contempla tanto conhecimentos básicos sobre IA quanto o funcionamento da própria LexIA.
A plataforma também adota curadoria dos agentes e prompts que podem ser disponibilizados de forma ampla. Embora os usuários possam criar seus próprios agentes, aqueles destinados ao uso coletivo passam por análise antes da publicação.
Do Mato Grosso para o Brasil
O desenvolvimento começou com testes e validações e ganhou escala institucional em 2025. Em fevereiro de 2026, o Conselho Nacional de Justiça iniciou as tratativas com o TJMT para a nacionalização da LexIA. A documentação sobre a construção, funcionamento e implantação da plataforma está sendo compartilhada com o CNJ para permitir que a solução seja disponibilizada aos demais tribunais interessados.
“Hoje nós estamos podendo contribuir, de alguma forma, com o Judiciário Nacional com a entrega que estamos fazendo”, destacou Saboia. Para ele, a nacionalização também representa o reconhecimento de uma política institucional construída pelo TJMT para incorporar novas tecnologias de maneira responsável.
O desembargador ressaltou ainda que a inovação não deve ficar concentrada em uma única área. A estratégia do Tribunal é permitir que diferentes setores identifiquem problemas e desenvolvam soluções, desde que observados métodos e mecanismos comuns de governança.
“Inovação não tem dono. Nós temos que estimular que todas as áreas se sintam empoderadas e capacitadas. Precisa apenas de método e governança para que isso aconteça”, afirmou.
Reconhecimento nacional
A trajetória da LexIA também ganhou reconhecimento durante o 6º FestLab. A ferramenta generativa do TJMT foi premiada no 3º Prêmio de Inovação do Poder Judiciário, promovido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), conquistando destaque na categoria “Tecnologia Judicial Inovadora – Inovações com Resultados Comprovados”.
O reconhecimento soma-se ao processo de nacionalização e reforça a perspectiva de compartilhamento da solução entre os tribunais. A juíza auxiliar da Presidência do CNJ, Luciana Dória de Medeiros Chaves destacou que a LexIA chamou a atenção do Conselho pelas funcionalidades oferecidas e pela integração ao ambiente judicial.
Segundo ela, o contato com a solução ocorreu no contexto da busca do CNJ por iniciativas tecnológicas que pudessem ser compartilhadas nacionalmente. “A ideia do CNJ e da colaboração em rede é exatamente essa. Quando eu participo e conheço novas soluções, posso me inspirar a ter novas soluções, mas também posso aproveitar aquilo que o colega já desenvolveu”, afirmou.Luciana Dória ressaltou que a troca de experiências entre os tribunais evita a duplicação de esforços humanos e financeiros e permite acelerar a transformação digital do Judiciário. “A gente tem que interagir para que essas ferramentas sejam cada vez mais disponibilizadas e mais integradas, principalmente para que não se gaste esforço humano nem dinheiro com coisas que já estão funcionando e funcionando muito bem”, pontuou.
Cooperação além das fronteirasA experiência mato-grossense também começa a despertar interesse fora do Brasil. Depois de conheceram soluções desenvolvidas pelo TJMT durante visita ao Brasil, representantes do Conselho Superior da Magistratura de Portugal convidaram o TJ para apresentar suas iniciativas em um encontro previsto para novembro, em Lisboa.
Para o desembargador Saboia, o movimento demonstra como a inovação colaborativa pode ultrapassar as fronteiras institucionais. “A ideia com os laboratórios de inovação é sempre criar um grande movimento de inovação”, destacou, lembrando que inovar não significa necessariamente desenvolver tecnologia, mas também repensar processos de trabalho e formas de atuação, mantendo o cidadão no centro das decisões.
Ao encerrar a palestra, Saboia resumiu a trajetória da LexIA como uma iniciativa que começou com a intenção de atender às necessidades do Judiciário mato-grossense e que agora alcança uma dimensão nacional.
“Nasceu de uma vontade, de um sonho, com a intenção de fazer uma entrega real para o Judiciário local. Hoje estamos entregando ela para o Brasil, para colaborar com os tribunais e levar essa mesma ferramenta para outras realidades”, concluiu.
Ana Assumpção / Foto: Josi Dias e Rodrigo Moura
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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